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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Os Mercenários 4" oferece o de sempre, mas com menos astros


É sempre importante lembrar que a franquia Os Mercenários foi idealizada por Sylvester Stallone como uma forma de reunir velhos amigos, que por coincidência também eram alguns dos maiores astros de ação do Cinema hollywoodiano. Ou seja, Stallone se beneficiou do caráter nostálgico de ver figuras do passado voltarem aos holofotes, mas especialmente da possibilidade de vermos todos juntos pela primeira vez. Assim, uma sequência de poucos minutos com Rambo, Exterminador e John McClane trocando algumas palavras foi o suficiente para alavancar o marketing do projeto.


O primeiro filme, embora lucrativo (não custou muito, diga-se), contou com uma direção confusa de Stallone (sim, além de produtor, roteirista e protagonista, ele também ocupou a cadeira de diretor), prejudicando as sequências de ação, mas não ao ponto de afastar o público. O segundo, no entanto, se mostrou melhor, não apenas por ter trocado de comando, mas essencialmente por não ter se levado a sério. E com a adição de outros grandes nomes da Ação, seduzidos pela repercussão do capítulo anterior, criou-se uma marca valiosa para a Lionsgate.

Que por sua vez cavou a própria cova, já que ao estabelecer uma tradição de somar velhos astros a cada filme, trouxe para si um desafio que em algum momento poderia ser grande demais para ser superado. O terceiro filme, aliás, foi o primeiro alerta que a franquia recebeu do público, faturando muito abaixo do previsto mesmo com participações ampliadas de nomes como Schwarzenegger, Willis, Ford, Banderas e Snipes. Com um atraso de nove anos, não foi só o padrão bienal de lançamento que foi quebrado, mas também a preciosa promessa de seduzir estrelas para integrar a equipe. Na verdade, a situação é ainda pior, pois além de praticamente não trazer rostos novos, a produção perdeu grande parte de seu elenco habitual. Diante desse cenário, será que o mundo ainda precisa d’Os Mercenários?

Trocando de roteiristas como quem troca de roupa, o script agora está a cargo do experiente Kurt Wimmer (responsável por uma infinidade de refilmagens), do novato Ted Daggerhart e do fraco Max Adams (da série A Lista Terminal). A história é a mesma de sempre, com Barney Ross (Stallone) e Lee Christmas (Jason Statham, de Megatubarão 2) recrutando uma equipe para cumprir uma missão em algum país de terceiro mundo envolvendo um ditador qualquer. Eles descobrirão, claro, que há outro nome por trás, que nesse caso é Rahmat (Iko Uwais, do espetacular Operação Invasão), terrorista que planeja jogar os Estados Unidos contra a Rússia com o objetivo de provocar a terceira guerra mundial.

O enredo funciona como uma mera desculpa para colar as sequências de ação, que, agora vítimas de um corte sensível no orçamento, precisam ser gravadas em estúdio, evidenciando efeitos visuais pouco convincentes (especialmente aqueles com chroma-key) e diminuindo a escala dos set-pieces. Já a estratégia, no entanto, é outro reflexo da própria franquia, permanecendo a mesma desde o princípio: Acompanhamos os brucutus fazendo mingau de inimigos enquanto proferem frases de efeito e se entregam à brotheragem nos momentos de respiro.

Esse mingau, vale dizer, continua regado a muito sangue, com os bandidos sendo esfaqueados, fuzilados e até despedaçados, seja por metralhadoras ponto 50 ou “acidentes” automobilísticos. Em alguns momentos, força-se a barra para manter a classificação indicativa em 18 anos, como fica claro numa sequência em que alguém é arremessado de uma altura mediana, mas que se espatifa no chão como se fosse uma melancia.

A dinâmica entre os personagens segue funcionando, principalmente graças ao carisma do elenco. Conta a favor do filme o fato de ser extremamente agradável acompanhar Lee e Barney trocarem insultos afetuosos (ou carinhos ofensivos?). O restante da graça é proveniente das passagens em que artistas marciais ganham protagonismo, com Iko Uwais e Tony Jaa distribuindo socos e voadoras num ritmo quase sinfônico.

Outro ponto positivo é o reconhecimento da passagem do tempo, refletida no roteiro através de piadas sobre a idade dos personagens. Ver o Gunner de Dolph Lundgren precisar de óculos para desempenhar sua função de atirador de elite e mesmo assim errar os disparos, traz um inesperado componente realista à obra, humanizando, mesmo que por pouco, seus normalmente imbatíveis personagens. Dentre as novidades no elenco, Andy Garcia é quem acaba se saindo melhor. Não que seu papel seja complexo, afinal, ele basicamente foi contratado para explicar duas missões no início e voltar apenas no final, mas sim por aproveitar o tempo de tela que ganha, ao contrário de sua colega Megan Fox, que merece um capítulo à parte.

Certa vez, conversando com amigos, comparei a estrela de Transformers à Gal Gadot (a Mulher-Maravilha), afirmando que “cada geração tem a Megan Fox que merece”. Preciso me me desculpar imediatamente com a Sra. Gadot, pois a inaptidão de Fox chega a ser assustadora, ainda mais depois de quase 20 anos de carreira cinematográfica (não à toa, ela já foi indicada sete vezes ao Framboesa de Ouro, surpreendentemente “vencendo” em apenas uma ocasião). Já em sua primeira cena é possível perceber que a moça ainda passa longe de conseguir atuar. A exigência era relativamente pequena (uma simples discussão com o personagem de Jason Statham), mas ela simplesmente é incapaz de demonstrar qualquer tipo de emoção, entregando-se à mesma cara de paisagem e boca entreaberta que vem empregando desde que surgiu na sitcom Two and a Half Men.

Para piorar, alguém achou que seria uma boa ideia adicionar à Os Mercenários 4 uma crítica ao machismo (!). Como se isso já não fosse suficientemente desastroso, ainda escalaram justamente Megan Fox para representar esse discurso. Sim, caro leitor, o sex symbol mais objetificado de sua geração é quem aparece reivindicando o espaço e a relevância da mulher dentro da narrativa. Essa sim é a melhor piada do filme.


Aqueles que optarem por enxergar o copo meio cheio, encontrarão em Os Mercenários 4 uma produção que oferece quase tudo que dela se espera, mesmo que em menor grau. Um entretenimento escapista, de fácil consumo e que promove o reencontro do público com amados astros do passado. Mas os pessimistas não estarão errados em pensar que a franquia está mais próxima do que nunca de fazer jus ao seu título em inglês (descartável).


NOTA 4,5


1 Comment


Guest
Sep 22, 2023

Parabéns pela crítica.

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