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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

'Assassino Por Acaso' mescla gêneros ao promover entretenimento inteligente


Exibido sob aplausos no Festival de Veneza, Assassino Por Acaso chegou ao Festival do Rio em cima da hora, fazendo a alegria dos fãs do cineasta Richard Linklater (Antes do Amanhecer, Boyhood). Depois de assistí-lo, torna-se imediatamente incompreensível o fato de o longa-metragem ter sido exibido fora de competição em Veneza, um crime hediondo não apenas pela qualidade da produção, mas especialmente por Glen Powell, ator e dublê de 33 anos que finalmente recebe um papel de protagonista à altura de seu talento. Em sua quarta colaboração com o realizador cinco vezes indicado ao Oscar, Powell interpreta Gary Johnson, professor universitário que leciona psicologia e filosofia por meio-período e passa o restante do dia prestando consultoria para a polícia. Morando numa casa confortável com seus dois gatos (chamados Id e Ego), Johnson é também o narrador da história, oferecendo informações para o público como se estivesse num divã.

Sua vida muda repentinamente quando é escalado pela delegacia para assumir o lugar de um policial que acaba de ser suspenso por agredir adolescentes (“maldita cultura de cancelamento!”, reclama o recém-suspenso). Sua função? Fingir ser um assassino profissional para prender pessoas que estejam procurando alguém disposto a cometer um homicídio. Tímido e confortável na posição burocrática que possui, ele resiste, mas eventualmente acaba cedendo. É aí que o inesperado acontece, pois Gary se transforma completamente quando entra no restaurante para encontrar seu suposto “cliente”. Ameaçador, confiante e, o principal, absolutamente convincente, o professor impressiona seus superiores e cumpre a missão de realizar uma prisão, sob o pretexto de ter salvo uma vida.

Apesar de ter frequentado aulas de teatro na juventude, o fato de ter descoberto sua verdadeira vocação não passa apenas por interpretar papéis (ele se disfarça a cada missão, de acordo com o perfil de cada suspeito), mas sim por enxergar seu novo cargo como uma oportunidade ímpar de alimentar seu fascínio pela consciência e pelo comportamento humanos. Como acadêmico, ele se vê numa pesquisa de campo, não num caso de polícia. Dessa forma, ele pode observar de perto seu maior objeto de estudo: o ser humano, colocando em prática toda a teoria que leciona aos seus alunos (em sequências elucidativas que ainda incluem citações a Nietzsche e Kant).

O problema é que ele acaba se compadecendo com Maddison (Adria Arjona), presa num relacionamento abusivo e que busca os serviços do suposto matador de aluguel para dar cabo do marido. O encontro entre os dois gera um magnetismo instantâneo, tanto que Gary não hesita em recusar o serviço, aconselhando a moça a usar o dinheiro para sair de casa e buscar uma nova vida, longe de problemas. Um momento de fraqueza profissional que levanta um questionamento: ele realmente impediu um homicídio? Essa resposta ele eventualmente terá, pois acaba se aproximando a ponto de iniciar um relacionamento com Maddison.

Escrito pelo próprio Glen Powell ao lado do diretor Richard Linklater, Assassino Por Acaso, por incrível que pareça, é baseado na história real de Johnson (falecido em 2022 aos 75 anos), relatada no artigo escrito pelo jornalista Skip Hollandsworth e publicado na revista Texas Monthly. Mescla de uma série de gêneros e subgêneros, é possível encontrar ecos de um legítimo noir, tropos abundantes de uma saborosa comédia romântica e pitadas do que de melhor a screwball comedy tem a oferecer. Essa mistura é uma especialidade de Linklater, diga-se de passagem, acostumado a navegar por quase todos os tipos narrativos descritos acima. É justamente o seu talento que faz com que a obra promova quase duas horas do mais puro e genuíno Cinema, capturando a atenção do espectador de forma arrebatadora enquanto desfila surpresas e reviravoltas.

Sim, porque Hit Man (no original) não é apenas extremamente divertido (cada disfarce de Gary rende uma generosa parcela de gargalhadas), há espaço de sobra para guinadas narrativas, uma proeza quando percebemos que o enredo funciona dentro de uma estrutura pré-estabelecida e bem conhecida pelo espectador. O melhor de tudo é que por mais que suspeitemos aonde a trama chegará, a jornada é muito mais gratificante do que o destino. Assim que Gary e Maddison se encontram pela primeira vez, por exemplo, não é difícil antever os passos que serão dados até o clímax. Nesse meio-tempo, porém, somos distraídos por eventos ora fascinantes, ora hilariantes. Estamos lidando com um professor de psicologia, afinal. Isso proporciona a Powell e Linklater brincarem com a metalinguagem, construindo momentos em que ator e personagem se unem na arte dramática.

E os argumentos são bons, pois nosso herói explica conceitos como Id, Ego e Superego para dissertar sobre o comportamento humano, enriquecendo o conhecimento do espectador enquanto dá dicas sobre o que acontecerá. Nessa brincadeira mortal engenhosamente arquitetada pelos roteiristas, a inocência é uma mera ilusão. É fascinante e assustador perceber as mudanças do protagonista e a forma como coloca em prática tudo o que ensina.

Powell, claro, agarra a chance de poder demonstrar toda a sua versatilidade, divertindo-se a valer no processo. Note a linguagem corporal que ele adota quando Gary está na faculdade e os modos espalhafatosos que assume nos trabalhos policiais, por exemplo, e você testemunhará um talento bruto nas telas, algo do qual só tivemos sinais em filmes como Top Gun: Maverick (quando emulou com facilidade os trejeitos de Val Kilmer) e Irmãos de Honra. O texano é perspicaz ao evitar cair na armadilha de transformar Gary Johnson no típico nerd desajeitado, exaltando a inteligência e o raciocínio rápido do homem mesmo sob pressão. A porto-riquenha Adria Arjona não faz muito diferente, deixando para trás bombas como Justiça em Família e Morbius para abraçar um papel que se beneficia imensamente da química com o protagonista.

É uma pena que tamanho brilhantismo acabe sendo substituído por um desfecho artificial em sua tentativa de mastigar a moral da história para o público, culminando numa cena que parece extraída de um comercial de margarina. Isso, porém, acontece apenas nos minutos finais e não apaga a experiência complexa e diabolicamente divertida oferecida por Assassino Por Acaso, um dos destaques deste Festival do Rio 2023.


NOTA 8,5


Crítica originalmente publicada durante o Festival do Rio 2023

1 comentario


Jnei Cândido
Jnei Cândido
19 jun

Assisti. EXCELENTE filme. Crítica também EXCELENTE. Parabéns.

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