Festival do Rio 2026 | Dia 2

A Educação de Jane Cumming
(The Education of Jane Cumming, Escócia)

Edimburgo, 1810. A gélida e enevoada capital escocesa em certo momento deste A Educação de Jane Cumming, dizem, ainda não faz ideia do que seja lesbianismo, um tipo de “mal pensamento” que deve ser mantido em sigilo para evitar a “contaminação ampla desse pensamento” entre adultas e crianças, tal qual a sugestão de um juiz. O caso em questão é o de Jane Pirie (Flora Nicholson, a Miss Sutton de O Destino de Uma Nação) e Marianna Woods (Clare Dunne), mulheres que há anos mantém uma instalação educacional no interior, onde ensinam pouco mais do que as escolas tradicionais. Até o dia em que são acusadas por uma aluna de manterem relações sexuais na presença das alunas. A reputação ilibada até então e os anos dedicados ao magistério despertam a revolta dos pais e avós envolvidos, mas também curiosidade, especialmente da Justiça. Como poderiam passar anos sem deixar escapar uma reclamação sequer e da noite para o dia jogarem fora tudo pelo qual lutaram?

A diretora e roteirista Sophie Heldman baseia-se numa história real, mas passa longe de demonstrar interesse no sensacionalismo barato. Tanto que opta por uma abordagem sutil e constrói uma atmosfera que valoriza silêncios e gestos. O esmero estético é refletido nos bem acabados figurinos de Peri de Bragança e a reconstituição de época não se resume ao design de produção meticuloso de Gail Bowman, que inclusive tem grande importância narrativa, pois até o departamento sonoro faz um bom trabalho, atribuindo contraste entre os sons da madeira da escola e dos aposentos luxuosos de Lady Jane Cumming, por exemplo

Mais famosa como a tia Petúnia de Harry Potter, Fiona Shaw tem a rara oportunidade de viver uma mulher independente e de personalidade forte. Acostumada a coadjuvantes mais passivas nos últimos anos, quem sabe ela não convence de uma vez por todas os diretores de elenco da versatilidade inquestionável que possui. Já Clare Dunne, depois de brilhar como a protagonista de O Lugar da Esperança, continua relegada a papéis secundários, mas sempre exibindo talento, como na sequência em que recebe a visita de um advogado. A química com Flora Nicholson (co-autora do roteiro) é um pilar fundamental da narrativa e as duas se complementam em cena, com destaque para Nicholson.

O maior predicado de A Educação de Jane Cummimg, no entanto, não é o roteiro, que apesar do resultado geral positivo ainda deixa margem para questionamentos (as professoras já haviam se envolvido romanticamente antes de receberem as novas alunas?)é oferecer uma experiência contemplativa e serena, mesmo tratando de temas pesados e revoltantes. Repare, por exemplo, como a trilha sonora de Balz Bachmann (O Pardal na Chaminé) jamais abandona a suavidade do piano, contribuindo para uma atmosfera que reflete as sutilezas do roteiro (em alguns momentos, lembrei de Festim Diabólico), algo que deveria servir de lição para o filme seguinte desse Festival do Rio.
NOTA 8
Prima Facie
(Idem, Inglaterra/Austrália)

Tessa Ensler (Cynthia Erivo) é uma advogada de defesa extremamente bem-sucedida. Astuta e implacável, ela possui um conjunto de estratégias capaz de derrubar qualquer oponente no tribunal. Apesar do estranhamento dos colegas de escritório, a advogada de defesa não se importa com o fato de receber mais casos de agressões sexuais do que de qualquer outro tipo. "É como nos táxis: o motorista não escolhe, é escolhido", argumenta, como se tivesse a resposta na ponta da língua. Ela também não escolhe lados no tribunal, construindo sua defesa sem olhar para quem está representando ("não importa o que eu acho, não cabe a mim decidir"). Defender homens e desmontar "versões" sustentadas por supostas vítimas de agressão sexual tampouco pesa na consciência dela, que dorme tranquila todas as noites. Até o dia em que ela se torna a vítima e sente na pele o peso de um sistema judiciário que parece não ter sido feito para atender a quem é violentada.
Prima Facie é baseado na peça homônima de Suzie Miller que estreou em 2019 na Austrália e se tornou um sucesso mundial após uma temporada de estreia arrasadora no West End londrino, ganha versões na Broadway e até no Brasil, no qual Débora Falabella encarnou a protagonista e foi dirigida por Yara de Novaes. Dirigida por Susanna White (de Nanny McPhee e as Lições Mágicas), a produção foi adaptada pela própria Suzie Miller, que substitui o monólogo por uma versão mais adequada ao Cinema, mas colhe frutos decepcionantes.
O filme começa bem, ilustrando a personalidade alegra e vivaz de Tessa, com direito a uma chegada triunfal ao tribunal que é captado por White como se fosse uma popstar subindo ao palco. O primeiro ato, aliás, é fundamental para demarcar o ponto de ruptura da narrativa, justificando a mudança brusca sofrida pela advogada (que ouve música alta, dança, se diverte e depois passa os dias apenas sobrevivendo). O texto, sublinha seu apego às regras e convicções, pecando na sutileza e alertando o espectador para o uso indiscriminado de foreshadowing.
É o primeiro sinal de que Miller talvez não estivesse preparada ainda para escrever um longa-metragem. No início, a narração de Tessa diverte ao escancarar sua forma de pensar e as táticas para vencer audiências, mas à medida que o tempo passa, fica claro que o voice over é intrusivo e, pior, descartável, tornando-se bobo em determinado momento.
Como já era de se esperar, Erivo se sai maravilhosamente bem, exalando carisma quando necessário e atendendo às demandas dramáticas, demonstrando talento especialmente ao recitar um monólogo no terceiro ato. Infelizmente, pouco sobra para a britânica, que aos poucos é engolida pela mediocridade do texto. A direção também não ajuda e não consegue oferecer muito além do óbvio. De positivo, a analogia do "um em cada três", que é apresentado inicialmente para enfatizar a dificuldade de se formar numa grande universidade norte-americano e posteriormente é desvirtuado para ilustrar dados sobre violência sexual.
O resultado é uma tremenda decepção, dada a importância do tema central, mas o final clichê e panfletário consegue a façanha de demolir a relevância projetada pelo discurso, com direito a uma sequência repleta de chavões e palavras de ordem que enfraquecem até mesmo a performance de Erivo.
NOTA 4
Cavalo Selvagem Nove
(Wild Horse Nine, Reino Unido)

