top of page
  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Novo "Homem-Formiga" encerra trilogia com aventura genérica

Atualizado: 16 de fev. de 2023


Em 2015, a Marvel decidiu encerrar a sua “Fase 2” assumindo de vez a veia cômica que tanto se sobressaiu em seus filmes anteriores, lançando Homem-Formiga como uma aposta arriscada apresentando ao público um super-herói pouco badalado alguns meses após a estreia da aguardada continuação de Os Vingadores, seu maior sucesso até então. Com Paul Rudd, um ator acostumado a comédias, assumindo surpreendentemente o protagonista Scott Lang, a produção fez sucesso suficiente para garantir uma continuação, Homem-Formiga e a Vespa, de 2018. Para o terceiro filme, porém, a Marvel optou por realizar algumas mudanças.

A primeira delas diz respeito ao roteiro: Se o primeiro filme beneficiou-se da presença do realizador britânico Edgar Wright (que antes de sair por conta das famigeradas “diferenças criativas”, deixou um projeto sólido para ser aproveitado), o segundo chegou a ser escrito a dez mãos, sinal sempre preocupante. Já este Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania é roteirizado apenas por Jeff Loveness, veterano da TV que além de ter sido premiado com um Emmy pela série animada Rick & Morty, já assinou programas de estilos completamente diferentes entre si (de sitcoms a premiações e talk shows). O mais irônico é que agora que a franquia Homem-Formiga finalmente está nas mãos de apenas um profissional, é justamente quando o filme carece de... personalidade.

Iniciando a projeção com uma referência direta às comédias que Paul Rudd se habituou a estrelar nos anos 2000, a produção faz uma recapitulação pedagógica de todos os acontecimentos relevantes para a trama deste terceiro filme (se você não assistiu às aventuras anteriores, não se preocupe), atirando informações e referências das formas mais gratuitas e artificiais possíveis antes de entrar de fato na trama principal, que acaba levando Scott Lang (Paul Rudd), Hank Pym (Michael Douglas), Janet (Michelle Pfeiffer) e Hope (Evangeline Lilly) para dentro do Reino Quântico, mas dessa vez na companhia de Cassie Lang (Kathryn Newton, de Freaky – No Corpo de Um Assassino), filha de Scott, que ao construir uma espécie de transmissor, acaba acidentalmente transportando os heróis para os domínios do vilão Kang (Jonathan Majors, de Irmãos de Honra), cuja relação com Janet esconde uma série de segredos.

Com ausências sentidas (Michael Peña em especial) e o retorno de rostos conhecidos e talentosos, cabe a Paul Rudd e Jonathan Majors o destaque num elenco recheado de performances no piloto automático (principalmente Michael Douglas): Enquanto Majors vai bem ao investir numa composição marcada pelos modos comedidos e pelo tom de voz baixo e controlado, exalando perigo justamente pela imprevisibilidade dos seus atos, Rudd cumpre com louvor a ingrata tarefa de compensar a falta de urgência demandada pela história. Se não sentimos os riscos da missão dos mocinhos, é Scott Lang quem consegue fazê-lo: Dotado de uma personalidade leve e bem humorada, é precisamente quando Lang se entrega a palavrões, ameaças e caras fechadas que o espectador passa a ter certeza da gravidade da situação, temendo pelo destino do super-herói.

Vilão poderoso o bastante para imobilizar dois heróis ao mesmo tempo simplesmente movendo um dedo, mas incapaz de conter um exército de formigas, Kang, o Conquistador é a materialização daquela máxima de Hollywood que diz que as continuações devem ser "maiores", como se a ideia fosse fazer um Thanos 2.0, mas sem a mesma profundidade dramática. O que tornava o inimigo dos Vingadores tão fascinante – a ponto de me fazer evitar usar a palavra “vilão” para caracterizá-lo na crítica de Vingadores: Guerra Infinita – era que ele realmente acreditava estar fazendo o bem, como se os fins justificassem os meios. Já Kang é guiado pela fúria, misturando um apetite voraz pelo poder com um desejo cego por vingança.

