Oscar 2026 | Os Vencedores
- Guilherme Cândido

- 16 de mar.
- 9 min de leitura

Impressionante como muitas mudanças podem ocorrer de um ano para o outro, especialmente em termos de Oscar. Sim, alguns elementos se repetiram (Conan O'Brien de novo na apresentação, Brasil no páreo pelo Oscar de Melhor Filme Internacional, Timothée Chalamet pelo de Melhor Ator e a alta possibilidade de surpresas. O que se viu, no entanto, foi uma cerimônia bem diferente. Se a justiça imperou entre os vencedores (não em todas as categorias, mas deixemos esse assunto para depois), O'Brien se mostrou a grande decepção da noite.

O início foi promissor, com uma montagem divertida em que o comediante, caracterizado como a Tia Gladys de A Hora do Mal (que rendeu o Oscar a Amy Madigan), brincou com a cena final do Terror Sensação de 2025, quando a vilã foi perseguida por crianças ensandecidas. O primeiro segmento da 98ª Cerimônia de Entrega do Oscar contou com o apresentador de 62 anos passando correndo por momentos emblemáticos de alguns indicados (O Agente Secreto foi um dos que ficaram de fora).

Em seguida, iniciou seu monólogo de abertura com uma esperada alfinetada nas declarações polêmicas de Chalamet sobre o Balé e a Ópera, emendando com uma referência à Guerra de seu país contra o Irã. "Ano passado, Los Angeles estava em chamas, mas desta vez está tudo dentro da normalidade", ele brincou antes de declarar que equipes de segurança estavam de prontidão aguardando um ataque vindo... "das comunidades do Balé e da Ópera". Depois disso, infelizmente, o texto de O'Brien passou a apresentar a mesma inconsistência que impactou negativamente sua performance anterior. A falta de inspiração, desta vez, não foi compensada pela energia maníaca que normalmente caracteriza as performances do apresentador, autor de piadas e intervenções fraquíssimas.
Se chegou ao fundo do poço quando reagiu mal (riu) perante o constrangimento de uma moça ao ter o microfone retirado durante um discurso de agradecimento ("tirar o microfone de alguém que está falando é hilário", ele tentou explicar claramente nervoso), merece todos os elogios pelo segmento necessário no qual zombou dos streamings e as recentes orientações para que roteiristas escrevam suas obras pensando nos espectadores que passam o tempo todo mexendo no celular ao invés de prestar atenção na tela. Outro ponto positivo, logo na sequência, foi quando mexeu com as pessoas que assistem filmes e séries no celular. Numa coincidência diabolicamente divertida, após esses dois acertos, Robert Downey Jr. e Chris Evans entraram em cena ao som do tema de Os Vingadores.

Ted Sarandos, chefão da Netflix e famoso por diminuir a experiência proporcionada pelas salas de cinema, ganhou uma bela homenagem de O'Brien ("essa é a primeira vez que Sarandos entra num cinema!"). Sobrou até para a Amazon, gigante do varejo que vem conquistando cada vez mais espaço na Indústria.

Falando de prêmios, foi uma noite histórica. Quem assistiu, testemunhou o sétimo empate em 98 anos de Oscars televisionados, sendo o último em 2012, quando 007 - Operação Skyfall e A Hora Mais Escura levaram juntos o prêmio de Melhor Som. Em 2026, foi a vez da categoria Melhor Curta-Metragem, com Duas Pessoas Trocando Saliva e o ótimo Os Cantores dividindo o careca dourado. Aliás, foi justamente no quesito lido por Kumail Nanjiani que Conan O'Brien riu da vencedora deselegantemente silenciada, vale lembrar.

Quem acabou sumariamente silenciado foi Marty Supreme, que conseguiu perder as nove estatuetas às quais estava indicado, incluindo a de Melhor Ator, cujo favoritismo durante boa parte da temporada pertenceu ao protagonista Timothée Chalamet. Há quem diga que o jovem caiu em desgraça após supostamente diminuir as artes do Balé e da Ópera, gerando respostas acalaroradas da comunidade internacional de artistas. Também é possível atribuir sua derrocada a uma campanha confusa, mudando radicalmente a estratégia de divulgação do filme, que procurou aproximar personagem e intérprete (ambos prepotentes), para uma postura mais convencional durante o período de votação do Oscar. De um jeito ou de outro, Michael B. Jordan aos poucos foi ganhando terreno e sua equipe aproveitou bem o incidente ocorrido no BAFTA, onde foi vítima de insultos racistas por um portador da Síndrome de Tourette.

