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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Blackberry" conta origem do smartphone com altas doses de ironia


Há um componente de evidente interesse em conhecer a história por trás da criação do primeiro smartphone do mundo e Blackberry é eficiente ao trazer detalhes aparentemente descartáveis, mas que fazem toda a diferença, como ao mostrar alguém aprendendo a digitar no celular usando os polegares (algo natural hoje em dia, mas nem tanto há 27 anos atrás). Igualmente curioso é perceber a arrogância de Mike Lazaridis, inventor do produto que dá nome ao filme, que ao subestimar o iPhone, permitiu que sua invenção fosse massacrada da noite para o dia, com Steve Jobs decretando em minutos a obsolescência de um dispositivo que revolucionou o mercado e esteve no topo por uma década.


Menos eficientes, no entanto, são as piadas recorrentes envolvendo os trabalhadores da RIM, transformados em nerds infantis incapazes de encararem um dia de trabalho de forma profissional. Aliás, nesse sentido, o Doug Fregin interpretado pelo próprio diretor Matt Johnson é facilmente a criatura mais irritante de toda a projeção, demonstrando que como ator, Johnson é um ótimo diretor. Entregando-se a caretas sempre que a câmera para em seu rosto (leia-se: congelando sua expressão ao dizer “oh”), Doug é uma caricatura ambulante, com um figurino extravagante e um penteado que o faz parecer uma mistura de Björn Borg com Andy Samberg, contrastando ao Mike Lazaridis de Jay Baruchel (chegaremos nele mais adiante). Mas quando o personagem não está tentando (de forma fracassada) ser engraçado, infelizmente está se opondo às escolhas naturais feitas pelo amigo, inicialmente retratado como um sujeito facilmente manipulável.

Mas Baruchel (O Aprendiz de Feiticeiro) não faz muito melhor que o colega, limitando-se aos mesmos trejeitos desajeitados típicos dos personagens tímidos que vem interpretando em toda a sua carreira. Seu diferencial é poder ilustrar a evolução do pensamento de Mike enquanto executivo, ao contrário de Doug, que permanece um adolescente inconsequente apegado aos dias de cinema da empresa. Por outro lado, Mike pode até demonstrar uma bem-vinda mudança de atitude, passando a se impor e a dedicar-se ao trabalho, mas seu arco dramático resvala nas mesmas convenções de sempre, já que eventualmente se tornará um engravatado frio e inescrupuloso, além de sucumbir à arrogância.

É uma pena que o roteiro não demonstre o menor interesse em mostrar Mike e os demais personagens fora da empresa, negando suas vidas particulares ao público. Assim, ao impedir que conheçamos as intimidades de cada um, os homens de Blackberry passam a carecer da mesma humanidade que a maioria dos vilões retratados por esse tipo de filme. E aqui vale uma menção à ausência feminina quase completa, já que a primeira mulher a ocupar um espaço de algum destaque surge apenas no terço final de projeção.

Se por um lado é divertido ver na tela referências a várias obras marcantes da cultura popular, como Os Caçadores da Arca Perdida, Duna e Clube dos Cinco, na quinquagésima vez que alguém aparece recitando um diálogo famoso, a reação passa a ser apenas de indiferença. Como se não bastasse a natureza gratuita desses momentos, prepare-se para ver Doug usando uma infinidade de camisas com estampas de jogos famosos, desde Wolfenstein a Mortal Kombat.

A montagem, em contrapartida, é competente ao atribuir um ritmo fluido e dinâmico à narrativa, impedindo que os momentos em que a narrativa se entrega ao "tecniquês" se tornem entediantes. Nessas passagens, a produção se escora no mesmo trabalho de câmera que marcou a linguagem da série The Office e que mais tarde serviria de inspiração também para A Grande Aposta, filme que rendeu um Oscar e um estilo a Adam McKay. Assim como na excepcional sitcom protagonizada por Steve Carell, a câmera se torna praticamente uma personagem, movimentando-se livremente, mudando de (ou perdendo) foco e, claro, investindo em zooms repentinos para captar reações e detalhes.

Criativo ao permitir que as legendas que informam a passagem do tempo acompanhem a evolução das fontes (e dos teclados), Blackberry ainda falha na caracterização de Jim Balsillie, cujo intérprete (Glenn Howerton, da comédia It’s Always Sunny in Philadelphia) ostenta uma careca tão mal raspada que torna-se absolutamente artificial. Apresentando-se como um sósia desbocado de Marcus Lemonis (do programa O Sócio), Balsillie se beneficia da energia transmitida por Howerton, fazendo com que o personagem seja a figura mais divertida da história, mesmo que suas atitudes nem sempre contribuam para estimular nossa torcida por ele.

Embora não tão inventivo e original quanto julga ser, Blackberry prova ser mais uma história envolvente e ocasionalmente divertida sobre a origem de uma marca famosa, assim como os superiores Tetris e Air; e o inferior Flamin’ Hot, mostrando de quebra que definitivamente não há bons samaritanos no mundo corporativo.



NOTA 6


Crítica originalmente publicada durante o Festival do Rio 2023


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