Minha relação com o Cinema de Martin McDonagh foi de amor à primeira vista, mais precisamente desde In Bruges (2008), época em que as distribuidoras tentavam atrair o público das locadores através de traduções, no mínimo, questionáveis, como o Hot Fuzz de Edgar Wright se tornando Chumbo Grosso e o filme de estreia do cineasta britânico, traduzindo por aqui como Na Mira do Chefe. O misto de humor sombrio com melancolia me fisgou desde o primeiro diálogo e até hoje lembro com amigos daquelas tiradas irresistíveis. Com o tempo, McDonagh foi refinando seu estilo, atingindo o apogeu com a obra-prima Três Anúncios Para um Crime, cuja derrota no Oscar para A Forma da Água deveria de fato ser encarada como um crime. Os Banshees de Inisherin, seu projeto seguinte, pode não ter momentos tão memoráveis quanto a invasão do policial racista de Sam Rockwell a uma delegacia ou uma linguagem cinematográfica tão meticulosamente bem construída, mas novamente brindou o espectador com uma mistura irresistível de comédia e drama, dessa vez batendo forte na tecla da acidez. De forma semelhante, Cavalo Selvagem Nove volta a explorar a culpa entre dois homens isolados numa ilha, mas apesar de contar com o sempre excelente Sam Rockwell (vencedor do Oscar por Três Anúncios), o show é todo de John Malkovich.

Eles interpretam uma dupla de agentes da CIA que vão parar na Ilha de Páscoa em meio à tensão política que antecedeu o golpe militar responsável por tirar Salvador Allende do poder. Malkovich interpreta Chris, o tipo de senhor ranzinza que, por ser também um veterano de um segmento confidencial do governo, frequentemente coloca o parceiro Lee (Rockwell) em apuros com o chefe (Steve Buscemi). Graças a uma condição especial de saúde e já na reta final da carreira, Chris deixou de se importar com o que fala, dizendo o que bem entende a quem quiser ouvir. Incluindo desde teorias da conspiração envolvendo a morte do presidente Kennedy, passando por uma curiosa relação entre países supostamente gays e a produção de queijo, e até missões altamente secretas, o que motiva a CIA a ficar de olho na dupla.

John Malkovich está (literalmente) careca de interpretar tipos extravagantes e de língua afiada, mas a novidade da vez está numa composição mais serena, sem os tradicionais rompantes histriônicos do ator duas vezes indicado ao Oscar. Confesso que já nem lembrava que o ator também é capaz de oferecer uma performance contida, mas é justamente sua envergadura dramática que o levará a ser fortemente considerado na disputa pelo próximo Oscar. Por trás de pérolas absolutamente hilariantes, esconde-se um sujeito vulnerável, com o peso de décadas de serviços prestados e sangue derramado. Não é preciso inventar conversas expositivas, quando um intérprete talentoso consegue transmitir fragilidade só pelo olhar.

O humor típico de Martin McDonagh é perceptível em cada linha de diálogo e traz leveza a uma história com um teor político agudo. A política externa norte-americana ganha francas alfinetadas, assim como o eterno conflito entre esquerda e direita recebe um espaço generoso dado pelo diretor e roteirista. Os sincericídios de Chris acabam representando o que quase todos pensam dos Estados Unidos, mas não se sentem confortáveis para falar em voz alta.

Com um John Malkovich em estado de graça, é fácil prestar menos atenção em Sam Rockwell, um dos atores mais subestimados de sua geração, pelo menos até levar merecidamente o Oscar. A expressividade de Rockwell é tão impressionante, que é praticamente impossível para McDonagh desviar a câmera de seu rosto, talhado sob medida para provocar gargalhadas sem precisar proferir uma palavra sequer.