O Oscar consagrou um astro hollywoodiano no auge, tendo uma carreira construída à base da versatilidade e em produções marcantes como Fruitvale Station - A Última Parada (2013), Creed - Nascido Para Lutar (2015) e Pantera Negra (2018). Com isso, o SAG, importante precursor, volta a coincidir com a Academia nessa categoria, algo comum, mas que não ocorreu em 2025, quando, veja a ironia, Timothée Chalamet venceu o Sindicato dos Atores, mas perdeu o Oscar para Adrien Brody (O Brutalista). Minha preferência por qualquer um dos outros indicados diz menos sobre a ótima atuação de B. Jordan e mais sobre a força da categoria esse ano, com Ethan Hawke (Blue Moon - Música e Solidão), Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra), Timothée Chalamet (Marty Supreme) e Wagner Moura (O Agente Secreto) em participações superlativas. Talvez DiCaprio, vá lá, ficasse para trás, mas especialmente Chalamet e Moura dividiam minha torcida.

A esperada divisão de votos não aconteceu e o baiano acabou saindo de mãos vazias, assim como O Agente Secreto, que perdeu em todas as quatro categorias nas quais concorria. Melhor Filme Internacional talvez tenha proporcionado o gosto mais amargo, pois era a chance de o Brasil igualar Itália, França, Rússia e Suécia como países vencedores em anos consecutivos. O vencedor, no entanto, merece respeito, pois trata-se do excelente Valor Sentimental. Diferente de Emília Pérez, que derreteu na temporada passada e abriu espaço para a vitória histórica de Ainda Estou Aqui, a produção norueguesa permaneceu firme com sólidas nove indicações, mais do que o dobro do adversário brasileiro e em categorias nobres (incluindo presença dupla em Melhor Atriz Coadjuvante).

Por falar em vitórias históricas, Uma Batalha Após a Outra levou o primeiríssimo prêmio de Melhor Elenco, novidade esse ano. Como não havia precedentes, a categoria provocou muita especulação. A estatueta iria para o filme mais indicado, refletindo o amplo apoio dos membros? Seria um prêmio de consoloção para impedir alguma produção de sair na lona? Ou acompanharia o maior vencedor da noite? Exatamente, Cassandra Kulukundis levou para casa um dos seis Oscars vencidos pelo longa de Paul Thomas Anderson, que após 11 indicações, finalmente teve seu merecido reconhecimento. Inclusive, ele não deixou barato ("vocês fazem um cara trabalhar muito para ganhar um Oscar"). Responsável por algumas das maiores obras-primas do Cinema Moderno, tais como Magnólia (1999) e Sangue Negro (2007) e considerado um dos grandes cineastas de sua geração, Anderson foi escolhido o Melhor Diretor e ainda abocanhou Melhor Roteiro Adaptado.

Também por Uma Batalha Após a Outra, Sean Penn derrotou o sueco Stellan Skarsgard (Valor Sentimental) no duelo de veteranos pela honraria de Ator Coadjuvante, que marcou a temporada de premiações. Talentoso dentro do Cinema e colecionador de polêmicas fora dele, Penn se tornou o quarto ator a conquistar o tricampeonato no Oscar, igualando Walter Brennan (1894-1974), Jack Nicholson e Daniel Day-Lewis (o único na História a levar todos como ator principal). O californiano não compareceu à cerimônia, gerando um anticlímax contornado por um desanimado Kieran Culkin, vencedor no ano passado e anunciante da vez ("ele não pôde vir ou simplesmente não quis, então aceitarei o prêmio em seu nome"). A ausência nos poupou de um discurso potencialmente controverso, é bom frisar.

Por falar em controvérsia, foi a cerimônia menos política dos últimos anos. Com a notória exceção do espanhol Javier Bardem, que além de usar um broche com a frase "Não à Guerra!" bradou pela liberdade palestina, parece que Ricky Gervais finalmente foi atendido. Para quem não lembra, em 2020 quando apresentou o Globo de Ouro pela quinta e última vez, o britânico aconselhou os artistas a não usarem os prêmios como plataforma para discurso políticos, pois não tinham autoridade moral para dar lições ao público ("sabem nada sobre o mundo real", proferiu).

Aliás, tivemos poucos discursos genuinamente marcantes. Michael B. Jordan talvez tenha se saído melhor ao relembrar outros atores negros que venceram na principal categoria de atuação, algo infelizmente incomum na história quase centenária da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Era de se esperar um tom mais ameno, diante da situação geopolítica delicada, mas a ausência quase absoluta de pautas políticas só não chamou mais atenção do que a atmosfera monocórdica que pairou no Teatro Dolby em Los Angeles. Nem a participação do sempre carismático Grogu, o "Baby Yoda" da série O Mandaloriano tirou o Oscar da pasmaceira.

Coube a uma entrada surpresa de Jimmy Kimmel levantar momentaneamente o astral. Apresentador da cerimônia em quatro oportunidades, ele fez sua tradicional troça do presidente Donald Trump ("ele deve estar possesso com a ausência do documentário sobre a Primeira-Dama entre os indicados", brincou). Comediante inteligente, carismático e sagaz, os poucos minutos de Kimmel no palco foram melhores do que toda a performance de Conan O'Brien, mostrando que tem fôlego suficiente para voltar.