O maior equívoco do roteiro, no entanto, nem são os diálogos expositivos ou o didatismo excessivo (marca registrada da Marvel), mas sim menosprezar a inteligência do espectador, tomando a liberdade de descrever tudo o que acontece na tela como um verdadeiro espetáculo de obviedades. Diante disso, tenho pena de Michael Douglas, um dos maiores atores de sua geração, por chegar a um ponto de sua carreira em que é obrigado a participar de diálogos embaraçosos. Quando alguém menciona o multiverso, por exemplo, seu Hank Pym, um físico renomado, solta um “você está falando de dimensões alternativas?”. Já em outra cena, ao receber a informação de que um personagem se trata de um telepata, é Scott Lang quem faz as vezes de “Capitão Óbvio” (“ele lê mentes?”).

Como não poderia deixar de acontecer num filme da Marvel, há também o obrigatório “fan service” (ou “client service”), que além de oferecer uma porção de referências, serve como desculpa para a inclusão de MODOK, personagem completamente descartável e que é concebido através daquele que deverá ficar conhecido como um dos mais grotescos (d)efeitos visuais dos últimos tempos. A aberração é tão descomunal que chega a lembrar (e muito) o vilão de As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl. E se nos filmes anteriores havia uma preocupação em mostrar a importância dos trajes (quando não vestidos, poderiam ser roubados, por exemplo), o novo filme abraça a preguiça que há tempos vêm contaminando os roteiros da “Casa das Ideias”, colocando os uniformes para se materializarem com um simples toque no peito (impressionante como tudo virou ‘nanotecnologia’ de uns tempos para cá).

Enquanto isso, o tema de Homem-Formiga, tão eficaz ao evocar a atmosfera de Filme B (remetendo a clássicos como A Pequena Loja dos Horrores e Querida, Encolhi as Crianças), é substituído por uma melodia techno condizente com o tom da história, em mais um acerto do compositor Christoph Beck, especialista em comédias, mas comprovando sua versatilidade aqui. Em contrapartida, vindo de um estúdio que já nos presenteou com ótimos trabalhos de maquiagem na franquia Guardiões da Galáxia, é uma tremenda decepção notar que apesar de mostrar uma infinidade de criaturas bizarras, todas são concebidas com a ajuda de computação gráfica, gerando uma estranheza que não aconteceria caso a Marvel optasse pelo estilo protético que tanto deu certo no passado.

Refletida no tom da narrativa, essa natureza sintética, denunciada pelos visuais pasteurizados típicos da Marvel (um problema que aponto em quase todas as críticas que escrevo sobre filmes do MCU) é sentida por uma estrutura convencional que ano passado mesmo já fracassou (qualquer semelhança com a animação Mundo Estranho não é mera coincidência), servindo para abarcar uma série de convenções à serviço de sequências de ação sem qualquer brilho. Peyton Reed, cineasta também conhecido pelas comédias e que comandou os dois capítulos anteriores, anula-se num projeto claramente concebido como um “filler”, por mais que o roteiro tente disfarçar seu caráter genérico (e com propósitos financeiros).

Encerrando a projeção com o mesmo artifício batidíssimo (reforços chegando para a batalha final), utilizado em Avatar, Pantera Negra, Vingadores: Guerra Infinita, Vingadores: Ultimato e até mesmo no hediondo Star Wars: A Ascensão Skywalker, Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania se posiciona facilmente como um dos piores filmes produzidos pelo mesmo estúdio que já nos brindou com ótimas obras como Homem de Ferro, Os Vingadores, Capitão América – O Soldado Invernal e os supracitados Pantera Negra e Vingadores: Ultimato, mas que segue mergulhado em sua fase mais irregular.


Obs: Há duas cenas extras.


NOTA 4

bottom of page
google.com, pub-9093057257140216, DIRECT, f08c47fec0942fa0