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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Novo "Godzilla e Kong" perde tempo com justificativas e dramas rasos

O Cinema, assim como qualquer outra Arte, não existe num vácuo e tentar fazer uma reflexão tirando-o de contexto é mais do que um exercício de futilidade: é contraproducente. Por isso, ao escrever sobre Godzilla vs. Kong em 2021, não deixei de apontar a ideia estúpida que embasou seu roteiro, mas que isso não deveria ser, necessariamente, um problema. Afinal, ideias estúpidas, como a de colocar os dois kaijus mais famosos do Cinema para brigarem, já resultaram em obras minimamente divertidas. No entanto, o que poderia facilmente ter representado um desastre cinematográfico de proporções tão colossais quanto as de seus astros, se revelou um entretenimento bobo, é verdade, mas o tipo de escapismo que a época demandava.


Pois, você deve lembrar bem, amargávamos uma pandemia de COVID-19. E as salas de cinema, como eu dolorosamente bem lembro, foram as primeiras a fecharem e seriam as últimas a reabrirem. Portanto, a experiência única de apreciar uma sessão IMAX, naquele mês de abril, não passava de uma lembrança. Godzilla vs. Kong, a seu próprio desengonçado modo, tentava nos oferecer aquelas sensações dormentes, embalando sua história como um bem-vindo escapismo para um público angustiado, ansioso, desesperançado e ávido por fugir, mesmo que por duas horas, daquela sombria realidade. Hoje, a situação é outra. O novo normal está entre nós. Se não foi muito difícil engolir a ausência de coesão, timing, desenvolvimento e conexão emocional com a obra de 2021, esta continuação chega a nós perante um novo azimute para ser consumido e talvez o maior equívoco da Warner Bros. Discovery e seus produtores tenha sido achar que poderiam contar com a mesma boa-vontade de seu público.

A estratégia é basicamente a mesma e fica clara desde os primeiros instantes da projeção. A trama dá continuidade aos acontecimentos do filme anterior, quando King Kong e Godzilla chegaram a uma trégua após delimitarem seus territórios. Enquanto o primeiro passou a habitar a “Terra Oca”, o segundo faz dos oceanos seu verdadeiro lar, esporadicamente emergindo para distribuir sopapos em criaturas que ameacem seu espaço (leia-se: o nosso espaço) e para tirar merecidas sonecas no Coliseu de Roma, seu cantinho favorito. Claro que esse equilíbrio chega ao fim e caberá aos humanos encontrarem um jeito de sobreviverem a isso.

É nesse ponto que preciso fazer um alerta a você que é fã do Godzilla ou que pretende assistir a esse filme única e exclusivamente por causa dele. Saiba que o lagartão radioativo, dessa vez, tem pouco tempo de tela, já que os roteiristas Terry Rossio (da franquia Piratas do Caribe e do filme anterior), Simon Barrett (do bom O Hóspede) e Jeremy Slater (de atrocidades como Death Note e Quarteto Fantástico) optaram por Kong como o verdadeiro protagonista.

Não por acaso, é ele quem aparece primeiro e passará o restante da narrativa em contato direto com os humanos, ao passo que Gojira (seu nome de batismo), iniciará uma misteriosa busca por radiação, como se estivesse em preparação para um confronto iminente. Enquanto seu antigo nêmesis carrega as baterias, o gorilão enfrenta crises inesperadas. A primeira delas, um dente inflamado, o leva a procurar a ajuda de Dra. Andrews (Rebecca Hall), cuja filha adotiva (Kaylee Hottle) permanece como a única com quem é capaz de se comunicar (através da linguagem de sinais).

Como já deve ter dado para perceber, Godzilla e Kong: O Novo Império abraça a galhofa ao lidar com os grandalhões, tanto que é complicado segurar o riso ao ver, por exemplo, um enojado Kong procurando uma cachoeira para se lavar após receber um banho de sangue inimigo, ao passo que Godzilla, como já mencionado, usa o Coliseu como cama. Esse tipo de humor permeia a narrativa e traz uma leveza que surge organicamente, beneficiando o filme de tal forma que toda vez que Kong e/ou Godzilla enchem a tela, o resultado invariavelmente é positivo e satisfaz o público, mais até do que toda a pancadaria que se espera desse tipo de obra.

Em contrapartida, a produção, feliz com a repercussão do longa-metragem anterior, resolveu repetir a estratégia e acaba colhendo todos os frutos dessa decisão, para o bem e para o mal. Se por um lado somos presenteados com o mesmo tipo de escapismo funcional, por outro, temos de encarar todos os seus efeitos colaterais e que tradicionalmente acometem histórias de kaijus, sejam eles terráqueos ou não. Me refiro à obrigação de apresentar um núcleo humano, como se uma conexão com atores de carne e osso fosse obrigatória para o público. O problema é que, esta parte da história, jamais chega perto de funcionar.

A culpa não é do elenco, composto por profissionais talentosos e carismáticos como Rebecca Hall (A Casa Sombria), Dan Stevens (A Bela e a Fera) e Brian Tyree Henry (Trem-Bala), mas sim dos papéis unidimensionais que encarnam. Nem é preciso muita atenção para perceber que cada componente serve a uma única função: Stevens é o aventureiro de personalidade tresloucada, algo refletido por suas roupas espalhafatosas, cuja função principal é oferecer soluções pouco ortodoxas para os problemas (a surpresa compõe a ação, afinal). Tyree Henry, como já havia acontecido no filme anterior, é um mero alívio cômico, tirando suas piadas de referências modernas (seu personagem apresenta um podcast supostamente conspiracionista). Por último, Hall é a encarregada de explicar tudo o que está acontecendo para o público, mesmo que isso não se faça necessário.

Essa necessidade de justificar, o tempo inteiro, absolutamente tudo o que aparece é o que torna o núcleo humano tão entediante. Pois os roteiristas preferem enxergar seus personagens como instrumentos que servem a propósitos específicos, ao invés de concentrarem seus esforços em torná-los mais interessantes e, ora, construírem de fato uma conexão com o público. Essa unidimensionalidade mata qualquer chance de o drama, já raso, operar num grau minimamente satisfatório. Nem mesmo a relação entre a Dra. Andrews e sua filha adotiva chega a emocionar, pois até o arco dramático da jovem indígena é escancaradamente concebido como um espelhamento da situação vivida por Kong, apresentado frequentemente como “o último de sua espécie”. O que sobra é justamente aquilo que deveria ser a prioridade da produção: o espetáculo visual.

Se um dia Hollywood enxergou o Godzilla como uma criatura sombria, algo refletido em filmes excessivamente escuros, isso ficou no passado, pois desta vez a criatura age às claras, banhada pela gloriosa luz do dia e até emitindo cores. As cores, aliás, são o grande diferencial de Godzilla e Kong: O Novo Império, pois contribuem para uma obra vibrante e visualmente rica, mesmo que a “Terra Oca” (uma teoria que realmente ocupa um espaço considerável no debate online) resvale no óbvio ao representar fauna e flora. Os embates são suntuosos e devem agradar aos fãs do gênero, principalmente graças aos competentes efeitos gráficos da WETA Digital (a empresa por trás da trilogia O Senhor dos Anéis). Há, inclusive, algumas surpresas no terceiro ato e que jogam um tempero a mais no tão esperado confronto.


Pena que esse suculento prato principal seja uma parte tão pequena da refeição, o que talvez deixe um sabor amargo ao final.


NOTA 5


1 comentário


Jnei Cândido
Jnei Cândido
28 de mar.

Parabéns pela Crítica. Gostei.

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