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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Caça Implacável | Gerard Butler retorna em filme de ação genérico


Will é um agente imobiliário cujo casamento com Lisa está em crise. Pedindo um tempo, a mulher decide passar uns dias na casa dos pais e é o próprio Will quem acaba levando-a de carro. Porém, durante uma parada para abastecer o veículo, Lisa desaparece misteriosamente e ele se torna o principal suspeito, tendo de lutar sozinho para encontrá-la e provar sua inocência. Essa premissa poderia facilmente ter sido extraída de um filme estrelado por Liam Neeson, mas é de Caça Implacável, com Gerard Butler.


Butler, que antes de despontar como o Rei Leônidas de 300 chegou a ser cotado para suceder a Pierce Brosnan como James Bond - numa época em que era visto como o futuro dos filmes de ação - preferiu se dedicar às comédias românticas, emprestando seu carisma a besteiras como A Verdade Nua e Crua, Caçador de Recompensas e o ofensivo Um Bom Partido. Com a idade avançando e as rugas rasurando a consagrada imagem de galã, ele finalmente volta suas atenções para o gênero que o lançou ao estrelato.

Infelizmente, porém, após uma fase frutífera como o nome por trás da trilogia iniciada por Invasão à Casa Branca, o escocês parece não encontrar mais espaço no Cinema, tendo que se contentar com aquelas produções de baixo orçamento feitas sob medida para lançamento digital (que saudade das locadoras...), e esse é exatamente o caso deste Caça Implacável (o pôster é ainda mais genérico do que o título), que está fadado a ser esquecido no catálogo de alguma plataforma de streaming futuramente.

Sem exibir o menor sinal de vergonha por “pegar emprestado” (eufemismo para “copiar”) vários elementos dos dois primeiros atos de Breakdown – Implacável Perseguição (sucesso de 1997 com Kurt Russell), o roteirista Marc Frydman comprova não ter ideia de como iniciar sua história, lançando o espectador numa sequência que surge deslocada logo de cara, mas que fica ainda pior ao final, quando descobrimos não ter importância alguma. Além disso, o roteiro apela para incidentes pouco verossímeis como o fato de Will esquecer de abastecer o carro antes de fazer uma importante viagem intermunicipal ou de ser acusado de agir de forma estranha por estar tentando descobrir o paradeiro da esposa desaparecida (sim, isso mesmo). Para piorar, Frydman não hesita em investir no velho clichê da batida policial com o intuito de gerar tensão enquanto a documentação do motorista suspeito é verificada. E se o desfecho dessa cena se encaixa no padrão de implausibilidade da trama, o que dizer da passagem em que Will foge desesperado por uma densa floresta e convenientemente dá de cara com o personagem que estava procurando?

A subtrama envolvendo a polícia corresponde a um conflito que nunca se concretiza, pois o filme é claudica ao estabelecer as intenções do detetive encarregado do caso (afinal, ele suspeita ou não de Will?) que, por outro lado, possui parcas e pouco orgânicas cenas que ilustrem sua investigação. Ao protagonista tudo se resolve com facilidade: um confronto com um oficial armado é contornado através de uma singela fuga a pé, alguém importante e de difícil acesso surge repentinamente em seu caminho, o detetive antes sisudo revela-se amigável...

Entretanto, por mais que o script seja frágil, nada se compara à direção indolente de Brian Goodman, que demonstra imensa dificuldade em praticamente todas as suas funções como cineasta: incapaz de provocar qualquer tipo de emoção, Goodman depende invariavelmente da onipresente trilha sonora de Bear McCreary (da série The Walking Dead), usada em demasia e sempre para guiar as sensações do público. O diretor acaba se enrolando até mesmo para conceber uma simples sequência de interrogatório, que se torna um tédio absoluto em suas mãos inaptas (repare na duração excessiva dos planos e na falta de alternância de ângulos), cujo principal ponto fraco, na verdade, reside ao estabelecer a geografia das cenas. Para constatar isso, basta tentar entender os elementos da mise-em-scène de um confronto que se passa num trailer.

E se o espectador sequer consegue compreender os elementos em cena, o caos visual torna-se inevitável, instaurando-se toda vez que a ação domina a tela. Assim, sabemos que personagens estão se engalfinhando, porém jamais vemos claramente o que está acontecendo ou como está acontecendo, o que fica patente quando Will está imprensando um vilão na parede e desferindo uma série de socos, mas mal chegamos a ver seus punhos graças à opção por planos fechados, o que, aliás, se torna frequente durante a projeção.

Falando nisso, a fotografia cumpre seu papel sem sobressaltos, fazendo o básico ao atribuir cores frias à linha do tempo principal e tons quentes aos flashbacks que ilustram o passado de Will e Lisa, não resistindo em mergulhar no verde e no amarelo durante o terceiro ato, numa nada sutil homenagem à série Breaking Bad, quando o roteiro atira um conflito envolvendo metanfetamina (que jamais é desenvolvido).

Gerard Butler, no alto de sua canastrice até tenta compensar a letargia da direção com explosões esporádicas, mas é induzido ao erro por contradições do roteiro, que forçam seu Will, um homem comum, a agir, por exemplo, como um agente treinado. A expressão determinada de Butler, embora fiel ao texto, não ajuda, tampouco sua postura com uma arma na mão invadindo propriedades e trocando tiros em ambientes repletos de barris cheios de produtos inflamáveis.

Já Jaimie Alexander, tão carismática e imponente na série Blindspot é desperdiçada na pele de uma personagem que existe apenas para servir como objetivo para o protagonista. E sua maquiagem é tão excessiva que por vezes achei estar assistindo a uma versão live action de A Noiva Cadáver. Fechando o elenco, Russell Hornsby (que roubava a cena na série Grimm) é outro que trava uma verdadeira batalha com o roteiro, tentando fazer de seu Detetive Paterson mais do que a figura unidimensional que lhe foi concebida.

Incluindo um inacreditável instante onde uma figurante reage a uma pergunta antes desta ser feita, Caça Implacável pode até não ter o mais original e competente dos roteiros, mas não fosse tremendamente mal dirigido, talvez até fizesse sucesso como uma daquelas inofensivas sessões caseiras de sexta-feira à noite. Já para Gerard Butler, representa um perigoso passo rumo ao limbo das produções lançadas diretamente na internet.


NOTA 3,5

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