Outro que facilmente faria um trabalho melhor caso voltasse, mesmo estando tanto tempo afastado é Billy Crystal, responsável por introduzir uma homenagem ao diretor e produtor Rob Reiner. Amado na indústria e autor de alguns clássicos atemporais do quilate de Conta Comigo (1986), Louca Obsessão (1990), Questão de Honra (1992), Antes de Partir (2007) e, claro, Harry e Sally: Feitos um Para o Outro (1989), Reiner foi brutalmente assassinado pelo próprio filho em dezembro passado, numa tragédia semelhante à do documentarista brasileiro Eduardo Coutinho há doze anos. O segmento, no entanto, estabeleceu uma hierarquia incômoda, já que muitos foram lembrados apenas através de fotos. Diane Keaton, Catherine O'Hara, Diane Ladd e Robert Redford também ganharam uma lembrança mais robusta, com direito a música cantada por Barbra Streisand, amiga e parceira do lendário astro de obras memoráveis como Butch Cassidy e Sundance Kid (1969) e Todos os Homens do Presidente (1976). Também incomodou a decisão de alguns apresentadores em anunciar os vencedores começando pelos profissionais envolvidos, ao invés do título do filme, gerando confusão com o suspense desnecessário.

Recordista de indicações, Pecadores foi onipresente na cerimônia, mas o efeito colateral de ser indicado a muitos prêmios é consequentemente perder outros tantos. Das 16 indicações, Sinners (no original) terminou a noite com quatro estatuetas e talvez a mais celebrada tenha sido a de Melhor Fotografia, pela qual Autumn Dural Arkapaw foi a quarta mulher indicada e a primeiríssima a vencer, desbancando os favoritos Uma Batalha Após a Outra e Sonhos de Trem (que contava com belo trabalho do brasileiro Adolpho Veloso).

Quem também entrou para os anais da Academia pelo filme de vampiros foi o compositor sueco Ludwig Göransson, que aos 41 anos de idade conquistou o Oscar de Melhor Trilha Sonora pela terceira vez. Quando o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu ganhou o Oscar de Melhor Direção por dois anos seguidos, feito alcançado apenas duas vezes em quase cem anos lembro de não ter engolido na época e até hoje permaneço incrédulo, algo que voltei a sentir essa noite. Göransson é inquestionavelmente um virtuoso, mas merecia o destaque de ganhar nas três vezes em que foi nomeado? Para se ter uma ideia do tamanho dessa façanha, ele superou o incomparável Hans Zimmer, talvez o melhor em atividade, que ganhou sua segunda estatueta após ser indicado pela décima segunda vez. E está a dois prêmios de igualar John Williams, o melhor compositor de trilhas sonoras ainda vivo e recordista de indicações (incríveis 54). A soberba contribuição de Jonny Greenwood para Uma Batalha Após a Outra, teria sido uma alternativa historicamente menos comprometedora.

Igualmente comprometedora foi a ideia que tiveram de levar outra lenda da Música, no caso Lionel Richie (oscarizado pela canção "Say You, Say Me", de O Sol da Meia-Noite), para anunciar "Golden", da trilha de Guerreiras do K-Pop, como a Melhor Canção do ano. Pior ainda foi ver o mesmo filme medíocre lançado pela Netlix derrotando Zootopia 2 e Arco, obras largamente superiores, na categoria Melhor Animação, do qual era lamentavelmente o favorito. Completando a tríade dos embaraços, ainda teve o momento em que Renate Reinsve quase teve o vestido acidentalmente rasgado por um colega de produção durante o discurso da equipe de Valor Sentimental. Pisando no longo vestido da moça, o rapaz tentou consertar a situação, sem sucesso. Por consequência, Reinsve teve de segurar a roupa com a própria mão enquanto o constrangimento estampava seu rosto.

Numa merecida celebração das bodas de prata de Moulin Rouge - Amor em Vermelho, o Oscar de Melhor Filme foi anunciado por Ewan McGregor e Nicole Kidman, par que fez valer cada minuto no palco relembrando canções e exalando a mesma química exibida naquele que é, ainda hoje, um dos mais vibrantes e singulares musicais jukebox da historia recente.

Gozando do benefício de começar relativamente cedo (pontualmente às 20:00, horário de Brasília), o Oscar 2026 surpreendeu ao terminar antes da meia-noite (23:37, para ser mais específico), refletindo o comprometimento da direção artística em manter a cerimônia enxuta ao invés da megalomania adotada em anos anteriores. Salpicando uma última piada sobre Inteligência Artificial ao vaticinar ser o último apresentador "humano" do Oscar, Conan O'Brien ainda apareceu numa "cena pós-créditos", desta vez brincando com o epílogo de Uma Batalha Após a Outra. Entrando para a organização supremacista que aparece no filme, O'Brien se anima com a proposta oferecida de ganhar um contrato vitalício como apresentador do Oscar, negócio que torço para ser uma anedota, pois a mera cogitação de um retorno já considero uma ameaça.
Ai gourmet anunciando Avatar
All you need is love McGregor Kidman Moulin
Um filme ganha pelo clima naquele dia. Não existe melhor filme. PTA melhor filme








