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CRÍTICA | "O Estrangeiro"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 4 dias
  • 2 min de leitura

*Crítica publicada durante a cobertura do Festival do Rio 2025


Com uma longa carreira marcada por uma surpresa a cada novo trabalho, François Ozon finalmente faz uma adaptação do clássico O Estrangeiro (1942) de Albert Camus. Finalmente, pois era uma questão de tempo até o altamente influente best-seller ganhar uma versão assinada pelo cineasta mais inquieto de seu país. Não bastasse apresentar um longa-metragem anualmente, o francês se certifica de reinventar-se em cada novo processo. Com isso em mente, ele sai do agradável melodrama Quando Chega o Outono (2024) e entra no mundo preto e branco de L’Étranger, no original, que teve sua première no Festival de Veneza.


Espécie de precursora dos assassinos sensuais modernos, principalmente Tom Ripley, a história de um francês pacato enfrentando os tribunais argelinos após assassinar um árabe não é inédita nas telonas, uma vez que o grande Luchino Visconti iniciou os trabalhos ao adaptá-la aos cinemas em 1967 com Marcello Mastroianni no papel principal.

O Meursault da vez é Benjamin Voisin, astro em ascensão que viu a carreira decolar justamente através de sua colaboração anterior com Ozon, o romântico Verão de 85. Numa antítese àquela composição ensolarada, Voisin surge estoico na pele de um personagem tão fascinante quanto difícil de interpretar. Avesso a mentiras, o que lhe permite falar exatamente tudo o que pensa, o protagonista é uma figura transparente, agindo pelo que considera “fazer sentido”. Não há uma bússola moral ou uma convenção social forte o bastante para suplantar sua crença inexorável de que, no final das contas, nada importa.

Voisin capta com perfeição a aura desinteressada de Meursault, encaixando-o com exatidão na recriação histórica de Ozon, um perfeccionista por natureza. A atmosfera de mistério dos anos 50 é ressaltada por uma fotografia em preto e branco que o torna tão atemporal quanto o tema principal que desenvolve.

Dividido em duas partes, O Estrangeiro dedica a primeira metade a apresentar o niilismo de seu anti-herói, apenas para confrontá-lo no ato final, quando o fato de aquele não chorar no funeral da mãe torna-se um crime mais chocante e hediondo do que um assassinato aparentemente sem motivo. Como julgar as motivações de um homicida se, para ele, “nada tem importância?”

Mas Ozon não deixa ponto sem nó e faz questão de mergulhar na mente de Meursault, depois de uma longa jornada tangencial. Os diálogos afiados entre o protagonista e um padre, por exemplo, surpreendem por representarem o primeiro momento de expressividade de alguém tão acostumado ao estoicismo, mas também pela eloquência de seus argumentos.

No final das contas, Meursault, em sua ausência de reação, acaba se tornando o interlocutor perfeito, absorvendo lamentos e divagações de membros de uma sociedade que tanto clama por amor e reciprocidade, mas que não sabe reconhecê-los, o que explica os relacionamentos tão conturbados expostos pela narrativa. É o que marca especialmente a participação do veterano Denis Levant, cujo personagem possui uma relação no mínimo confusa com o cachorro de estimação.


Tristemente contemporâneo, O Estrangeiro é mais um trabalho simultaneamente profundo e esfíngico de Ozon, destacando-se pela sofisticação que apresenta em absolutamente todos os aspectos.


NOTA 8

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