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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Morte. Morte. Morte" satiriza Geração Z com humor negro afiado

Atualizado: 7 de out. de 2022


Numa era em que tudo acaba ganhando um rótulo, confesso que fico perdido em meio às nomenclaturas utilizadas para distinguir as gerações que povoam nosso planeta. Além disso, a facilidade de acesso à informação e os avanços assombrosos no campo da comunicação, fizeram com que qualquer erro, não importando a sua magnitude, se tornasse passível de punição, muitas vezes em larga escala. Seja através de uma frase tirada de contexto ou por uma escolha ruim de palavras, se expressar nas redes sociais hoje em dia é um desafio e tanto. Como proceder num ambiente onde a exposição virou praticamente uma cultura?


Vídeos (curtos ou rápidos), fotos com legendas reflexivas, “tweets” com frases pouco lisonjeiras... Isso tudo já se tornou parte de uma sociedade que parece não dar mais tanto valor à privacidade como em outros tempos. O mais curioso de tudo é que diante da nitidez com que vidas são expostas na internet, cresceu uma geração aparentemente mais consciente, determinada a encarar ferozmente qualquer deslize, mesmo que vez ou outra a problematização se prove um exagero. Esses questionamentos são exatamente a base da história de Bodies Bodies Bodies (no original), novo filme da cultuada produtora norte-americana A24.

Um grupo de jovens na casa dos vinte anos resolve aproveitar a chegada de um furacão como a desculpa perfeita para se reunirem na luxuosa mansão dos pais de um deles. Entre uma atividade e outra para passar o tempo, tudo regado a muito álcool, música e fofocas, eles resolvem jogar “Morte. Morte. Morte.”, uma variação daquele famoso passatempo mais conhecido por aqui como “Assassino” ou “Detetive”. Num sorteio secreto, alguém acabará ficando com o papel de assassino e para vencer deverá matar cada um dos adversários sem gerar suspeitas aos outros. Com uma estrutura que remete diretamente a Among Us, jogo de celular extremamente popular durante a Pandemia, a dinâmica que dá título ao filme ganha proporções sinistras quando alguém aparece morto de verdade, fazendo com que todos se tornem suspeitos.

Se você está pensando que Morte. Morte. Morte. (na versão brasileira) é um daqueles filmes onde nos divertimos tentando adivinhar quem é o homicida (no melhor estilo Agatha Christie), você está redondamente enganado, pois a única graça aqui é acompanhar o comportamento estapafúrdio que domina seus problemáticos personagens. Incapaz de construir um mistério capaz de envolver o espectador, o roteiro da estreante Sarah DeLappe falha em quase todas as suas frentes, sendo particularmente prejudicada pela direção da holandesa Halina Reijn (Instinto). Ao invés de investir numa atmosfera de inquietude ou de mostrar algo digno de aterrorizar o espectador, Reijn preguiçosamente se entrega a jump scares que acabam provocando mais risos do que sustos, o que também contribui para diluir o suspense. Sobra então para os diálogos, estes sim, inspiradíssimos.


Ciente de ter concebido figuras ora antipáticas, ora desinteressantes (quando não, ambos), DeLappe traça, a partir das interações, paralelos que remetem diretamente ao universo das redes sociais, o que confere a Morte. Morte. Morte. uma aura satírica que se destaca com facilidade. Como estereótipos vindos diretamente do Twitter, os jovens são facilmente atraídos por polêmicas, problematizando tudo a sua volta enquanto abraçam a hipocrisia sem perceberem. Demonstrando um olhar apuradíssimo, DeLappe faz uma crítica mordaz ao comportamento da juventude, fazendo da produção um retrato fiel da nossa época.

Estão no roteiro as “dancinhas” (“espera aí, quero fazer um TikTok”, alguém diz em determinado momento antes de posicionar o celular e executar passos estrambólicos até que outros resolvem fazer o mesmo); a preocupação com astrologia (“ele tem Lua em Libra”, alguém responde quando indagada sobre o motivo de ter escolhido namorar determinado personagem); a obsessão com a popularidade digital (alguém almeja uma “chuva de curtidas”); e até excentricidades, como a “máscara de terapia de luz”. Tudo extravagantemente embalado numa sátira irresistível (“você agenda até sexo no Google porque você não tem alma”). Por mais que seja divertido rir dessas peculiaridades (como não gargalhar quando alguém insulta o outro chamando-o de “classe média alta”?!, o sucesso do filme está no humor negro com que aborda temas espinhosos, como a propensão ao cancelamento sem a busca por maiores razões, o preconceito e a necessidade de aceitação.

Pena que, depois de apontar de forma tão certeira as características mais marcantes da Geração Z (acertei?), como a dependência da tecnologia (organicamente incorporada às atividades mais triviais) o longa-metragem resolva se levar a sério durante o terceiro ato, quando tenta utilizar todos os absurdos dos quais rimos, para embasar um argumento óbvio, esfregando na cara do público seu discurso. Seu final, aliás, deverá dividir opiniões.


No final das contas, Morte. Morte. Morte. será mais lembrado como um passatempo divertido do que como reflexão dos costumes da Geração Z, de quem tira sarro por frenéticos 94 minutos.


Observação: Há cenas adicionais após os créditos finais.


NOTA 6



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