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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Épico Duna: Parte Dois cumpre tudo o que o anterior prometeu


Apesar de já ter tido uma parcela considerável de adaptações para o Cinema e para a Televisão, foi a versão exótica comandada por David Lynch em 1984 que por muito tempo permaneceu na mente do espectador como a visão definitiva do universo concebido pelo norte-americano Frank Herbert em seu best-seller. Somente em 2021 pudemos finalmente nos libertar da famigerada lembrança criada (e renegada) por Lynch, com a produção idealizada por Denis Villeneuve. O canadense, já consolidado na Indústria como um dos melhores cineastas de sua geração (é dele o estupendo A Chegada, por exemplo), trouxe uma visão mais taciturna e sóbria do romance publicado em 1965. O resultado foi, como esperado, infinitamente superior ao apresentado pelo longa de 1984, mas apesar de todos os seus predicados, possuía problemas que o impediam de ser encarado como a adaptação definitiva de Duna.

Não me entenda mal, gosto do longa de 2021, que além de oferecer uma experiência cinematográfica recompensadora (as salas IMAX proveram um verdadeiro banquete para os sentidos), merece créditos por confiar na inteligência e na atenção do espectador, uma qualidade que a maioria dos blockbusters atuais infelizmente não possui. No entanto, Villeneuve e seus co-roteiristas tiveram dificuldades de lidar com o material de origem, notoriamente denso. Havia muita coisa acontecendo e o tempo todo: um volume descomunal de informações era bombardeado num espectador que mal absorvera conceitos como Lisan al Gaib e Kwisatz Haderach. Além de toda a mitologia a ser apresentada, o roteiro ainda tinha de dar conta do arco dramático do jovem Paul Atreides e todo o jogo político envolvendo as Grandes Casas e o Império. Duna: Parte Dois ainda tem potencial (embora menor) para confundir o público casual, mas se revela uma clara evolução em relação ao longa-metragem anterior.

Agora que as maiores movimentações do xadrez pelo poder já foram feitas, Villeneuve e Jon Spaihts (que, ao contrário de Eric Roth, retorna como roteirista) podem se concentrar na jornada do aspirante a herói Paul Atreides (Timothée Chalamet, recém-saído do bom Wonka), antes um arquétipo transposto diretamente da Jornada do Herói de Joseph Campbell e sem qualquer refino, e agora um jovem em conflito entre abraçar seu destino e se vingar pela morte do pai. Nesse aspecto, Chalamet, um intérprete que aprendi a admirar após o excepcional Me Chame Pelo Seu Nome, é hábil ao transmitir as transformações de Paul através de escolhas sutis: repare, por exemplo, como ele inicia a projeção com uma postura acanhada e com um tom de voz baixo e trêmulo e termina dando passos confiantes e fazendo discursos motivacionais aos berros.

Seu relacionamento amoroso com Chani (Zendaya, de O Rei do Show), pode até soar uma etapa protocolar dentro da narrativa, mas que funciona não apenas por desempenhar papel importante referente à Profecia, mas também em função da performance carismática de Zendaya, certeira ao dar motivos para ser desejada por Paul, consequentemente despertando nossa simpatia. Numa produção que ainda reserva espaço para participações especiais de Christopher Walken (visto pela última vez na ótima série Ruptura) e Stellan Skarsgaard (novamente irreconhecível como o vilanesco Barão Harkonnen), é Javier Bardem quem acaba roubando a cena como Stilgar, líder dos Fremen e absolutamente certo de que Paul Atreides é o Messias que seu povo por tanto tempo esperou, algo que esporadicamente arranca boas gargalhadas.

E se a Parte Um sofria com problemas de ritmo, escancarados pela forma paciente e, consequentemente, morosa com que Villeneuve conduziu a narrativa, sua continuação se mostra muito mais sólida e um trabalho mais seguro da parte do cineasta três vezes indicado ao Oscar. Além de possuir mais sequências de ação, Duna: Parte Dois é mais enérgico e a medida que o clímax se aproxima, consegue engajar o espectador através de uma atmosfera de urgência sustentada pelas quase três horas de projeção, culminando num terceiro ato simplesmente espetacular ao entregar tudo o que o longa de 2021 prometeu e muito mais, numa batalha de grande escala que sacramenta as transições do protagonista.

Falando nisso, a escala permanece colossal e evidencia os ótimos efeitos visuais que já renderam um Oscar para a franquia em 2022. Enquanto isso, a fotografia de Greig Fraser, deixa o verde dessaturado de lado para apostar em cores quentes que refletem a atmosfera da narrativa. Por fim, é impossível falar de Duna sem mencionar Hans Zimmer e suas galardoadas composições, que agora ganham complementos que valorizam o lado épico finalmente abraçado por Villeneuve, mas principalmente os momentos mais íntimos, com destaque para a melodia que embala o romance central. Ainda na parte sonora, cabe uma menção honrosa para os profissionais do design de som: durante uma luta crucial na segunda metade, note que a trilha sonora cessa, fazendo com que sejam ouvidos apenas os ruídos provenientes dos choques entre as lâminas e dos golpes desferidos, potencializando o impacto desta sequência.

Terminando com mais um gancho, embora menos escandaloso (e potencialmente menos frustrante) dessa vez, Duna: Parte Dois é um épico espacial empolgante e bem-acabado, mostrando-se não apenas uma melhora em relação ao capítulo anterior, mas também indicando um futuro tão promissor que deverá representar um desafio e tanto para ser superado.


NOTA 8,5


1 Comment


Jnei Cândido
Jnei Cândido
Feb 28

Excelente. Parabéns pela Crítica.

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