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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

'A Sala dos Professores' exala tensão em meio a pautas contemporâneas


Representante da Alemanha na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional (o país europeu venceu no ano passado com Nada de Novo No Front), Das Lehrerzimmer ("A Sala dos Professores", em tradução literal), coloca uma professora no centro de um vórtice de acontecimentos catastróficos que ela própria iniciou.


Carla Nowak (Leonie Benesch, de A Fita Branca) é o tipo de profissional que tem domínio absoluto da turma. Não apenas isso, Carla é querida pelos alunos, respeitada pelos colegas docentes e goza de um prestígio invejável com a direção. Rápida e eficaz na solução de problemas, ele tem jogo de cintura suficiente para resolver qualquer situação que aparecer. Ou pelo menos era o que ela achava.

Quando uma série de furtos é detectada no colégio, ela se mostra reticente em colaborar com a investigação. Afinal, a direção elege um pacato aluno como principal suspeito. Filho de imigrantes turcos, ele é encarado como um alvo fácil pela educadora, que faz de tudo para mostrar que a apuração dos fatos está indo por um caminho perigoso. Logo depois, ela senta-se à mesa na sala dos professores para realizar uma chamada de vídeo, mas é novamente chamada ao gabinete da diretora e sai às pressas, deixando a câmera ligada.

Quando retorna, Carla não só detecta que sua carteira está com dinheiro a menos, como tem a ideia de retroceder a gravação das imagens, percebendo que o(a) suspeito(a) está usando uma blusa com estampa de estrelas, coincidentemente (ou não), a mesma vestida pela Sra. Kuhn (Eva Löbaus, a Miriam Dreyfuss de Bastardos Inglórios) secretária da direção, que trabalha há mais de 14 anos na instituição. Carla até tenta uma abordagem sutil, sugerindo uma solução pacífica para a mulher, que acaba terrivelmente ofendida com a acusação, negando veementemente. A professora, então vai direto à sua superior, apresentando o vídeo como principal evidência. Enquanto uma nova investigação se inicia, a Sra. Kuhn é suspensa, recebendo férias, mas não antes de fazer um escarcéu, chamando Carla de mentirosa.

Com isso, a reputação até então imaculada de "solucionadora de conflitos" é posta em xeque, já que ela passa a contar com o desprezo de Oskar (Leonard Stettnisch), filho da secretária e aluno (dos bons) de Carla. O menino, inicialmente apenas não entende os motivos de a mãe ficar impossibilitada de trabalhar e quando finalmente é exposto aos fatos, se revolta a ponto de estimular uma rebelião por conta de seus colegas de classe. Apesar de extensa, essa premissa corresponde apenas a um terço do roteiro escrito pelo próprio diretor Ilker Çatak em parceria com Johannes Duncker, que apresenta novos e cada vez mais desafiadores obstáculos na vida profissional da protagonista.

Quando algum problema surge no caminho de Carla, ela faz questão de encará-lo de peito aberto, mas a cada solução encontrada, mais questões surgem, como se ela estivesse diante da Hidra, cortando uma cabeça apenas para mais e mais aparecerem. Com isso, a produção mantém o espectador envolvido numa teia de acontecimentos semelhante a uma bola de neve, gerando uma expectativa tão grande quanto perigosa. A Sala dos Professores conseguirá apresentar uma conclusão à altura do que vimos até então?

Tenso, dinâmico e absolutamente imersivo, o filme conta com uma performance estupenda de Leonie Benesch, que absorve toda a carga dramática da personagem e transmite as emoções através do rosto expressivo e da linguagem corporal enérgica, agitada. A direção, infelizmente, soa dispersa ao apostar em sequências que buscam uma aproximação com o terror psicológico, ilustrando a exaustão psicológica da protagonista. São momentos em que o cineasta Ilker Çatak pesa a mão e distrai o espectador do que realmente importa: a jornada da protagonista.

Incorporando questões atuais como o racismo estrutural, a xenofobia, a privacidade e até mesmo a liberdade de expressão (numa ótima passagem envolvendo o jornal da escola), A Sala dos Professores é oferece uma experiência que dificilmente permitirá que o espectador baixe a guarda durante seus pouco menos de 100 minutos de projeção.


NOTA 8,5


Crítica publicada durante o Festival do Rio 2023

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