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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Impactante e sensível, "Close" exalta o poder do subtexto


Para o crítico e teórico de cinema Béla Balázs (1884 – 1949), pioneiro do formalismo, o Cinema tinha potencial para finalmente acabar com o reinado da palavra, elevando a imagem a uma posição de destaque precisamente por transmitir sentimentos que não podem ser colocados em texto. Em outras palavras, Balász teria sido o precursor da máxima “não conte, mostre”, espécie de “mandamento” que rege o trabalho de grandes realizadores, como o belga Lukas Dhont.


Com apenas 26 anos de idade, Dhont já subia ao palco do Festival de Cannes para receber a Câmera de Ouro por Girl, seu longa-metragem de estreia e cuja maturidade impressionou o júri, encantado com o mais recente menino prodígio do Cinema Mundial. Seguindo os passos de outros grandes nomes vindos da Bélgica, como Agnés Varda e, especialmente, os irmãos Jean Pierre e Luc Dardenne, Lukas Dhont prova com Close que veio não apenas para ficar, mas também para marcar. O que o jovem cineasta e roteirista faz é concretizar na tela o pensamento de Balázs, extraindo da imagem significados grandes demais para serem expressados em meras palavras.

A amizade simbiótica de Léo (Eden Dambrine) e Remy (Gustav De Waele) é retratada pelas lentes de Dhont como a essência da pureza infantil, ilustrando a convergência dos dois através de brincadeiras repletas de imaginação. Inseparáveis, eles não conseguem ficar um segundo sequer longes um do outro, nem mesmo na hora de dormir, quando uma cama se mostra mais do que suficiente para acomodá-los. Porém, quando as aulas começam, a ligação íntima entre eles é abalada pelo escrutínio dos colegas, que não compreendem a relação dos dois, traduzindo a estranheza provocada pelo afeto descomedido em insinuações inconsequentes sobre a natureza do amor entre eles.

Inicialmente, Remy dá de ombros, inabalável e seguro ao lado de Leo, que por sua vez se mostra cada vez mais incomodado com a impressão passada aos demais estudantes. As atitudes e os gestos que antes eram naturais, espontâneos como repousar a cabeça no corpo do outro, agora ganham uma preocupação inédita: a de estarem sendo observados. E o olhar alarmado de Leo pouco antes de se esquivar de Rémy é revelador na transição pela qual está passando a amizade entre eles.

E Lukas Dhont não demonstra qualquer sinal de pressa ao desenvolver a distância que se alarga entre os, antes, inseparáveis melhores amigos. Investindo em gestos que se fazem marcantes justamente pela sutileza com que são captados, como ao focar Léo deixando a cama para dormir sozinho no chão, mas acordando com Rémy ao seu lado. Enquanto o primeiro se esforça para agir sem magoar o segundo, é justamente Rémy quem acaba sofrendo mais, por não entender o que está acontecendo. E o momento em que o garoto finalmente se dá conta é apenas um dos mais desoladores a atingirem o coração do espectador. Pois o poder de Close reside no dito pelo não dito, onde nada é explícito, mas tudo é sentido.

Numa época em que os diálogos expositivos são mais do que uma tendência, é uma alegria testemunhar a comunhão entre inteligência, sutileza e sensibilidade que conduz o trabalho de Lukas Dhont, avesso a mastigar a história para o público e seduzido pela ideia de alimentar interpretações. Nesse ponto, o cineasta merece elogios por negar-se a fornecer respostas definitivas até mesmo sobre um chocante acontecimento do segundo ato, distanciando-se também de um potencial melodrama que poderia vir acompanhado. Aliás, é curioso notar como Dhont evita ao máximo a explosão de emoções, certificando-se de interromper reações antes do clímax, especialmente por meio de cortes secos ou através de atitudes evasivas de seus personagens. Close acaba ressoando emocionalmente exatamente por isso e Dhont é brilhante ao empurrar as inevitáveis confrontações para seu desfecho, quando enfim se permite descarregar (junto a seu protagonista) suas emoções.

Todavia, é impossível abordar a carga emocional do filme sem mencionar a performance histórica de Eden Dambrine como Leo. Grande revelação do projeto ele é um verdadeiro achado e espero poder vê-lo em outras produções. Compondo Leo com uma naturalidade assombrosa, nem parece que Dambrine está atuando pela primeira vez, dominando cada cena em que aparece com uma segurança digna de um veterano. Não por acaso, a única capaz de fazer frente ao seu talento é a conterrânea Émilie Dequenne (descoberta pelos Dardenne no magnífico Rosetta): como a mãe de Rémy, ela é a personificação da tristeza contida, expressando no olhar o peso que carrega sobre os ombros, mas que esconde dos outros. Como não poderia deixar de ser, a melhor e mais intensa sequência do filme é aquela protagonizada por Dambrine e Dequenne numa floresta.

Se em Girl, Lukas Dhont fez uso amplo do azul para ilustrar o universo de sua protagonista, em Close é o vermelho que predomina, seja através das paredes do quarto de Remy ou pelas flores colhidas por Leo, quase todas as cenas possuem pelo menos um elemento na cor referida. Enquanto isso, a fotografia investe em tons quentes para banhar as cenas protagonizadas por Leo e Remy, mergulhando a narrativa num véu cinzento e sem vida na segunda metade.

Informativo, sem soar didático e educativo sem ser panfletário, a produção deveria ser incorporada ao sistema educacional desde já, tamanha a sua eficiência como retrato do bullying e os efeitos silenciosos que pode provocar nos mais jovens. Prática que deve ser coibida desde os primeiros sinais, o bullying demorou a ser levado a sério pelos brasileiros, que só há alguns anos começou a estudá-lo mais profundamente a partir do viés psicológico.

Triste, tocante e dramaticamente poderoso, Close desafia minha hesitação habitual em utilizar adjetivos superlativos, mas seu brilhantismo me leva a ceder ao impulso de colocá-lo não somente como o melhor filme do Festival do Rio 2022 até agora, como também um dos melhores do ano, mesmo que a experiência de assistí-lo seja devastadora. Para o bem e para o mal.


* Filme visto durante o Festival do Rio 2022


NOTA 9,5

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