top of page
  • Foto do escritorGuilherme Cândido

'Contra o Mundo' se revela uma bagunça generalizada, mas com alguns lampejos


Mundialmente conhecido após interpretar o palhaço Pennywise no bem-sucedido remake It – A Coisa (e em sua decepcionante continuação), Bill Skarsgård vem acumulando papeis de destaque nos últimos anos. Foi o vilão principal do excepcional quarto filme da franquia John Wick e ainda fez uma participação no ótimo terror Noites Brutais antes de partir para a África do Sul filmar este Contra o Mundo.


Coincidentemente, embora esteja mais para uma ironia do destino, Skarsgård interpreta um sujeito cujo objetivo de vida é acabar com uma dinastia. Todos sabemos que ele pertence a uma família sueca que, se não estabeleceu uma dinastia, ao menos conquistou um espaço de prestígio em Hollywood. O primeiro foi Stellan, que após fazer sucesso com a franquia Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, acabou seduzido pela meca do Cinema. Depois foi a vez de Alexander, premiado por performances televisivas e vencedor de uma batalha hercúlea para provar ser mais do que um rostinho bonito. O momento, no entanto, é todo do caçula dos Skarsgård, tanto que esse ano ainda será visto no remake de O Corvo, herdando o papel imortalizado por Brandon Lee.

O roteiro é concebido como uma salada de frutas temática: um jovem surdo, mudo e sem nome que mora no interior de uma floresta, vive para cumprir uma única missão: matar a matriarca de uma dinastia que governa com mãos de ferro o lugar onde vive. Para isso, desde criança é treinado por um misterioso xamã a fim de se transformar num instrumento de morte. Suas razões, no entanto, são mais pessoais do que altruísticas, já que a tal mulher é Hilda Van Horn (Famke Janssen, a eterna Jean Grey de X-Men), a assassina de sua irmã. E a oportunidade para finalmente se vingar reside num evento anual que é apresentado pela própria Hilda: uma competição transmitida ao vivo em que doze “inimigos do Estado” são reunidos para lutarem até a morte.

As comparações com Jogos Vorazes são inevitáveis, mas enquanto a trajetória de Katniss Everdeen funcionou como uma alegoria política bem ajambrada, Boy Kills World (no original) usa sua história como uma mera desculpa para besuntar Bill Skarsgård e colocá-lo para espancar violentamente centenas de bandidos. Tudo isso, claro, embalado numa roupagem supostamente descolada, em que os videogames são a inspiração mais evidente, ainda que seja possível captar referências também a quadrinhos e animes.

Se o texto não é o ponto forte da produção, ao menos as sequências de ação são coreografadas com paixão e intensidade pelo polonês Dawid Szatarski, que já havia brilhado na franquia Kingsman (a famosa sequência da igreja foi assinada por ele) e agora mostra estar seguindo, a passos largos, o mesmo caminho dos também dublês David Leitch e Chad Stahelski, os criadores de John Wick (será que também vai enveredar para a direção?). O diferencial de Szatarski, ao lado do cineasta estreante Moritz Mohr, além de manter a câmera o mais próximo possível da ação, é incorporar o uso de drones, trazendo novas camadas para a captação das lutas e influenciando diretamente na coreografia. O resultado são combates frenéticos nos quais o espectador nunca se perde na mise en scène e, de quebra, ainda ganha o bônus de ângulos arrojados, especialmente na sequência final (a melhor).

Quando o foco não está em mostrar Bill Skarsgård distribuindo socos, voadoras, facadas e tiros, Contra o Mundo se revela uma bagunça generalizada com alguns lampejos bem-humorados. Muitos deles residem nas interações com o Benny de Isaiah Mustafa (colega de Skarsgård em It - Capítulo 2), onde os roteiristas se divertem criando diálogos nonsense em virtude da incapacidade de o Garoto ler os lábios do homem. Particularmente, essas gags são as únicas que funcionam, pois no restante do tempo, é perceptível o esforço da produção em se aproximar do público juvenil, mesmo que exagerem e acabem criando sequências infantis. Essa abordagem pode ser defendida em função da mentalidade do Garoto (como é chamado durante todo o filme), mas é um elemento a mais na já caótica linguagem narrativa.

Skarsgård, por outro lado, faz um trabalho satisfatório ao aliar a fisicalidade que o papel demanda a uma admirável desenvoltura na hora de superar as limitações impostas pela condição do Garoto. Sem poder falar, o ator passa a depender de gestos, olhares e do próprio corpo para conseguir se expressar, demonstrando também comprometimento com o projeto ao permanecer firme mesmo diante das numerosas besteiras que é obrigado a protagonizar.

Se o protagonista é infantilizado, nada mais adequado do que conceber sequências de ação que sigam esse padrão, resultando em momentos tão violentos, que chegam a ser cartunescos e a coreografia elaborada enfatiza isso, como no curto plano-sequência que acontece no terceiro ato e escancara uma “homenagem” ao confronto no corredor em Guardiões da Galáxia Vol. 3. Mas ao invés de empolgar, como James Gunn soube fazer, Contra o Mundo apenas flerta com o burlesco mesmo.


E esse é o espírito que rege todo o filme, que apesar da linguagem juvenil, começa no 220 ao oferecer lutas violentíssimas e estilizadas, perdendo a intensidade no meio do caminho até recuperá-la no terceiro ato. É o tipo de produção que tende a dividir o público e provocar reações extremadas. Particularmente, não a enxergo como 8, nem como 80, mas se tiver que assistir a um filme que emprega linguagem de videogame e possui “Contra o Mundo” no título, fico com Scott Pilgrim. Esse, sim, digno de aplausos.


Observação: Há uma cena após os créditos finais.


NOTA 5


1 Comment


Jnei Cândido
Jnei Cândido
Apr 26

Parabéns pela crítica.

Like
bottom of page