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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Batem à Porta" é o melhor filme de Shyamalan em 20 anos


O cineasta indiano M. Night Shyamalan é um daqueles profissionais que já experimentaram tanto o Céu quanto o Inferno em Hollywood. Depois de despontar em 1999 com O Sexto Sentido, filme que lhe proporcionou uma dupla indicação ao Oscar (como diretor e roteirista), Shyamalan caminhou diligentemente rumo ao fundo do poço à medida que se distanciava cada vez mais do brilhantismo que lhe rendeu o precoce rótulo de “Novo Hitchcock”. Após o ótimo Corpo Fechado, o bom Sinais e o razoável A Vila, o indiano mergulhou de cabeça numa fase terrível iniciada pela bomba A Dama na Água. Engolido pelas próprias pretensões e pela maldição de ter habituado seu público a finais surpreendentes, ele emendou três atrocidades cinematográficas consecutivas (Fim dos Tempos, O Último Mestre do Ar e Depois da Terra), implodindo uma carreira que foi de autor promissor a mão de obra contratada por estúdios.

Entretanto, dois anos depois de acumular sua nona indicação ao Framboesa de Ouro, tradicional ‘premiação’ que contempla o pior do Cinema e que o considerou como pior diretor do ano em duas oportunidades (e pior roteirista em outra), eis que Shyamalan resolve tentar recuperar sua credibilidade, lançando o terror de baixo orçamento A Visita. Em meu texto sobre o filme, encarado na época como um retorno do cineasta à boa forma, fiz questão de reforçar que o fato de a produção ter sido lançada logo após uma das piores sequências de filmes na carreira de um realizador contemporâneo, poderia levar o espectador ao erro de classificá-la como algo melhor do que realmente era. Bastaram quatro anos (e o também razoável Fragmentado) para que Shyamalan confirmasse minha suspeita, fazendo o decepcionante Vidro. Todavia, foi com o péssimo Tempo que o diretor confirmou seu retorno... ao fundo do poço, beirando o amadorismo em um de seus piores trabalhos como roteirista. Com este Batem à Porta, porém, Shyamalan tenta outro recomeço, mas dessa vez demonstra uma gana poucas vezes vista em suas narrativas anteriores.

Após uma boa sequência de créditos iniciais, aproveitando para antecipar características dos personagens e suas obsessões (o cardápio rasurado, os desenhos sombrios no meio das provas corrigidas), Batem à Porta tem início com a jovem Wen (vivida pela expressiva Kristen Cui) no meio de uma mata capturando gafanhotos enquanto vemos uma cabana de madeira ao fundo. “Eu não vou machucar vocês, só quero conhecê-los melhor!” diz a menina observando um pote cheio dos tais insetos, como se os roteiristas estivessem se divertindo ao dar sinais do que viria a acontecer com a própria Wen. Em seguida, M. Night Shyamalan dá sua primeira cartada, ao construir uma cena relativamente simples, mas cujos resultados dramáticos são frutos de pura habilidade por parte do diretor.

Na sequência em questão, o diretor aproveita o físico imponente e tatuado de Dave Bautista (o Drax de Guardiões da Galáxia) para brincar com as expectativas do público que, ao contrário de se deparar com o tipo troglodita e vilanesco que o ex-lutador normalmente interpreta, é surpreendido com o arquétipo do gigante gentil, já que Leonard, seu personagem, é um professor de educação física simpático e de fala mansa, ganhando rapidamente a atenção de Wen.

Começando a cena com um plano aberto, revelando Leonard desfocado ao fundo, Shyamalan é hábil ao transmitir a aproximação crescente entre os personagens através de ângulos cada vez mais fechados. E quando Wen finalmente começa a desconfiar de Leonard, note como o diretor inclina o plano, investindo no ângulo holandês (normalmente associado à ideia de confusão, desorientação) no exato momento em que a menina pergunta “o que há de errado?”, com o rosto de Bautista enchendo a tela em meio ao horizonte torto.

Shyamalan também mostra suas credenciais na forma elegante com que conduz os momentos mais enérgicos da história: mesmo que opte por manter a violência off screen, o cineasta volta a demonstrar talento ao movimentar sua câmera, lembrando o início promissor de sua carreira. Sua direção também é estilosa em alguns momentos, como aquele em que um personagem é golpeado furiosamente por outro enquanto a câmera se posiciona atrás da vítima, deslocando-se a cada soco; ou ao manter sua lente paralela ao machado de um dos vilões, enquanto ele quebra algo.

Mas se a direção merece apenas elogios, o roteiro, escrito pelo próprio realizador em parceria com os novatos Steve Desmond e Michael Sherman, demanda ressalvas, principalmente por depender demais de flashbacks para tentar desenvolver seus personagens. Aliás, a montagem acaba sendo o ponto fraco de Batem à Porta, pois o ritmo é quebrado cada vez que a produção interrompe sua história principal, saindo da cabana para voltar no tempo e revelar um pouco mais do relacionamento entre Eric (Jonathan Groff, de Matrix Resurrections) e Andrew (Ben Aldridge, da série Fleabag) que mesmo diante dos esforços do trio de roteiristas, jamais chegam a forjar uma ligação com o público, diluindo o impacto emocional da obra.

