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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"A Noite das Bruxas" coloca racionalidade de Poirot em xeque


Após refilmar Assassinato no Expresso do Oriente, beneficiando-se de um elenco estelar para conquistar bons números nas bilheterias, o diretor, produtor e protagonista Kenneth Branagh apostou em Morte no Nilo para dar continuidade à mais nova franquia de adaptações cinematográficas das obras da “Rainha do Crime” Agatha Christie. A produção, entretanto, teve uma passagem tímida pelos cinemas (ainda sob os impactos da pandemia de Covid-19), o que já seria suficiente para colocar o futuro da franquia em risco, mas o sucesso estrondoso que fez no streaming encorajou o estúdio a financiar mais uma continuação, permitindo a Branagh completar sua trilogia com este improvável A Noite das Bruxas. Publicado em 1969, o romance foi um dos últimos escritos pela autora inglesa e passou longe da repercussão e do prestígio de seus romances anteriores.

A escolha por uma obra menos conhecida é compreensível, afinal, a ideia de Kenneth Branagh é dar uma bem-vinda chacoalhada nas expectativas do público, algo que se torna menos difícil quando não se está tão familiarizado com a história. Além das mudanças mais evidentes em relação ao material de origem (especialmente na ambientação), o diretor busca se afastar da zona de conforto oferecida pelo sucesso dos antecessores, adicionando elementos que desafiarão os espectadores que estiverem aguardando uma experiência familiar e, consequentemente, repetitiva. Claro que o arroz com feijão representado pela investigação de Hercule Poirot continua presente, com a metodologia, a perspicácia e a arrogância do detetive belga intactas, mas agora temperado com um flerte inesperado com o terror. Isso porque a ambientação gótica e a incorporação do sobrenatural oferecem possibilidades promissoras para Branagh brincar com o gênero.

Na trama, que se passa dez anos após o desfecho de Morte no Nilo, Poirot está descansando em Veneza, local escolhido por ele para aproveitar sua recém-anunciada aposentadoria, frustrando a fila que se forma diariamente na porta de sua casa buscando a notória habilidade do detetive em solucionar mistérios. Sucumbir à tentação de encarar mais um caso se torna uma tarefa menos complicada quando se tem um segurança particular para manter possíveis clientes à distância, como o ex-policial Vitale Portfoglio, vivido pelo astro italiano Riccardo Scamarcio, do regular Tre Piani.

Tudo muda quando uma velha amiga, a autora de romances policiais Ariadne Oliver (interpretada pela comediante Tina Fey) aparece para lhe pedir um favor: desmascarar uma rival que estará presente numa badalada festa de Halloween. Acontece que a tal rival é a Sra. Reynolds (Michelle Yeoh, atual vencedora do Oscar de Melhor Atriz por Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo), uma famosa médium contratada pela anfitriã Rowena Drake (Kelly Reilly, da série Yellowstone), para promover uma sessão espírita a fim de conectá-la à sua filha recém-finada.

Também estarão presentes o atormentado Dr. Ferrier acompanhado de seu filho, o precoce Leopold (Jamie Dornan e Jude Hill, pai e filho também em Belfast, que rendeu o Oscar de Melhor Roteiro a Branagh) e o ex-noivo da falecida. Como não poderia deixar de ser, alguém é misteriosamente assassinado, transformando todos os convidados em suspeitos aos olhos atentos do detetive Hercule Poirot, que se vê forçado a abandonar a aposentadoria para provar que o crime não teve relação com o sobrenatural.

Logo em seus primeiros minutos, A Noite das Bruxas já deixa claro que não será um suspense policial comum, com a paisagem nublada de Veneza sendo captada através de ângulos de câmera ortodoxos que sugerem um desacerto, algo ressaltado pelas melodias sombrias compostas pela islandesa Hildur Guðnadóttir (vencedora do Oscar por Coringa) e sacramentado por um jump scare envolvendo o ataque de uma gaivota a um pombo. Além disso, embora diga para todos que está satisfeito longe dos casos policiais, Poirot está visivelmente fora do prumo, perturbado por pesadelos constantes que sugerem uma falta de harmonia em sua vida. Mas deixemos seu arco dramático mais para frente.

