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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Capitu e o Capítulo" é adaptação livre e experimental de Dom Casmurro


Estreando nesta quinta-feira dia 27, Capitu e o Capítulo é mais uma adaptação de Dom Casmurro, como é fácil imaginar, mas nas mãos de Júlio Bressane ganha uma releitura de caráter experimental, nos moldes do que vem produzindo no últimos vinte anos. Nas palavras do próprio diretor e roteirista, o filme não busca se concentrar em alimentar o clássico questionamento sobre a suposta infidelidade que marca a obra de Machado de Assis. “Há a traição, mas também há o capítulo”, pontuou o realizador em longa explanação antes do filme ser exibido em sessão especial na última terça-feira para uma multidão de convidados. De fato, a abordagem de Bressane se desprende não só do peso de transportar ipsis litteris para as telas uma obra vastamente trabalhada e retrabalhada no cenário multicultural brasileiro, como também não pretende se agarrar a uma estrutura convencional. Em seu discurso, repleto de expressões vindas do campo da Psicologia, Bressane mostrou estar muito mais comprometido com as sensações provocadas pela obra do que propriamente sua narrativa.

Assim, Capitu e o Capítulo se desenvolve como uma abstração a partir de acontecimentos deslocados narrativamente, mas costurados por uma montagem experimental que encontra espaço até mesmo para enxertos de filmes anteriores do diretor. Busca-se uma inspiração nos tableau vivants (pinturas vivas) franceses do século XIX, com os atores dividindo espaço com outras formas de arte. As pinturas, vale ressaltar, são praticamente personagens, tamanho o destaque nos enquadramentos que, por sinal, privilegiam perspectivas indiretas, afetadas por reflexos em angulações pouco usuais (bandejas e armários são apenas alguns dos objetos utilizados). Bressane resgata uma forma mais primitiva de fazer Cinema, frequentemente lançando mão de recursos que levaram a Sétima Arte ao status que ostenta hoje. O efeito kuleshov, por exemplo, realizado manualmente com o travelling lateral até trocar o rosto expressivo de Mariana Ximenes (O Grande Circo Místico) por uma apática natureza morta é replicado elegantemente pelo diretor mais tarde, quando resolve utilizar inserts para pontuar a narrativa.

Em meio a experimentações e liberdades narrativas, sobra a Enrique Diaz (Ferrugem) o elo entre a Literatura e Cinema, interpretando um Casmurro metalinguístico, frequentemente dirigindo-se diretamente à câmera e fazendo comentários sobre escritores brasileiros. São breves interlúdios nos quais Bressane busca uma proximidade com a linguagem e a atmosfera concebidas por Machado de Assis. Nesses momentos, os melhores da projeção, Casmurro discorre sobre Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Junqueira Freire e outros expoentes do Ultrarromantismo, refletindo melancolicamente sobre os desdobramentos da relação entre Capitu e Bentinho.

Na prática, o que vemos é uma história contada a partir do momento que sai da mente do autor e vai parar no papel, desmistificada por um narrador que não se furta de se colocar ao lado dos personagens, todos interpretados com uma artificialidade que garante doses cavalares de teatralidade. As declamações, os gestos expansivos, a movimentação e o texto afetado ganham escopo com os planos longos e estáticos. Os atores posicionam-se com precisão milimétrica dentro do quadro, o que às vezes impõe dificuldades, por exemplo, a Vladimir Brichta (Bingo - O Rei das Manhãs), que sustenta um rigor físico a duras penas (note como o ator é incapaz de se manter numa só pose, balançando-se incontrolavelmente).

Curiosamente, Capitu e o Capítulo só deixa de ser uma experiência particularmente envolvente quando resolve voltar suas atenções para o acontecimento-chave de Dom Casmurro, com os transtornos causados pela possível traição dispersando o fluxo narrativo por ora engessado via uma forçosa conexão com o relacionamento do casal em crise. Bressane parece esquecer que seu recorte engloba as sensações e não a história em si. O distanciamento promovido desde o início, com forma e conteúdo, texto e imagem simbioticamente ligados, deixa especificamente Brichta à deriva enquanto a montagem segue sua jornada Bressaniana mesmo quando em conflito com o texto.

O sabor agridoce em alguns instantes não elimina os feitos de um cineasta septuagenário que parece ainda ter muito a produzir. A vivacidade expressa nas inesperadas cenas pós-créditos revela um artista em comunhão profunda com sua arte e com seus colaboradores, e a julgar pela riquíssima carreira que construiu, é um privilégio vê-lo ainda disposto a experimentar.


NOTA 7


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