CRÍTICA | "O Sobrevivente"
- Guilherme Cândido

- há 2 dias
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Décadas antes de Jogos Vorazes ser adaptado ao Cinema, Hollywood já se certificava de ilustrar o potencial alienador da TV. Produções como Eles Vivem (1988) e o próprio O Sobrevivente (1987) chamavam atenção para esse dispositivo quando operado substancialmente com o intuito de fazer com que os cidadãos se revoltem contra si, enquanto os verdadeiros inimigos permanecem nas sombras. Este último, aliás, sendo uma adaptação literária, mais especificamente saída da pena de Stephen King, que imaginou o ano de 2025 (olha a coincidência) como um período nebuloso da história de um país sob um regime totalitário, daquele tipo em que a distância entre ricos e pobres fica escancarada só de observar a ambientação por alguns minutos.
Enquanto Arnold Schwarzenegger emprestava a Ben Richards o protótipo do brucutu tão popular na década de 80, o chamado “exército de um homem só”, Glen Powell utiliza o personagem como uma forma de sedimentar seu lugar entre as estrelas de Cinema da atualidade. E para alguém que recentemente declarou se inspirar em Tom Cruise, talvez não seja mera coincidência vê-lo correndo na maior parte do tempo. Depois de brilhar como o indomável Hangman de Top Gun: Maverick (2022) - à sombra de Cruise, vale lembrar - e como o canalha adorável de Twisters (2024), chegou a hora de o texano provar que pode carregar um blockbuster nas costas, algo vaticinado pelo subestimado Assassino Por Acaso (2023).

De volta às comparações com a franquia estrelada por Jennifer Lawrence, o universo criado por King também inclui um membro da classe operária tendo de lutar contra concidadãos numa competição mortal transmitida ao vivo para o povo. E se Katniss Everdeen batalhava para garantir a sobrevivência da irmã, Ben Richards só quer o suficiente para garantir um tratamento de qualidade para a filha gravemente doente. Incapaz de permanecer empregado em virtude do pavio curto e da generosidade sem limites para com seus colegas, ele vê o reality “The Running Man” (“homem em fuga”, em tradução livre) como a melhor oportunidade de atingir seu objetivo. Para isso, basta sobreviver enquanto é perseguido por cinco caçadores implacáveis e até mesmo pela população. Afinal, quem não delataria um desconhecido em troca de uma recompensa pomposa?

Até porque, assim como seu brioso protagonista, o roteiro escrito por Michael Bacall e Edgar Wright (que trabalharam juntos no excelente Scott Pilgrim Contra o Mundo) tem pressa para entrar em ação, fazendo com que todo o primeiro ato se transforme numa embaraçosa colagem de cenas repletas de diálogos dolorosamente expositivos. Quando a dupla finalmente se convence de que passou todas as informações necessárias ao público, a narrativa não demora a engrenar e o ponto de virada é representado pelos ótimos créditos iniciais, que surgem na tela enquanto Ben caminha rumo aos estúdios do programa. Essa sequência, inclusive, é o mais perto que chegamos da essência de Edgar Wright, um cineasta cuja marca registrada é justamente usar o visual como um acessório essencial em sua forma de contar histórias.

Se em Baby Driver - Em Ritmo de Fuga (2017), o britânico venceu a luta para adaptar o próprio estilo às demandas hollywoodianas, desta vez ele até aguenta alguns rounds antes de sucumbir a uma máquina tradicionalmente feita para castrar talentos. Pois em 2/3 da projeção precisamos nos contentar com uma versão mais contida e menos sagaz da mente por trás de joias do quilate de Todo Mundo Quase Morto (2004) e Chumbo Grosso (2007). Mas um Edgar Wright contido e menos sagaz ainda é um Edgar Wright. O que na prática significa a produção de um longa-metragem, senão brilhante, ao menos competente e divertido.

As sequências de ação, embora não tão elaboradas, são bem dirigidas, assim como toda a correria. Há lampejos de criatividade especialmente na montagem, afeita a raccords, o que garante o ritmo acelerado, característica fundamental para o sucesso do projeto mesmo que aqui e ali o roteiro fique devendo algumas explicações (a população que não se manifesta, por exemplo). Powell vai bem como Richards, que cai como uma luva para sua persona cinematográfica, entusiasta confesso de heróis menos sisudos. Os coadjuvantes não ficam atrás. Colman Domingo, por exemplo, faz uma versão menos extravagante do apresentador dos Jogos Vorazes vivido por Stanley Tucci, ao passo que Josh Brolin, encarna surpreendentemente bem uma variante maligna de Boninho, ex-produtor do Big Brother Brasil. Domingo, por sua vez, tem a oportunidade de protagonizar o único discurso que funciona de forma realmente contundente ao mostrar que matar o mensageiro não diminuirá a frustração com a mensagem. Nesse momento, inclusive, os roteiristas fazem uma ressalva honesta sobre o papel da imprensa, ressaltando os perigos da generalização num meio cuja diretriz é fazer com que a base da pirâmide se distraia brigando na lama enquanto a ponta se diverte com o circo pegando fogo.

É uma pena que o filme tenha que parar toda vez que o roteiro decide tentar desenvolver seus tópicos políticos, matando a condução de Wright, que acertadamente jamais se levou a sério. A espera pelo set-piece seguinte até poderia valer a pena caso o roteiro não se articulasse como uma criança de sete anos. Para piorar, temas inflamáveis como o uso da Inteligência Artificial para manipular a percepção do público e a política “Pão e Circo” para mantê-lo na coleira, se misturam numa retórica raivosa que até funcionaria para espelhar a mente do protagonista caso este fosse um adolescente rebelde. A intenção de empoderar o público através da anarquia já havia sido problemática em Coringa (2017), mas aqui soa mais como uma desculpa para demonizar ambos os lados do espectro político do que qualquer outra coisa, algo que o final covarde e hipócrita nem faz questão de esconder.

Uma contradição que começa logo nos primeiros minutos, diga-se de passagem, com uma sátira ao reality das Kardashians culminando numa tentativa rasteira de humanização dos mais abastados. Nesse ponto, é Ben quem realmente poderia amarrar as pontas soltas ou ao menos conter os danos, mas o texto falha em conectá-lo com a ideia de personificar a esperança de um levante em larga escala. Em outras palavras, pisa-se em ovos para agradar a gregos e troianos e o resultado, apesar de longe da catarse, ao menos não ofende.

Esse sentimento de indiferença, tão temido na Arte, soa ainda mais triste por ser provocado através de um filme não só protagonizado por um comprometido e altamente carismático Glen Powell, mas escrito e dirigido por Edgar Wright, antes um criador virtuoso e imune a derivações, dessa vez mão-de-obra contratada disfarçada de grife.
NOTA 6









