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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Animais Fantásticos e Onde Habitam resgata magia inocente de Harry Potter

Ainda que não seja à prova de falhas, a franquia Harry Potter jamais deixou de encantar, seja pela sensibilidade de seus personagens e seus conflitos, ou pela inquestionável riqueza de sua mitologia. E anos após a estreia de As Relíquias da Morte Parte 2, chega Animais Fantásticos e Onde Habitam que promete trazer de volta às telas todo o encanto daquele mundo que marcou toda uma geração.


Evitando qualquer arroubo de soberba ou megalomania, o que a autora (agora promovida a roteirista) J.K. Rowling faz, e com sucesso, é ampliar o universo que criou nos anos 90, centralizando a trama num pacato bruxo e suas aventuras, 70 anos antes dos acontecimentos de A Pedra Filosofal.


Interpretado pelo inglês Eddie Redmayne, Newt Scamander resolve viajar aos Estados Unidos com um singelo propósito: comprar um presente. Levando apenas sua misteriosa maleta, Scamander acaba se envolvendo em pequenos incidentes que o levarão a se deparar com uma sombria trama que poderá colocar em risco a pacífica relação entre os bruxos e os trouxas (ou “Não-Majs”, como a nomenclatura norte-americana insiste em diferenciar).


Essa é apenas uma entre as várias diferenças entre os britânicos e os norte-americanos, e que são bem exploradas por Rowling, resultando em momentos divertidos e que fascinam por deixarem claro que o mundo bruxo é muito maior do que pensávamos. Mais do que isso, Rowling aproveita esses momentos para dar pequenas alfinetadas na política norte-americana e seus costumes. “Vocês possuem leis retrógradas” afirma Scamander em certo momento. A roteirista também entra em questões que provavelmente serão abordadas com maior profundidade no futuro, como o preconceito (bruxos são proibidos de se casarem com “não-majs”) e o impacto da primeira guerra no mundo mágico (Scamander chega a esclarecer sua participação na guerra).


Porém, apesar de abordar temas relevantes, o descompromisso é a grande tônica do projeto, dando leveza a uma trama com forte vocação para o espetáculo. E o faz com gosto, a começar pelos efeitos visuais, que enchem os olhos ao darem vida aos animais fantásticos do título e ao ilustrarem a magia. O design de produção também encanta, mas é o figurino que acaba se destacando, através do belo trabalho da veterana Coleen Atwood (três vezes vencedora do Oscar e colaboradora frequente de Tim Burton). Já a fotografia do premiado Philippe Rousselot (Sherlock Holmes), ainda que correta, acaba sendo prejudicada pelo escurecimento decorrente do 3D, que deixa tudo mais cinza e sem vida, como o personagem de Jon Voight, que oferece uma das performances mais apáticas de sua carreira.


O pai de Angelina Jolie entra de forma inoportuna e some repentinamente, servindo apenas para protagonizar uma deslocada e descartável subtrama envolvendo um senador (culminando num conflito ainda mais artificial). Por outro lado, Dan Fogler (mais famoso por suas dublagens, como a de Zeng em Kung Fu Panda) funciona bem como a ponte entre o espectador e o novo universo, servindo também como um eficiente alívio cômico. E enquanto Colin Farrell surge adequadamente sombrio e ambíguo como Graves, as personagens femininas, ironicamente, são pouco desenvolvidas pelo roteiro, o que não deixa de ser desapontador. O competente Ezra Miller (o novo Flash do Cinema), por sua vez, utiliza o pouco tempo que tem para transformar seu Credence numa figura intrigante e que possui uma relação problemática (e pouco explorada) com a mãe. Já Eddie Redmayne (oscarizado com pouco merecimento por A Teoria de Tudo), investe numa composição mais discreta, adotando um tom quase passivo ainda que exiba energia nas boas sequências de ação.


Mas nem tudo é perfeito e Animais Fantásticos e Onde Habitam possui um preocupante número de diálogos expositivos, uma imperfeição comum em roteiristas de primeira viagem, como é o caso de J.K. Rowling, que possui informações demais para dar, mas pouco tempo para isso. Ainda falando de exposição, o uso excessivo de manchetes de jornal, marca registrada da série, continua a incomodar, embora o diretor David Yates tenha acertado em concentrá-las apenas no início da projeção.


E por falar em David Yates, é inegável que o diretor era, de fato, a escolha ideal para comandar o início dessa nova fase do mundo bruxo. Afinal, depois de dirigir as quatro últimas aventuras de Harry Potter, Yates mais do que se acostumou ao universo fantástico da série e à visão de Rowling, dando-se o luxo de investir em pontos poucos explorados até então, como o 3D, que aqui é bem utilizado pelo diretor. O cineasta britânico não só brinca com elementos que são atirados em direção à câmera, como também aproveita a profundidade de campo para criar bons exemplos da utilização eficaz da terceira dimensão.


Embalado pela trilha sonora nostálgica de James Newton Howard, Animais Fantásticos e Onde Habitam representa um belo início para essa nova fase do universo criado pela escritora J. K. Rowling. E se as planejadas continuações seguirem o mesmo padrão de qualidade, os fãs da série poderão ficar despreocupados.


NOTA 7,5

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