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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

A Vigilante do Amanhã é uma adaptação fiel e deslumbrante do anime original

Hollywood definitivamente ainda não desistiu das adaptações de mangás e animes. Há décadas tentando tirar uma casquinha dos sucessos japoneses, os estúdios hollywoodianos já acumularam vários fracassos, tendo o infame Dragonball Evolution e o subestimado Speed Racer como as mais recentes tentativas de atingir um público fiel e altamente rigoroso. Com A Vigilante do Amanhã, a Paramount não só almeja deixar esse histórico negativo para trás, como também demonstra um cuidado admirável com a obra original, resultando numa das adaptações mais fiéis já produzidas.


Publicado em solo nipônico pela primeira vez em 1989, Ghost in the Shell só veio a ganhar fama mundial em 1995 com o lançamento da animação homônima dirigida por Mamoru Oshii e cuja trama futurista e com viés cyberpunk influenciou Matrix. Na história, a agente especial Motoko Kusanagi investigava uma série de crimes que estranhamente sempre iam ao encontro de sua agência. Adotando um tom conspiratório, a trama também encontrava espaço para alguns momentos contemplativos enquanto recuperava o fôlego entre uma sequência de ação e outra.


Iniciando a projeção com um letreiro que situa a história num futuro onde as pessoas podem se “aprimorar” através de implantes cibernéticos, o roteiro não demora muito até nos apresentar a uma protagonista que é salva justamente graças a eles, transformando-se numa espécie de ciborgue que é recrutada por uma agência de segurança. Fã confesso do mangá, o diretor Rupert Sanders já apresenta a Major numa sequência praticamente idêntica à animação, deixando claro o nível de fidelidade que irá reger as cenas seguintes. No entanto, não há como negar que a maior virtude deste A Vigilante do Amanhã reside em seu visual.


Assinado pelo holandês Jan Roelfs (do bom Gattaca), o design de produção é um espetáculo à parte, conferindo personalidade à cidade onde acontece a história, dispondo de criatividade para mostrar imensos hologramas como uma espécie de evolução dos atuais outdoors de publicidade. Não só a cidade como os interiores também são cuidadosamente construídos, indo do “clean” que permeia os laboratórios, ao puramente fantasioso (e imaginativo), como nos prédios e veículos.


Claramente inspirado em Blade Runner, Roelfs, ao lado do diretor de fotografia Jess Hall (do decepcionante Transcendence – A Revolução), investem num tom azul que permanece presente até o final da narrativa, tendo reflexos na paleta fria da fotografia, e indo ao encontro das luzes da cidade e da fachada dos edifícios. Mas nada disso seria verossímil sem a ajuda dos ótimos efeitos visuais da Lola Visual Effects (de Logan e A Bela e a Fera), que em nenhum momento deixam de impressionar.


Já o roteiro de Jamie Moss e William Wheeler (dos bons Os Reis da Rua e O Vigarista do Ano, respectivamente), falha pontualmente ao apresentar diálogos frágeis que, ora carregam na exposição (“você sumiu por horas!”), ora abusa do clichê (“o que nós fazemos é o que nos define”). Além disso, alguns furos são simplesmente difíceis de ignorar (um grampo telefônico poderia ser evitado através de comunicação mental, por exemplo), isso para não mencionar a perigosa tendência ao melodrama, que ganha força à medida que o longa encaminha-se para o seu desfecho. Exibindo dificuldades em encontrar o tom, A Vigilante do Amanhã também demora a engrenar, finalmente conseguindo superar o banal primeiro ato a partir do momento em que a trama passa a flertar com o noir.


Com relação ao elenco, Scarlett Johansson (no auge de sua forma física), confere intensidade à Major, ao mesmo tempo em que é capaz de evocar a confusão que norteia a sua mente, ao passo que o dinamarquês Pilou Asbaek (que já havia atuado com Johansson no ridículo Lucy) distancia-se um pouco do Batou da animação para criar seu próprio personagem, demonstrando carisma e convencendo nas sequências de ação.


E se Michael Pitt (do recente Mente Criminosa) pouco pode fazer como o vilão Kuze, além de servir como prova dos ótimos trabalhos de maquiagem e design de som (note como sua voz digital falha em certos momentos), o veterano Takeshi Kitano rouba a cena como o superior de Major, ganhando inclusive uma ótima sequência de ação durante o terceiro ato.


Aliás, a produção merece aplausos por permitir que pelo menos um personagem japonês comunique-se em seu idioma nativo, numa espécie de homenagem (ou reverência?) à natureza do filme. Por fim, a ótima trilha sonora de Clint Mansell (Cisne Negro) e Lorne Balfe (LEGO Batman) reflete perfeitamente a essência da produção, combinando temas eletrônicos e melodias orientais.


Optando por algumas modificações e suavizando diversos de seus temas em prol da amplitude de seu público, A Vigilante do Amanhã – Ghost in The Shell é uma adaptação que dificilmente desagradará a quem espera fidelidade, mas também impressionará muito mais pelo visual do que pelo seu roteiro.


NOTA 6,5

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