Se em seus filmes anteriores, o cineasta britânico nos encantou com o uso consciente das cores, agora ele constrói simbologismos usando animais (cavalos, especificamente) e até esculturas (as enormes cabeças da Ilha de Páscoa), desabafando sobre a finitude da vida, legado e arrependimentos. Tudo isso com aquela camaradagem forjada na base da crueldade.

A sessão lotada na qual estive me fez lembrar dos melhores momentos que vivi no Cinema, numa época em que as pessoas topavam se desligar do mundo exterior por duas horas. Sem mexer no celular ou conversar com quem está ao lado. O resultado foi uma experiência quase sacra em que as gargalhadas só foram interrompidas pelo som ensurdecedor dos aplausos espontâneos imediatamente após os créditos surgirem na tela.
O Cinema ainda vive.
NOTA 9
No Good Men
(Kabul Jan, Afeganistão)

Filmes que denunciam as mazelas sociais no Oriente Médio nunca são demais e como é bom ver a curadoria do Festival do Rio 2026 refletindo esse pensamento ao trazer longas como esse No Good Men. No entanto, a produção escrita e dirigida pela iraniana de ascendência afegã Shahrbanoo Sadat não se contenta em fazer uma crítica frontal à cultura machista enraizada no Afeganistão, trazendo também a leveza de uma inesperada comédia romântica para dentro de uma história que se passa na mesma época (2021) em que o presidente dos Estados Unidos Joe Biden decidiu retirar as tropas do país asiático, encerrando vinte anos de ocupação, mas permitindo ao Talibã retomar o controle do lugar por meio do terror.
O roteiro é baseado nas próprias vivências de Sadat, que assim como a protagonista Naru (que ela mesma interpreta), trabalhou no cenário midiático de Cabul e enfrentou de peito aberto as barreiras impostas por uma sociedade radicalmente patriarcal. Estamos falando de um país em que um profissional de saúde receita “mais maquiagem” para a moça que foi agredida pelo marido por reclamar que não é vista por este. Criador e criatura se confundem em situações nas quais as mulheres são impedidas de filmarem uma reportagem por “constrangerem” o entrevistado. A justificativa? “Me recuso a ficar no mesmo ambiente de uma mulher com a cabeça de fora”. De forma semelhante, até mesmo um colega não hesita em externar a decepção quando descobre que o novo cinegrafista, na verdade é uma mulher.
Isso e muito mais fazem Naru, também pela experiência de ter sido traída três vezes pelo agora ex-marido, decretar que não existem homens bons no Afeganistão, explicando o título e ratificando a opinião ao colher depoimentos de dezenas de meninas, mulheres e idosas. Muitas revelando jamais terem ouvido um “eu te amo” do companheiro. Mas Qadiri, o tal colega veterano que inicialmente subestima a capacidade de Naru, se redime e coloca em xeque o pensamento da jornalista.
A partir desse momento, Shahrbanoo Sadat passa a ter sérias dificuldades para equilibrar a contundência de suas críticas com a suavidade da dinâmica entre o casal principal. Verdade seja dita, até as convenções do gênero são empregadas de forma frouxa, como ao trazer Naru elogiando Qadiri num momento e discutindo agressivamente com o mesmo na cena seguinte. Mas a comédia romântica é um tipo tão raro de Cinema no Oriente Médio (até então inédito no Afeganistão), que as falhas que surgem se tornam compreensíveis.
Anwar Hashimi faz um belíssimo trabalho ao projetar a gentileza de Qadiri sem ignorar os princípios xucros do ambiente no qual cresceu. O personagem é igualmente importante por engatilhar outro debate pertinente, dessa vez na seara jornalística. A ética do sujeito entra em rota de colisão com práticas que costumam ser varridas para baixo do tapete nesse tipo arriscado de cobertura (um militar tem a pachorra de sugerir simular um tiroteio para valorizar o registro do conflito). O aspecto jornalístico é especialmente importante, pois a trama faz uma referência impactante ao bombardeio suicida de um membro do Talibã que matou dezenas de jornalistas da TOLO TV.
Como atriz, Sabat também não deixa a desejar, pois é hábil ao canalizar toda a revolta da população feminina. A retórica apaixonada, todavia, jamais ganha contornos arrogantes ou agressivos, o que soma pontos cruciais para a relação da personagem com o público. Outro detalhe a ser destacado é a preocupação da protagonista ao fazer sempre a mesma pergunta o ao ouvir sobre um relacionamento (“foi casamento arranjado ou por amor?”), agregando valor ao retrato exposto pelo roteiro.
Pecando esporadicamente na montagem, como ao “esquecer” na ilha de edição a sequência que mostraria uma criança sendo buscada na escola (ela surge implacavelmente no meio de um momento-chave sem a menor justificativa), No Good Men pode até perder impacto com a briga interna entre a abordagem crua e realista de seu discurso com o pacote lúdico consequente das comédias românticas, mas deve ser celebrado como uma nova forma encontrada de jogar luz sobre um velho problema.
NOTA 6,5







