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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Adaptação "Um Lugar Bem Longe Daqui" constrói fábula convencional


Adaptado do romance de Delia Owens, Um Lugar Bem Longe Daqui narra a história de Kya (Daisy Edgar-Jones), uma jovem que desde cedo teve de aprender a se defender dos golpes desferidos pela vida. Vivendo num lar tomado pela apreensão em virtude das atitudes imprevisíveis do pai ébrio (Garret Dillahunt), ela aos poucos viu sua família se reduzir. A primeira a fugir foi sua mãe, escapando de uma rotina de insultos e agressões e deixando seus dois filhos à própria sorte. Jodie (Logan Macrea), o mais velho, aproveitou uma brecha para seguir seu caminho, fazendo com que Kya, ainda criança, aprendesse a lidar com a conduta explosiva de seu genitor. Quando finalmente até ele acaba partindo, Kya precisa arrumar meios de garantir sua sobrevivência, se dando conta das dificuldades de se viver num brejo na Carolina do Norte dos anos 50.


Como num legítimo conto de fadas, o primeiro ato funciona como uma história de origem para a nossa heroína, que supera a infância difícil e desprovida de amor para crescer com a precoce necessidade de trabalhar para se sustentar. Por outro lado, nada de castelos ou porões, dessa vez, a mocinha vive numa casa rústica em meio a um brejo de difícil acesso, o que valoriza as ações de Tate (Taylor John Smith), seu determinado príncipe encantado. De intenções tão puras quanto o caráter de Kya, é ele quem se dispõe a tirar a moça de sua árdua realidade. Mas nem mesmo o amor chega fácil para Kya, vítima da distância e das idiossincrasias juvenis que se colocam como obstáculo no cândido relacionamento dos namorados.

Até mesmo a fotografia se propõe a ressaltar a fantasia do filme, seja pelos beijos banhados pela luz do Sol e com revoadas ao fundo ou pela contrastante paleta fria que converte a casa de Kya num ambiente hostil e carente de qualquer traço de calor humano, Um Lugar Bem Longe Daqui ainda exibe coadjuvantes amorosos, que, como numa história Disney, auxiliam a protagonista em seus percalços.

Adicionando uma generosa pitada de sacarose, Olivia Newman, em seu segundo filme como cineasta (dirigiu Minha Primeira Luta para a Netflix), mostra ter feito o dever de casa ao seguir a cartilha Nicholas Sparks de adaptações, deixando os holofotes exclusivamente para os atores, mas fazendo com que a narrativa, já engessada demais pelos clichês do roteiro, soe mais como uma novela e menos como uma adaptação literária, ainda que a descartável e onipresente narração em off jamais deixe o espectador esquecer de seu material de origem.

Embarcando na mistura entre Branca de Neve e Cinderela que o material lhe dispõe, Daisy Edgar-Jones, que já havia se destacado no recente Fresh, oferece uma grande performance, especialmente por driblar os questionamentos acerca de uma bela jovem branca retratada como pária. Força motriz da história, Edgar-Jones joga a atmosfera melosa em que está inserida para o segundo plano, permitindo que o espectador se envolva com sua entrega. Enquanto isso, Taylor John-Smith (de Agente das Sombras), talhado para o papel do príncipe moderno, limita-se a uma atuação dentro dos padrões exigidos pelo roteiro, ao passo que Garret Dillahunt (do fraco Ambulância - Um Dia de Crime)funciona ao emular a função desempenhada pela Madrasta de Cinderela.

Entretanto, Harris Dickinson, que já interpretou um príncipe de conto de fadas em Malévola 2: Dona do Mal, dessa vez tem a oportunidade de encarnar o vilão, mas pouco pode fazer, já que para a roteirista Lucy Alibar (indicada ao Oscar por Indomável Sonhadora), a aparência de galã de Dickinson é o bastante para conceder a Chase Andrews o benefício da dúvida, convertendo-o numa figura unidimensional e fruto de um maniqueísmo que ao menos vai ao encontro das histórias nas quais busca inspiração.

Prejudicado por sequências de tribunal concebidas sem muito interesse e conduzidas de forma burocrática, a produção de Um Lugar Bem Longe Daqui talvez tenha se preocupado demais em agradar aos mais de 12 milhões de leitores que transformaram o material original em best-seller, esquecendo de investir numa história que fosse mais adequada às telas. A transição entre Literatura e Cinema, no entanto, transformou a obra num filme linear demais, sem espaço para nuances dramáticas.


NOTA 4,5

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