CRÍTICA | "O Rei da Internet"
- Guilherme Cândido

- há 3 horas
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“O maior hacker do Brasil”, brada o slogan deste aspirante a O Lobo de Wall Street à brasileira, chegando aos cinemas nesse final de semana dividindo-se entre a linguagem adolescente e as iscas nostálgicas atiradas aos millennials. Enquanto a primeira parcela tende a ser excluída dos multiplexes em função da classificação indicativa altíssima, o segundo será bombardeado por uma montagem que busca atualizar o estilo clipado da década de noventa, mas que acaba resvalando mesma é na TikTokzação.
E o que deveria servir como ponte entre esses dois mundos, o roteiro, é fragilizado pela predominância de clichês e convenções desde o alicerce da estrutura narrativa, a começar pelo intrusivo e redundante voice over. Tentando ser descolada e engraçadinha, a narração só faz quebrar o ritmo e reforçar o que vemos e/ou deduzimos através de besteiras metalinguísticas que tiram sarro das limitações da produção, por exemplo, como se isso desse credibilidade à autoconsciência. Ou denotasse sagacidade. Nem uma coisa, nem outra.

Mas o tiro sai pela culatra quando a máscara do moralismo cai para revelar o culto ao hedonismo pela via dos ideais do macho clássico. Carros, beldades e muitas drogas aparecem, primeiro para justificarem a realização do sonho molhado do adolescente prodígio, depois pura e simplesmente para exibir mais uma porção de peitos e bundas, pois ao chegarmos nos acréscimos, o argumento já estava muito mais do que sedimentado.

Se demoro a falar sobre a premissa, baseada na história real de um fedelho que aprendeu a mexer no computador e rapidamente se viu invadindo contas e clonando cartões para uma quadrilha, é porque ela pouco importa quando os personagens são unidimensionais, principalmente as mulheres (ora troféus a serem conquistados, ora suportes quando a masculinidade fraqueja).

João Guilherme se esforça e se expõe, mas é tolhido por um texto que sequer lembra de ter atribuído uma série de problemas de saúde a seu personagem, por exemplo. Marcelo Serrado, carismático como sempre, é quem sente menos as limitações, por compor o líder dos bandidos como um sujeito normal, sem recorrer a mudanças de tom ou comportamento, mesmo não passando de um arquétipo.

Já a direção começa bem ao ir de 0 a 100 em poucos segundos, mas acaba sucumbindo à tarefa impossível de sustentar esse frenesi. Falta combustível e o resultado, depois do primeiro ato, é uma experiência que sobrecarrega os sentidos. Quando tudo começa já no topo, não sentimos as nuances da escalada e a jornada acaba monótona. E só piora quando constatamos que o máximo que podemos fazer é esperar a derrocada do protagonista, cuja primeiríssima cena é justamente a da própria prisão pela Polícia Federal.

No meio dessa bagunça generalizada, há uma tentativa ingênua de tecer comentários sobre corrupção em todos os sentidos da palavra, mas como levar a sério uma discussão racional, quando até nesses momentos a narração aparece para explicar/atrapalhar o óbvio? Da mesma forma, para cada acerto técnico, como quando o plano abre para revelar a dimensão de um aposento no exato momento em que alguém questiona o sucesso do dono da casa, temos o bendito voice over brigando para ser ouvido (o som é baixo demais em alguns momentos, gerando um alívio culposo).
Desesperado para dialogar com as novas gerações, talvez O Rei da Internet até consiga angariar alguns fãs, anestesiando os sintomas do TDAH crônico, mas esse é um tipo de estratégia com prazo de validade apertado. Assim como qualquer vídeo curto exibido nas redes sociais, o filme tenderá a ser só mais um conteúdo a ficar para trás e ser esquecido assim que a dopamina for devidamente absorvida.
NOTA 3,5









