CRÍTICA | "Eu & Você Na Toscana"
- Guilherme Cândido

- 12 de jun.
- 4 min de leitura

Como alguém nascido no início da década de 90, acho particularmente curioso o fato de muitas pessoas hoje em dia olharem para o passado com certa nostalgia, como se um desejo utópico de voltar no tempo fosse mais atraente do que um futuro hipotético, que costumava gerar expectativa e empolgação em meus pares noventistas. Hollywood, claro, não é boba e a onda nostálgica que vem dominando a Indústria com sequências tardias e revivals atinge também as comédias românticas, como comprova o sucesso de Todos Menos Você, por exemplo, uma narrativa desenvolvida à moda antiga na qual o maior charme supostamente reside nesse estilo antiquado. Nesse aspecto, Eu & Você na Toscana representa mais um aceno retrógrado dessa maquinaria em pane criativa, mas é como diz o ditado: às vezes precisamos dar um passo atrás, para poder dar dois a frente. E colocar as duas mãos no precioso dinheiro do espectador. Que afinal de contas não parece se importar, não é mesmo?

Na trama escrita por Ryan Engle a partir de um argumento concebido por ele ao lado da esposa Kristin Engle, Anna é uma jovem cozinheira talentosa que após a morte da mãe colocou a carreira em stand by. Nesse meio-tempo, ela trabalha como baby-sitter e vive uma vida dupla através de suas ricas clientes. Até que um dia ela resolve tomar as rédeas da própria vida e vai até a Itália atrás de novas experiências. O local não é estranho, pois é justamente da Toscana que vem um charmoso pretendente que conheceu durante um rolê.

O problema é que, uma vez em solo toscano, ela é surpreendida com a lotação dos hotéis, em virtude de uma tradicional festividade local, fazendo-a tomar uma atitude desesperada: se hospedar (ou invadir?) na casa de veraneio do sujeito até arrumar um lugar para ficar. O que ela não esperava era ser flagrada pela família do pobre coitado e a solução encontrada para evitar o xilindró foi alegar estar noiva dele, que por sua vez não visita a família há anos após um desentendimento com o pai. Só para piorar, enquanto ela alimenta essa farsa, acaba caindo de amores por Michael, o irmão de criação dele.

Pronto, está entregue uma típica comédia romântica blockbuster do século XX. Nada contra a retomada de velhos modelos, pois (500) Dias Com Ela fez do limão representado por essa estratégia uma saborosa limonada metafórica, mas o filme desovado oportunamente no final de semana do Dia dos Namorados está muito mais para uma desculpa para aninhar enamorados do que uma experiência cinematográfica minimamente consistente.

A suspensão da descrença pode até servir para suavizar os absurdos da trama, que vão de conveniências e coincidências ao disparate completo, mas nada justifica a estrutura narrativa sem inspiração e os diálogos paupérrimos. Embora nada complexa, é até possível entender a necessidade de explicar a história a cada cinco minutos, pois o público-alvo pode acabar se distraindo entre um beijo e outro, mas a ideia de soltar frases tiradas de livros de autoajuda baratos como se fossem pérolas de sabedoria soa, no mínimo, desonesta.

A natureza esquemática do roteiro contamina inclusive o perfil dos personagens, aqui definidos por uma característica que pode ser de suporte (a amiga da supracitada sabedoria de botequim), de alívio cômico (a gordofobia envolvendo a italiana com o amante encanador), de moralismo rasteiro (o cafajeste que facilita a escolha da protagonista) e até o famigerado príncipe encantado, aqui sob os encantos e o abdômen trincado de Regé-Jean Page. E se você achou gratuita minha menção à anatomia do ator britânico, espere até ver a sequência feita sob medida para obrigá-lo a tirar a camisa durante uma chuva tão “repentina” quanto o emprego da câmera lenta para ressaltar seus atributos físicos.

Page, cujo estrelato alçado pelo sucesso em Bridgerton rende a melhor piada do filme (ironicamente deixada para a tradicional montagem com os erros de gravação), não tem muito o que fazer senão distribuir sorrisos, protagonizar momentos de puro cavalheirismo e posar de último romântico. Da mesma forma, Halle Bailey, brutalmente atacada pelos haters racistas de A Pequena Sereia, prova ser carismática e adorável o bastante para sustentar o papel de mocinha idealista e machucada pela vida pronta para ser resgatada e apresentada à vida que de fato merece.

Os esforços do elenco, infelizmente, não ganham respaldo técnico, a começar pela trilha sonora inconveniente de John Debney. O veterano compositor de sucessos como O Diário da Princesa, Homem de Ferro 2 e O Rei do Show entrega-se ao imperdoável impulso de sublinhar cada cena, indicando qual emoção o espectador deve sentir, através de melodias engraçadinhas ou harmônicos melosos. Indo por um caminho menos arbitrário, a cineasta Kat Coiro (do indutor de coma diabético, Case Comigo) limita-se a oferecer ao público não mais do que o esperado desse tipo de produção, investindo numa direção conservadora que aposta mais alto do que deveria no senso de humor quadrado do texto (pense nas anedotas do tio do pavê).
Mas no final das contas, talvez seja exatamente isso que alguém esteja procurando assistir no Dia dos Namorados: uma comédia romântica cafona e sem ambição alguma, mas também uma sessão leve e fácil de acompanhar sem atrapalhar eventuais amassos no escurinho do cinema ou no aconchego de casa.
NOTA 4









