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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Projeto James Bond #15: 007 Marcado Para a Morte (1987)

Atualizado: 6 de abr. de 2023

007 Marcado Para a Morte

(The Living Daylights, 1987)


Apesar de uma parcela de fãs ter lamentado a saída de Roger Moore, a verdade é que o ator de 58 anos além de estar fazendo hora extra como James Bond, já não tinha mais o que acrescentar após sete filmes, estacionando a franquia num marasmo criativo. A EON, claro, tratou de escolher um substituto que fosse capaz de liderar uma reformulação da franquia, levando-a para longe das aventuras surreais de Moore. Pierce Brosnan, que na época era a estrela da série de TV Jogo Duplo, era o favorito dos produtores e chegou a ser formalmente convidado para ser o novo James Bond, mas a NBC, emissora que transmitia a série, não o liberou de seu contrato, inviabilizando o acerto naquele momento. Um atraso apenas momentâneo, como bem sabemos. Sobrou para Timothy Dalton, um plano b que já era fã dos livros de Fleming e cujas intenções casaram perfeitamente com a ideia de renovação pretendida pelos produtores.

Como um leitor assíduo dos romances estrelados por Bond, o ator galês não via com bons olhos os rumos que a franquia cinematográfica havia tomado e prometeu entregar uma versão mais fiel à criação de Ian Fleming, apelando para o lado humano do personagem. Graduado com méritos na prestigiada Academia Real de Artes Dramáticas, Dalton já era bem-sucedido nos palcos londrinos, tanto que aos 25 anos já havia entrado no radar da EON quando Sean Connery se preparava para aposentar o smoking, mas a tarefa de substituí-lo o intimidou, fazendo-o afastar qualquer chance de assumir o papel que acabou nas mãos de Roger Moore. Com a saída do astro após 007 Na Mira dos Assassinos, Dalton foi autorizado a redefinir Bond, encabeçando mudanças que trouxessem frescor a uma franquia que apresentava sérias dificuldades em surpreender o seu público. Assim, a produção passaria por uma transformação que acomodasse a energia taciturna trazida pela composição de Dalton, fazendo de Marcado Para a Morte o 007 mais sombrio desde A Serviço Secreto de Sua Majestade e que décadas depois serviria de modelo para a fase de Daniel Craig.

Timothy Dalton não hesita em se posicionar como a antítese de Roger Moore, trazendo intensidade e seriedade ao buscar conexões com o lado mais humano de James Bond, que também se mostra mais determinado, volátil e impaciente, devolvendo provocações a supostos aliados e até mesmo recusando-se a cumprir ordens diretas, reverberando uma postura reveladora que assume logo nos minutos iniciais, quando diz não ligar caso venha a ser demitido (“não dou a mínima, aliás, será um favor”). Mais do que soltar frases de efeito ou acender um cigarro com elegância, Dalton está interessado em retratar as qualidades humanas de Bond, um indivíduo que mais do que nunca está sujeito a impulsos, assumindo que age por instinto ao justificar-se para M.

Timothy Dalton resgata a fisicalidade perdida com Moore, que até pode culpar a idade avançada pela fragilidade que exibiu em seus últimos filmes, mas que nunca foi conhecido pela boa forma. Dalton faz de James Bond um sujeito realmente bom de briga e que convence o espectador na hora de realizar proezas. Além disso, se ele surpreende positivamente ao surgir confortável durante os tiroteios e combates corporais, seus melhores momentos são aqueles menos explosivos, quando coloca sua formação shakespeariana à serviço de Bond, com destaque para a cena em que reage furiosamente à morte de um aliado, num dos poucos momentos de toda a série em que fica palpável o impacto emocional sentido pelo superespião.

Mais voltado para a ação, The Living Daylights (no original) deixa pouco espaço para a espionagem e resolve apostar em sequências que o aproximam dos blockbusters da época, trilhando o mesmo caminho de Rambo e Chuck Norris ao escolher o Afeganistão como palco do clímax da história, com James Bond fazendo as vezes de Braddock ao se unir a forças locais para estragar os planos do vilão. Explosões, turbantes e aviões se misturam à paisagem desértica enquanto Timothy Dalton faz o que pode para emular o tradicional “exército de um homem só” tão tradicional nesse tipo de produção.

Isso acaba gerando um conflito dos mais incômodos, já que o filme não é corajoso o bastante para jogar a fórmula Bond pela janela, aliás, nem mesmo o humor é totalmente escanteado, representando uma verdadeira dor de cabeça para Timothy Dalton, cuja seriedade em cena sabota os esforços cômicos pretendidos pelo roteiro, que tenta manter as tiradas do espião em circunstâncias pouco adequadas, deixando o ator desconfortável em cena, como no encerramento da longa e peculiar perseguição na neve em que Bond e Kara Milovy, sobre uma caixa de violoncelo improvisada como trenó (nem tente entender) são perseguidos por bandidos armados.

Milovy, em contrapartida, é interpretada pela britânica Maryam d'Abo como uma mulher excessivamente comum, responsável por evocar a atmosfera de aventura romântica esboçada pelo roteiro, que constrói com surpreendente paciência o relacionamento de 007 com a única bond girl do filme e uma das mais banais de toda a franquia. Muitos apontaram na época que essa inédita postura monogâmica de Bond foi um reflexo da epidemia de AIDS, que inspirou uma revisão do lado garanhão do personagem. Quem poderia imaginar que o playboy namorador e inconsequente estabelecido em vinte e cinco anos de aventuras se transformaria num sujeito sexualmente responsável?

Econômico nos gadgets, apostando num chaveiro que resume as invencionices de todo o departamento Q através de múltiplas funções, como um canivete suíço mortal, 007 Marcado Para Morte também leva a série a lugares mais exóticos, deixando de lado o glamour super explorado da Europa para mostrar o potencial da cultura árabe em locações que incluem o já citado Afeganistão e o Marrocos, que recebe algumas das melhores sequências de ação do filme. Mais centrado no realismo, os poucos momentos em que a história se permite rompantes de exagero, mergulhando de cabeça na fantasia, são aqueles protagonizados pelo icônico Aston Martin, de volta à franquia após dezoito anos (“vou levar o Martin para dar uma volta”, diz Bond antes de tirar a poeira do veículo cujas modificações o transformam numa versão ‘bondiana’ do batmóvel).

Por falar em realismo, o capanga Necros se destaca pelo visual naturalmente estilizado de Andreas Wisniewski que não precisa apelar para dentes de aço ou braços mecânicos, utilizando apenas a boa e velha frieza implacável dos rivais históricos dos norte-americanos. Em oposição, o vilão vivido por Joe Don Baker dificilmente ficará de fora da lista dos piores da série: nada ameaçador e com um hobby excêntrico desenvolvido para possibilitar um conflito inventivo com Bond, mas que só consegue soar ridículo, Brad Whitaker ainda possui motivações excessivamente obtusas. Aliás, os roteiristas Richard Maibaum e Michael G. Wilson se complicam com uma trama mirabolante envolvendo traições, reviravoltas e justificativas que só confundem ao invés de esclarecer.

Com uma bond girl pouco interessante e a vilania dividida em personagens ainda mais insípidos, 007 Marcado Para a Morte sobrevive graças à renovação trazida por Timothy Dalton, um Bond mais intenso e menos cômico mesmo que o roteiro jamais abrace completamente as consequências que surgem pelo caminho, resultando numa experiência irregular, mas cujos pontos positivos permanecem influentes até hoje. Pena que Dalton não teve tempo suficiente, mas os motivos que levaram à sua precoce saída deixarei para abordar na crítica do próximo filme.


NOTA 6



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