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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"A Queda" chega aos cinemas prometendo vertigem e tensão


Narrativas centradas em apenas um ou dois personagens tentando sobreviver a uma situação extrema não são nenhuma novidade no Cinema. Seja no mar (Até o Fim, Águas Rasas), na terra (127 Horas, Náufrago), abaixo da terra (Enterrado Vivo) ou até mesmo no espaço (Gravidade), Hollywood já nos proporcionou uma série de experiências que invariavelmente nos provocam medo, apreensão e ansiedade ao testemunharmos personagens tendo que superar seus próprios limites para sobreviverem. A Queda se encaixa exatamente nesse perfil, colocando duas amigas aventureiras presas no topo de uma torre de TV abandonada com mais de 600 metros de altura.


Nesse tipo de filme, embora os realizadores tentem construir uma história de fundo para fortalecer seu elo com o espectador e/ou criar a ilusão de que há um desenvolvimento dramático, o que costuma ser mais interessante mesmo é a situação em si, estimulando nossa torcida para que o herói ou heroína consiga se safar. Pois em Fall (no original), toda a subtrama envolvendo o relacionamento de Becky (Grace Caroline Currey, de Shazam!) com seu pai (Jeffrey Dean Morgan, o Negan da série The Walking Dead) descamba para o melodrama, mas só escapa do fracasso absoluto por possibilitar respiros muito bem-vindos.

Afinal, o roteiro escrito por Jonathan Frank em parceria com o diretor Scott Mann (ambos de porcarias como Vingança Entre Assassinos e Refém do Jogo) é estruturado em cima de sequências que, ao serem esticadas para gerarem suspense, acabam se tornando pequenas aventuras concebidas sob medida para deixar a plateia inquieta. Assim, quando logo no início vemos Becky derrubar sua mochila sobre uma estrutura não muito distante de onde ficam presas, já sabemos que em algum momento ela e sua amiga se esforçarão para resgatá-la.

Nesse ponto, o cineasta Scott Mann merece créditos por fazer até mesmo essa passagem soar como uma operação de proporções épicas, sendo auxiliado pela exagerada trilha sonora de Tim Despic (também de Refém do Jogo), que certamente testará o volume das salas de cinema ao redor do mundo com seus acordes grandiloquentes. Além disso, A Queda também se beneficia dos ótimos planos aéreos do diretor de fotografia MacGregor (Viveiro), que intensificam o drama das protagonistas, seja por enfatizar o isolamento delas (a torre fica praticamente no meio de uma área deserta) ou por mostrar a distância que estão do solo. Aliás, essas tomadas, especificamente, fazem valer um alerta para aqueles que possuem fobia de lugares altos.

Enquanto Grace Caroline Currey e Virginia Gardner (Por Lugares Incríveis) pouco podem fazer além de caras de choro e expressões de sofrimento, também não comprometem, assim como os efeitos visuais, mesmo que o baixo orçamento evidencie imperfeições em alguns momentos (o excesso de tela verde deixa claro que o longa-metragem foi gravado em estúdio). E se a montagem de Robert Hall (King's Man - A Origem) dá um caráter episódico à narrativa em virtude do excesso de fade outs, o roteiro merece um capítulo à parte.

Se ao menos o foreshadowing é utilizado adequadamente (especialmente o truque da lâmpada), a dupla de roteiristas falha miseravelmente em outros aspectos. Os diálogos, por exemplo, são dolorosos de se ouvir. Ora escancarando o óbvio (“acho que já está claro agora”, é dito enquanto o Sol enche o fundo da tela), ora emulando os livros de autoajuda (“você é muito mais forte do que pensa”), até parece que Scott e Mann escreveram tudo às pressas, como se as falas fossem desimportantes. E quem, como eu, teve a infelicidade de assistir a seus dois últimos filmes, sabe que esse é exatamente o padrão de qualidade da dupla.

Rivalizando com os diálogos, algumas soluções propostas para os problemas enfrentados por Becky e Hunter demandarão uma suspensão de descrença considerável por parte do espectador, ao passo que o uso de sequências de pesadelo se mostra uma estratégia absolutamente questionável, já que funcionam apenas para aumentar a duração da projeção. Vale ressaltar também dois momentos tirados diretamente de outros filmes: o início praticamente idêntico ao de Missão: Impossível 2 (ao menos o roteiro é justo ao mencionar Ethan Hunt) e uma sequência de roubo conceitualmente idêntica à de Águas Rasas (que também incluía uma estrutura metálica vermelha abrigando a protagonista).

Tudo isso, na verdade, é posto em segundo plano quando levamos em consideração que a produção não está interessada em proporcionar nada além de tensão e vertigem, na esperança de que o espectador esteja aflito demais para se importar com eventuais absurdos vindo de situações, soluções ou diálogos. Um tipo de entretenimento vazio e esquecível, mas honesto em suas pretensões.


NOTA 5,5

1 Comment


Jnei Cândido
Jnei Cândido
Feb 01, 2023

concordo com a nota.

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