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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Novo "Suspíria" aposta no choque, mas esbarra numa trama inchada

Inicialmente, um remake de Suspíria, clássico italiano de Dario Argento que marcou o Horror em 1977, pode parecer infundado e desnecessário. E é mesmo. Portanto, procurar uma justificativa torna-se mera futilidade, nos restando saciar nossa curiosidade a respeito do olhar de Luca Guadagnino sobre a obra-prima de seu compatriota.


Para quem não viu o original, Suspíria mostra a norte-americana Susie chegando a Berlim para fazer uma audição na prestigiada escola de dança administrada por um misterioso grupo de mulheres. Depois de aceita, ela começa a presenciar estranhos acontecimentos durante os ensaios, levando-a a acreditar em macabras teorias conspiratórias espalhadas por uma colega e que podem envolver assassinato e ocultismo.


Vindo do aclamado Me Chame Pelo Seu Nome, seu (grande) filme anterior, o cineasta italiano substitui o visual apurado e repleto de vermelho por uma atmosfera mais sóbria e com uma paleta de cores mais puxada para a dessaturação. Uma escolha inusitada, dado o vigor estético do clássico de 77, mas que encontra sentido se analisarmos os objetivos do cineasta. Trata-se de uma abordagem calcada desde o início na realidade, ao contrário do original, que já começava guiando o espectador por caminhos sobrenaturais. Aqui, o roteiro marca esse elo com a realidade através de passagens sobre o holocausto e a atuação do grupo Baader-Meinhof, responsável pelo sequestro de um avião da Lufthansa na década de 70.


O maior problema do texto é transformar a história original, que rendeu pouco mais de 90 minutos, em uma narrativa de longas 2 horas e 26 minutos. Com isso, a trama de Susie Bannion e sua relação com a companhia de dança liderada pela Madame Blanc é acrescida de subtramas e personagens secundários que esticam o filme e sacrificam o ritmo. Perde-se o foco em meio a temas como culpa e feminismo, fazendo com que a produção, determinada a atingir tantos alvos, acabe por acertar nenhum. Ao menos plenamente.


A maior prova dessa construção trôpega repousa nas pontuais intervenções que envolvem notícias transmitidas em televisões ou rádios e que dividem espaço com a trama principal, que por sua vez ainda comporta disputas pelo poder, conspirações, discussões psicológicas e outros periféricos. Cada minuto adicional é sentido enquanto vemos o ritmo diluir a força da história principal.


No meio disso tudo porém, Tilda Swinton escapa ilesa, provando porque é uma das mais versáteis atrizes da atualidade. Assumindo não apenas um, mas três papéis completamente distintos entre si, a britânica eclipsa todo o elenco com facilidade, ofuscando até mesmo a primeira performance realmente convincente de Dakota Johnson, a fraca protagonista da adaptação de Cinquenta Tons de Cinza.


Livre de qualquer preocupação comercial, o cineasta Luca Guadagnino permite-se realizar um horror desprovido de jump scares, estabelecendo cada acontecimento com cuidado e paciência, mas pecando no ritmo frouxo com que conduz a narrativa. Não por acaso, Guadagnino opta por pequenos flertes com o horror durante os dois primeiros atos, deixando para abraçar o gênero ferozmente apenas em seu terceiro ato, quando entrega-se com gosto ao espetáculo sangrento que nem mesmo Argento escolheu fazer.


Embalado por um design de produção que acerta ao não chamar a atenção para si, Suspíria – A Dança do Medo ainda inclui uma trilha sonora acertadamente discreta de Thom Yorke, da banda Radiohead, ecoando alguns dos temas originais do filme original enquanto evita cair na armadilha de sublinhar os acontecimentos ou, pior, influenciar na percepção do público. Nesse filme, não há espaço para acordes abruptos ou sustos fáceis.


O resultado é um terror complexo e que intercala uma mistura corajosa de aflição e choque para mergulhar o espectador num universo quase descolorido (não fosse pela presença do vermelho) que reflete a natureza de seus personagens. O impacto diluído acaba por fomentar o desejo por um longa-metragem não tão longo. O cansaço porém surge como o efeito colateral de uma obra não tão brilhante como seu homônimo original, mas eficaz e, principalmente, curiosa o bastante para ser conferida.


NOTA 7,5



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