Situada no meio de uma floresta aparentemente isolada do mundo (o que explica a ausência de sinal telefônico e de internet), a cabana presente no título original é produto de um design de produção competente, que complementa o marrom da madeira com tons azuis e dourados, criando uma harmonia visual que além de ecoar elementos da história (as personalidades complementares de Andrew e Eric), reflete a própria fotografia do filme, cuidadosa ao trabalhar o uso da luz (fundamental na trama) em momentos específicos, como aquele em que a enfermeira interpretada por Nikki Amuka-Bird (de O Alfaiate) é banhada por um facho dourado enquanto explica suas intenções a Eric. Os figurinos de Caroline Duncan (Case Comigo) também funcionam ao refletirem a personalidade do casal protagonista: enquanto Eric, mais formal e retraído veste camisas de flanela, calça jeans e sapatos, os trajes informais de Andrew (camisa básica e bermuda) revelam uma personalidade despojada e de modos naturais.

Além disso, por mais que o filme seja tecnicamente elogiável, é preciso reconhecer sua ineficiência como terror, gênero que escolheu abraçar, pois mesmo que a trilha sonora mais clássica da compositora islandesa Herdís Stefánsdóttir (O Sol Também é uma Estrela), com seus acordes graves, contribua (e muito) para a criação de uma atmosfera sinistra, isso não basta e Batem à Porta, uma produção que trabalha desde o início com a manipulação das expectativas do público, jamais atinge seus objetivos como filme de gênero. E quando tenta, carece de inspiração, recorrendo a clichês como numa sequência dentro da floresta, construída de forma preguiçosa e com resultados previsíveis (quando alguém se esconde atrás de uma árvore, fica claro que dará de cara com o inimigo assim que resolver sair) ou a artifícios tão ridículos como todo o suspense criado em cima de uma suposta fuga por uma janela minúscula.

Pois o grande foco narrativo não parece ser o terror e, sim, a intrincada premissa oferecida pelo quarteto de vilões. Ciente de ter em mãos um mistério frágil e que não resistiria a eventuais questionamentos (quem os escolheu? Que tipo de poder exercem?), Shyamalan opta por utilizar a suspeita como distração, visto que Leonard e seus associados defendem tão apaixonadamente suas absurdas motivações (que não revelarei, obviamente), que fica difícil para o espectador não conceder o benefício da dúvida. Verdade seja dita, o roteiro é certeiro ao conceber um grupo que compartilha a política do diálogo em detrimento da violência. Inclusive, esses modos atenciosos (eles limpam o que quebram, fazem curativo em quem machucam e arrumam o que bagunçam) são fundamentais para que fiquemos tão divididos quanto Andrew e Eric.

Enquanto Andrew, mais racional, traz justificativas plausíveis, Eric mostra-se mais vulnerável em virtude de uma concussão. Estaria ele acreditando de fato na narrativa dos vilões ou seu raciocínio debilitado está lhe pregando peças? E é nessa dinâmica que Batem à Porta investe em seus quase 100 minutos de projeção, jogando com a percepção do público enquanto os protagonistas ora parecem convictos, ora nem tanto (Leonard só precisa que um deles duvide, afinal). Enquanto isso, Shyamalan, Desmond e Sherman desfrutam da possibilidade de os vilões serem apenas um grupo de lunáticos afeitos a teorias conspiratórias, mas só até a tese de um possível crime de ódio ganhar força...

Abusando dos noticiários para trazerem credibilidade a determinadas situações, Batem à Porta até tenta esboçar alguma profundidade, sugerindo subtextos (bíblicos em sua maioria) diretamente ligados à natureza, com o clima moldando o tom do filme, seja através do céu (ensolarado/nublado) ou por meio de tempestades (incluindo raios), mas o que poderia ficar para ser interpretado pelo público acaba sendo escancarado por Eric durante um diálogo extremamente artificial no terceiro ato, dinamitando a intenção de Shyamalan de bombar entre “analistas do YouTube”. Mesmo assim, ainda acredito que muitos vídeos ‘explicando’ o final ou ‘desvendando os segredos’ do roteiro serão publicados num curto espaço de tempo.

Contando com a já tradicional e hitchcockiana participação especial do diretor/roteirista (como o vendedor de um programa de TV), a verdade é que ele enterrou tão fundo sua carreira, acostumando seu público à mediocridade, que quando finalmente aparece com um filme de verdade, este tenderá a parecer fantástico em comparação com as abominações que comandou recentemente.


De qualquer forma, antes de sugerir aguardarmos o próximo projeto de M. Night Shyamalan para ter certeza de que não se trata de mais um acerto isolado, ao menos podemos cravar que Batem à Porta é seu melhor filme desde Sinais, lançado há 20 anos.


NOTA 6,5

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