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CRÍTICA | "O Olhar Misterioso do Flamingo"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • 24 de mar.
  • 2 min de leitura

*Crítica publicada durante o Festival do Rio 2025


Durante a década de 80 um vírus misterioso assolou o mundo, dizimando especialmente homossexuais. Se países desenvolvidos, com cientistas renomados debruçando-se sobre o caso, tinham dificuldades para desvendar o que mais tarde se chamou AIDS, o que dizer de uma cidadezinha no interior desértico do Chile e que justamente serve de palco para o filme escrito e dirigido pelo estreante Diego Céspedes? Vencedor do Grande Prêmio da Mostra Un Certain Regard em Cannes o filme opera em alta octanagem, no atrito entre extremos, onde seres humanos são capazes de amar e odiar na mesma medida e um vasto território é habitado por pouquíssimas pessoas.

Muitas, inclusive, vivendo sob o mesmo teto oferecido pela Mama Jiboia (Paula Dinamarca, sublime), mulher trans que abriga um pequeno grupo de travestis e acolhe Lídia (Tamara Cortés, uma revelação), que aos doze anos sofre bullying dos meninos locais em função de daquela que chama de mãe e é conhecida como Flamingo (Matias Catalán, cuja presença ecoa até quando está ausente), parte do grupo. Alegre e extremamente leal, trata-se de uma comuna unida, tanto que não hesita em defender a menina, impondo um "temível" contato visual aos delinquentes. Esse momento “olho no olho” é emblemático por dois motivos: primeiro para ilustrar a desinformação que corria solta na época e levava as pessoas a acreditarem que o mero ato de olhar para um homossexual já seria o bastante para contrair “a peste”. Segundo, pois simboliza um raro momento em que aquela parcela tão marginalizada da população finalmente é vista, mesmo que forçosamente.

A despeito do terreno arenoso e infrutífero, na casa de Mama Jiboia (todas possuem nomes referentes a criaturas da natureza), sobram felicidade e afeto em gestos que se contrapõem à animosidade perpetrada pelos demais habitantes, cujo preconceito é enraizado na ignorância, de praxe. E Céspedes, como já dito, utiliza esse contraste para alimentar outros, construindo uma trama que ora pende para o realismo fantástico (a sequência do “contágio”), ora para o ultra-realismo (o assassinato à sangue frio). Até mesmo uma criança, tradicionalmente símbolo de inocência e pureza, está sujeita a carregar ressentimento e provocar violência, enquanto um adulto, com pré-conceitos já cristalizados no inconsciente, é capaz de mudar ao descobrir que o Amor é livre em todos os sentidos.

Vale ressaltar que a produção evita perpetuar convenções e arquétipos, e mesmo que se renda à brutalidade para ilustrar a conexão de Flamingo com o ex-namorado mineiro, jamais perde de vista a empatia e até mesmo o lúdico, substituindo a tragédia por meio de toques fantasiosos. Até a atmosfera pesada se rende ocasionalmente à leveza do grupo em seu mosaico extravagante e caloroso, sobretudo quando há um embate com a quadrilha de jagunços liderada por um sujeito chamado, veja a ironia, “Clemente”.

Uma estreia formidável para Diego Céspedes tanto do ponto de vista artístico, mostrando confiança e habilidade suficientes para conceber uma experiência singular, diferente de tudo o que tem sido lançado nos cinemas neste e em anos anteriores, como na forma de um manifesto LGBTQIAPN+, num momento tão retrógrado de nossa sociedade que O Olhar Misterioso do Flamingo, mesmo passando-se em 1982, parece contemporâneo.


NOTA 8,5

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