Pois antes de continuar o desenvolvimento do protagonista, o roteirista Michael Green (que também escreveu os longas anteriores) trata de aliar a pré-estabelecida estrutura de whodunit (o popular “quem matou?”) a um cenário de terror de casa mal-assombrada, lançando mão de elementos consagrados desse filão para impedir que o espectador baixe a guarda. Nesse sentido, Kenneth Branagh opta por uma abordagem mais light, jamais consumando o affair com o horror propriamente dito, o que talvez decepcione os fãs do gênero, mas que é fundamental para não afastar o público-alvo.

Essa aproximação com o terror é tratada pelo cineasta como o grande diferencial desse terceiro filme em relação aos predecessores, apresentando-se como uma solução para driblar o lugar-comum no qual a franquia facilmente poderia ter se acomodado. Para isso, ele tem liberdade para trabalhar ângulos de câmera que lembram muito seu trabalho a frente do excepcional Frankenstein de Mary Shelley. A propósito, ao manter a lente sempre próxima do rosto dos atores, ele cria uma atmosfera de claustrofobia que quando combinada aos frequentes plongées desperta um desconforto acentuado no espectador.

Isso prova que o cineasta não está interessado no choque barato, utilizando o tom pesado da narrativa para refletir os conflitos internos do protagonista. A racionalidade inexorável de Poirot é posta em xeque pelas experiências supostamente inexplicáveis pelas quais ele passa dentro do casarão, funcionando por tabela como a força motriz do enredo. Mas o roteiro não é muito hábil em congregar esses eventos com o estado psicológico do detetive, já que sua própria natureza e o estilo de Christie se contrapõem ao que Michael Green planeja, culminando num constrangedor monólogo que busca resumir a moral da história ("não podemos fugir dos nossos fantasmas. Temos que fazer as pazes com eles"). Também há um excesso de flashbacks que corrobora essa falta de confiança do roteirista no espectador, como se fôssemos incapazes não apenas de lembrar do que foi mostrado, mas também de conectar as pistas lançadas no decorrer da história, no melhor estilo Scooby-Doo.

Aparentemente ciente da fragilidade do arco dramático de Poirot, Branagh prefere concentrar seus esforços em ilustrar a dúvida que o detetive tanto tenta esconder possuir, surgindo mais confortável ainda nos momentos em que o vemos em ação. Enquanto isso, a escalação de Tina Fey mostra-se questionável, já que seus dotes cômicos jamais são exigidos e não há química alguma com Branagh, ao passo que Michelle Yeoh diverte-se a valer na pele da enigmática Sra. Reynolds. O destaque inquestionável da produção, no entanto, é o jovem Jude Hill. Se antes ele foi capaz de injetar vivacidade e inocência no protagonista de Belfast, agora ele surge taciturno como Leopold, cuja conexão com os contos de Edgar Allan Poe só não é maior do que aquela que possui com o pai.

Como diretor, Kenneth Branagh apresenta seu melhor trabalho dentro da franquia. Observe, por exemplo, a liberdade com que ele move a câmera numa sequência específica em que Poirot reúne todos os suspeitos. Subjetiva, ela passeia pelos rostos dos personagens como se o detetive examinasse cada um, até que a entrada de seu segurança em cena corta o movimento, atraindo para si o olhar de Poirot e do público. Outro momento marcante é quando o protagonista persegue alguém pelos corredores escuros da mansão, com a câmera mais uma vez se movendo livremente (ela chega a ficar de cabeça para baixo durante a sequência). São detalhes que fazem a diferença e mostram um cineasta disposto a inovar.

Com um design de produção que faz ótimo uso do casarão que serve de palco para a maior parte da história e uma fotografia que valoriza as sombras e se beneficia do âmbar, A Noite das Bruxas está longe de ser a melhor adaptação de Agatha Christie (sequer supera a primeira desta trilogia), oferecendo um mistério mais sinistro e menos complexo que o habitual, mas saboroso o bastante para saciar os fãs. Seu maior pecado mesmo foi ter estreado cedo demais, pois seria uma ótima opção de entretenimento no Halloween.


NOTA 6,5

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