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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Doutor Estranho não passa de uma versão mística do Homem de Ferro

Talvez o maior feito da Marvel não tenha sido conseguir transpor para as telas (com sucesso) tantos super-heróis, alguns até relativamente desconhecidos do grande público. A maior proeza da chamada “Casa das Ideias” provavelmente foi fazer com que tanta gente se disponha a assistir sempre ao mesmo filme. Claro que quando digo “mesmo filme”, quero dizer “mesma estrutura”. Pois se fazer um herói pouco famoso e disfuncional arrecadar mais de meio bilhão de dólares em bilheteria é um feito impressionante, levar milhões de pessoas aos cinemas para assistirem a esse mesmo filme anos depois sob o título de Doutor Estranho, será algo realmente extraordinário. E com a agressiva campanha de marketing que tem feito, a Marvel já pode comemorar mais uma conquista.


Falar de Doutor Estranho sem dar spoilers é um desafio, pois só de ler a sinopse, já é possível antecipar os acontecimentos da história. Benedict Cumberbatch (o Sherlock Holmes da TV, e o novo Khan do Cinema) é Stephen Strange, um cirurgião extremamente rico e arrogante que ao sofrer um grave acidente de carro passa a ter os movimentos das mãos severamente comprometidos. Desesperado em busca de ajuda e praticamente sem opções, Strange recorre a uma espécie de templo místico para conseguir sua tão sonhada cura. Mas, ao conhecer a misteriosa Anciã (Tilda Swinton, vivendo mais uma feiticeira) ele percebe que o mundo é muito mais do que parece.


Embora carismático e surpreendentemente confortável no papel, Cumberbatch não consegue disfarçar seu Doutor Estranho do que realmente é: uma versão mística do Homem de Ferro. Isso fica evidente não só nas características que compartilham (e nem mencionarei o fascínio por cavanhaques estilizados), mas também na personalidade.


Nesse aspecto, aliás, precisamos admitir que a Marvel foi esperta. Afinal, com a idade avançando, o contrato chegando ao fim e o salário ficando cada vez maior, é de se esperar que Robert Downey Jr. deixe seu Tony Stark para trás. E é aí que entra o debochado, sarcástico e milionário Stephen Strange de Benedict Cumberbatch.


A estrutura narrativa também é praticamente a mesma da estreia de Tony Stark no cinema, mas sem aquele ar inovador e malandro do filme de Jon Favreau. E se o roteiro se certifica de trazer o bom humor (quase galhofeiro) de seu primo mais velho, infelizmente acaba pesando a mão nas piadas, um erro recorrente em produções com o selo Marvel. Sendo assim, momentos que pediriam por solenidade ou ao menos um pouco mais de seriedade, são subitamente interrompidos por gags bobas e descartáveis que só ressaltam a reclamação daqueles que ainda aguardam um filme sério da empresa.


O elenco secundário também segue o padrão de qualidade da companhia de Stan Lee (que faz sua ponta costumeira), apresentando bons nomes em papéis com pouco potencial. Com isso, Chiwetel Ejiofor (indicado ao Oscar por 12 Anos de Escravidão) vive Mordo com a esperança de que possa desenvolver seu personagem numa vindoura continuação, ao passo que Rachel McAdams (também indicada ao Oscar, por Spotlight) sofre o mesmo problema de Natalie Portman em Thor, interpretando uma personagem que serve apenas como interesse amoroso do herói.


Tilda Swinton (vencedora do Oscar por Conduta de Risco), por sua vez, usa seu talento para criar algumas interessantes nuances para sua Anciã, ainda que o roteiro a impeça de ir além. E o excepcional Mads Mikkelsen (o Le Chiffre de 007 Cassino Royale) vive o típico vilão desperdiçado, uma das maiores tradições Marvel. O ator dinamarquês (especialista em antagonistas) até tenta dar profundidade ao seu Kaecillius, mas é sabotado por um roteiro interessado apenas na caricatura.


Tecnicamente, porém, o filme se sai bem melhor, com destaque para os ótimos efeitos visuais, que impressionam em vários momentos, como no conceito da “cidade rotatória” (que remete à “Paris dobrável” de A Origem), e nos delírios puramente psicodélicos que marcam o primeiro encontro de Stephen Strange com a Anciã. A trilha sonora é mais um acerto na carreira do ótimo Michael Giacchino (Star Trek, Up - Altas Aventuras), que, apesar de soar genérica em alguns momentos, em outros ressalta toda a grandeza de seu herói e toda a atmosfera mística a sua volta.


Prejudicado pontualmente pela pressa em solucionar seus conflitos (toda a ascensão de Strange acontece de forma súbita), Doutor Estranho é mais uma obra razoavelmente divertida da Marvel e que deverá ser esquecida prontamente após o acender das luzes, mas que motiva também o seguinte questionamento: será que um dia a Marvel irá além da fórmula?


Obs: Há duas cenas adicionais: Uma durante e outra após os créditos finais.


NOTA 5

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