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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"O Mundo Depois de Nós" reúne elenco estelar em mais um suspense medíocre da Netflix


Apesar de não serem tão frequentes em Hollywood como em outrora, os blockbusters apocalípticos têm se mostrado uma verdadeira mina de ouro para a Netflix, explorando-a impiedosamente para engrossar o seu catálogo. Claro que a famigerada escolha da empresa pela quantidade ao invés da qualidade também vem resultando em obras medíocres como Caixa de Pássaros e seu derivado (ainda pior) Bird Box: Barcelona. Isso, no entanto, não tem sido um impeditivo para atrair grandes nomes da indústria como Sandra Bullock e Julia Roberts, sendo esta última a maior estrela de O Mundo Depois de Nós, a bola da vez.


Mas o destaque de Uma Linda Mulher e vencedora do Oscar por Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento não está sozinha nessa empreitada, juntando-se a outro premiado talento, no caso, Mahershala Ali, duas vezes galardoado pela Academia (por Moonlight e Green Book). E se você achou pouco, saiba que o onipresente Ethan Hawke (quatro vezes indicado ao Oscar) também está no projeto, que ainda conta com o veterano Kevin Bacon (que apesar das participações em colossos hollywoodianos ainda não obteve reconhecimento da Academia) numa participação especial. São nomes que emprestam credibilidade a um projeto que sabemos ter sido concebido apenas para posar como mais um produto nas gôndolas digitais da Netflix.

Para quem visa horas de visualização, gráficos de “mais assistidos”, “mais buscados” e o famigerado “bombando”, talvez seja o bastante. Já o espectador casual, aquele que chega cansado do trabalho e procura apenas uma ou duas horas de escapismo, talvez. Todavia, o público-alvo do filme não é o consumidor médio da plataforma, mesmo que seu mero interesse já satisfaça os executivos da empresa. Afinal de contas, O Mundo Depois de Nós chega às telas (e telinhas) sob a batuta de Sam Esmail, produtor egípcio-americano que vem galgando parâmetros no audiovisual estadunidense após criar a cultuada série Mr. Robot e produzir a irregular Homecoming (também estrelada por Julia Roberts). Como cineasta, falta a Esmail o prestígio que já acumula na TV e, a depender deste seu mais novo projeto, continuará faltando.

É ele também quem assina o roteiro, que por sua vez é uma adaptação do terceiro e mais recente romance do autor norte-americano Rumaan Alam. A história acompanha uma família indo passar uns dias no interior. A ideia, impulsivamente abraçada por Amanda (Roberts), a matriarca, é uma mera desculpa para escapar do cotidiano caótico da metrópole. Clay (Hawke), seu marido, é uma pessoa bem mais tranquila e não resiste à tentação de tirar férias com a esposa e os filhos. O início é perfeito, com os Sandford se estabelecendo numa opulenta mansão graciosamente situada no meio do nada, corroborando a intenção de “deixar o mundo para trás”, como sugere o título original. Os problemas começam a aparecer aos poucos. Primeiro, o pesadelo dos mais jovens: o sinal de internet cai. Depois é a vez das estações de Rádio e Televisão sumirem do mapa. O que está acontecendo? Pergunta Amanda de um jeito mais desbocado e pouco antes da chegada de G.H. Scott (Ali) e sua filha Ruth (Myha’la), supostos donos da casa que chegam desesperados a procura de um refúgio.

Poderia ser a premissa de um saboroso suspense de câmara, mas Sam Esmail foge da teatralidade como o Diabo foge da Cruz, criando situações que obrigam os personagens a deixarem a gigantesca casa de veraneio. São momentos em que o diretor mata dois coelhos com uma cajadada só, pois aproveita para incrementar o mistério ao soltar alguns elementos que jogam ainda mais pontos de interrogação sobre o espectador, como um imenso navio petroleiro desgovernado e o avião caindo espetacularmente a poucos metros de G.H.

Assim como os movimentos heterodoxos de câmera, e as angulações ainda menos convencionais, são formas encontradas por Esmail de extravasar seu deslumbramento com as possibilidades oferecidas pela linguagem cinematográfica, mas que em suas mãos viram nada mais que firulas estéticas que podem até despertar alguma curiosidade à primeira vista, mas que deixam de impressionar no minuto seguinte. Parece que o realizador está buscando desesperadamente uma assinatura visual, querendo cravar um estilo antes de estabelecer a substância do projeto.

E nesse ponto, nem Ali e muito menos Roberts salvam o dia. Sinceramente, nem Denzel Washington salvaria O Mundo Depois de Nós de um profundo e irritante vazio. O fato de ludibriar o espectador através de um mistério bem alimentado, mas que se prova fajuto é simplesmente desonesto demais até para os padrões da Netflix. Principalmente porque toda essa aura enigmática serve apenas para impedir que o assinante caia em sono profundo enquanto o roteiro salpica trechos de um esboço do que viria a ser um discurso, mas tão pobremente articulado que se resume a episódios de uma rebeldia sem causa. “Eu odeio as pessoas”, brada Amanda em determinado momento, suplicando ao espectador que isso seja o bastante para redimí-la nas horas seguintes enquanto destila sua fúria.

Desinteressada e proferindo seus diálogos de uma forma tão mecânica que cheguei a acreditar estar diante de uma recriação via inteligência artificial, Julia Roberts visivelmente não se conecta a Amanda e sequer possui química com Ethan Hawke, que felizmente parece estar perdendo o hábito, adquirido em O Homem do Norte, de rosnar enquanto fala. Já Mahershala Ali é o único empenhado em trazer alguma energia, embora invista na mesma composição sofisticada e honrosa que vem se especializando desde Green Book. A dignidade que Ali exibe em cena, no entanto, não o impede de protagonizar uma estranhíssima e randômica sequência de dança ao lado de Roberts.

Julgando-se, certamente, um provocador nato, Esmail aproveita a presença de G.H. e sua filha mal amada para tecer um comentário racial cuja superficialidade só não impressiona mais do que a situação criada para abarcá-la, em mais um episódio aleatório saído do oportunismo do diretor/roteirista. Se ele fracassa miseravelmente em sua “tese” social, ao menos devemos lhe dar um crédito por arriscar-se em outra esfera, mesmo que seus argumentos antropológicos e sociais não passem de frases de efeito que parecem escritas por um adolescente revoltado. Como se não bastasse, todas essas vociferações ainda são repetidas pelos personagens que estão escutando, com o tradicional “então vocês está me dizendo que...” precedendo cada maldita repetição. Aparentemente, o assinante da Netflix não é inteligente o bastante para assimilar cada pérola de sabedoria e acidez saída da pena de Sam Esmail, que se revela uma mistura pouco inspirada de Shyamalan e Jordan Peele.

Abusando das pistas falsas (os pobres cervos criados em computação gráfica, a latina no meio da estrada) ao longo de seus inchadíssimos mais de 140 minutos de projeção (a supracitada sequência musical só confirma isso), O Mundo Depois de Nós pelo menos servirá para provocar Elon Musk e seus fãs, que dificilmente ficarão indiferentes após uma inusitada sequência envolvendo carros Tesla.

Contando com uma referência a Friends que ganha uma conotação compeltamente diferente após a recente perda de Matthew Perry, O Mundo Depois de Nós pode até não ser o pior Original Netflix que você verá na plataforma de streaming, mas passará longe de fazer jus à categoria “filmes recomendados”.


NOTA 4


1 comentário


Jnei Cândido
Jnei Cândido
11 de dez. de 2023

Parabéns pela crítica. Interessante .

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