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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Velozes e Furiosos 9" abraça a autoparódia em retorno de Justin Lin

Hoje é fácil notar o impacto cultural da franquia Velozes e Furiosos. Depois de oito filmes, com os dois últimos conquistando cifras bilionárias nas bilheterias, a "saga" dos carros envenenados se firmou como um marco popular, levando a cultura das corridas de rua mundo a fora. Mas lá no longínquo início do milênio, poucos poderiam imaginar que aqueles personagens marrentos chegariam tão longe.


Liderado por um Vin Diesel no auge de sua forma física e ganhando cada vez mais espaço em Hollywood, o filme pode não ter conseguido impressionar seus produtores, mas a repercussão entre os jovens foi difícil de ignorar, transformando os carros tunados numa febre mundial potencializada, principalmente, pelo inovador (e oportunista) game Need For Speed: Underground. Difícil mesmo foi conseguir manter seu astro, deslumbrado com a megalomania tipicamente hollywoodiana. O estúdio, claro, insistiu e promoveu Paul Walker a estrela solitária (+Velozes +Furiosos), quebrando a cara nas bilheterias. Coube a Justin Lin, um jovem cineasta taiwanês-americano tentar recolocar a franquia nos eixos (Desafio em Tóquio), resgatando a atmosfera do primeiro filme. Faltou o público comprar a ideia.


Foi então que Vin Diesel, percebendo o declínio de sua carreira, resolveu tomar as rédeas da produção e tentar uma última cartada ao lado de Lin, apostando numa verdadeira repaginada, mas resgatando o elenco original (Velozes e Furiosos 4). Ao transformar seus módicos protagonistas em verdadeiros superespiões e trocar as ruas e becos de Los Angeles pelo mundo, Velozes e Furiosos não demorou a se tornar um colossal blockbuster de escala global. Houve quem torcesse o nariz para a mudança de foco, que deixou de lado o cenário underground das corridas de rua para abraçar um universo mais próximo dos grandes filmes de ação.


A verdade é que Diesel, em apuros, apostou em Lin para recuperar uma marca à deriva e, de quebra, ganhou uma franquia para chamar de sua, atingindo o objetivo de se manter relevante no mercado. Mas quando Justin Lin resolveu assinar contrato para trocar os carros velozes pelas naves de Star Trek, a saga de Toretto, já debilitada pela ausência de Brian, voltou a apresentar sinais de desgaste. Nem Vin Diesel era suficiente para estancar a sangria nas bilheterias. A Universal, percebendo a falta de ovos de ouro de sua mais valiosa galinha, resolveu mexer seus pauzinhos para trazer seu salvador de volta. Um cheque gordo mais tarde e aqui está Justin Lin salvando a franquia novamente.


Agora também como roteirista, Lin é inteligente não apenas ao saber lidar com o desgaste de sua história (me aprofundarei mais adiante), como também ao utilizar o humor para brincar com alguns dos elementos mais estapafúrdios da série dentro da própria história, como ao colocar Roman (Tyrese Gibson) para questionar o fato de seus amigos e ele sobreviverem aos mais diversos acidentes sem sofrerem um arranhão sequer. A resposta, seguindo a tônica autodepreciativa do roteiro, segue a linha do deboche e rende alguns bons momentos.


E é claro que Justin Lin não deixa escapar a oportunidade de tirar sarro do famoso conceito de "família" tão empregado por Toretto (Vin Diesel), numa clara piscada para os fãs e seus memes, finalmente permitindo ao espectador rir dos ridículos momentos onde o troglodita careca, em sua única e eterna expressão mal encarada, se entrega a longos e sérios monólogos.


Pois a maior virtude do roteiro de Lin é encarar o desgaste de peito aberto, assumindo seus cacoetes e abraçando a autoparódia que a série há tempos se tornou, mas sempre recusou-se a admitir. Essa ideia permite ao cineasta e sua equipe a criação de sequências de ação ainda mais absurdas, apoiando-se (como nunca) na suspensão de descrença e ratificando o discurso de Roman Pearce sobre serem "invencíveis". O que não justifica a vista grossa que os criadores fazem para a insistente "estratégia" de seus personagens utilizarem seus carros possantes para "amortecerem" as quedas uns dos outros.


Além disso, Justin Lin não exibe o mesmo esmero na concepção dos diálogos, que seguem expositivos e beirando a galhofa. Aliás, como é doloroso ver uma atriz do calibre de Charlize Theron sendo utilizada pelo roteiro apenas para explicar seus planos maquiavélicos ou para apresentar personagens, como o Jacob de John Cena, cuja combinação "físico imponente + canastrice" cai como uma luva nessa produção.


E se Vin Diesel, um ator limitado a uma expressão e postura marrenta, segue fazendo não-fãs revirarem os olhos com suas inflexões acima do tom (repare na solenidade com que recita alguns de seus monólogos), o mesmo não acontece com Tyrese Gibson e seu Roman Pearce, agora transformado num (eficiente) recurso de roteiro que escancara o flerte com a metalinguagem (e mal posso esperar para vê-lo, enfim, descobrindo estar num filme). Já o restante do elenco segue desempenhando suas funções clássicas.


Falando em funções clássicas, nem mesmo Justin Lin parece vislumbrar novidades envolvendo Toretto, voltando a centralizá-lo em situações que colocam em dúvida sua sobrevivência e/ou sua lealdade, o que não deixa de ser frustrante. O mesmo vale para parentes que surgem e desaparecem de acordo com as necessidades do roteiro que mais uma vez soa como uma novela mexicana ao lidar com mortes falsas, traições e inimigos na família (literalmente). Isso para não mencionar alguns tropeços mais embaraçosos, como na sequência em que, durante uma fuga sobre rodas, um personagem se surpreende com uma placa anunciando sua entrada num campo minado, apenas para (sem nenhum aviso externo), mais a frente, anunciar sobre o fim do mesmo e fazer o espectador se perguntar como diabos ele poderia saber disso quando, sequer, sabia da existência do campo momentos antes.


Como já era de se esperar, por mais que Justin Lin demonstre jogo de cintura ao lidar com os problemas consequentes da longevidade da franquia que comanda, Velozes e Furiosos segue sendo um blockbuster focado única e exclusivamente em suas espetaculares sequências de ação que, como já antecipei, surgem ainda mais insanas. Como não se divertir ao ver carros saltando de penhascos e sendo capturados por naves em pleno ar? Ou com manobras que fazem veículos se pendurarem em cordas de pontes de madeira?

E nem sei o que dizer diante de uma cena-chave no terceiro ato, que não revelarei para não dar spoiler, mas que envolve dois personagens em uma missão de proporções... estratosféricas.


Velozes e Furiosos, como bastião maior da suspensão de descrença, entretêm justamente por entregar aquilo que seus espectadores já esperam, mas numa escala desproporcional às suas expectativas. Se é para impressionar o público com ação absurda, a franquia resolve fazer isso com gosto e de formas cada vez mais estapafúrdias.


Aproximando-se de seus derradeiros capítulos, nos resta torcer para que Justin Lin mantenha-se firme na conclusão de uma das franquias mais longevas da história recente do Cinema. No final das contas, nem Toretto, nem Letty e muito menos Hobbs: ao final de Velozes e Furiosos 9, quem acaba salvando o dia mesmo é Justin Lin.


NOTA 6

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