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CRÍTICA | "A Graça"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 15 horas
  • 4 min de leitura

É particularmente difícil encontrar um filme mais adequado do que A Graça para abrir o Festival de Veneza e tudo se deve ao diretor Paolo Sorrentino, que faz de sua mais nova contribuição com o virtuoso Toni Servillo a mais madura e sofisticada de sua carreira. Da carreira de ambos, na verdade. Napolitanos de origem, talvez seja o amor compartilhado pela charmosa cidade do sul italiano o segredo para uma parceria tão rica e longeva.

Vencedor do prêmio de Melhor Ator na última Biennale, Servillo interpreta Mariano De Santis, o fictício presidente da Itália que resolve tirar os últimos dias de mandato para refletir. Ou é obrigado a isso, já que a legalização da eutanásia cai no seu colo e se torna um dilema instantâneo. A filha, progressista, critica a demora em tomar uma decisão supostamente simples (por coerência), o Papa (um amigo), confia naturalmente num veto, enquanto pessoas próximas já articulam o futuro político do país europeu.


Vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional por A Grande Beleza (2013), Paolo Sorrentino não é estranho a esse tipo de narrativa, pois comandou o mesmo Toni Servillo em O Divo (2009), cinebiografia do ex-primeiro ministro Giulio Andreotti, envolvido numa série de escândalos políticos e condenado, entre outras coisas, a 24 anos de prisão pela cumplicidade no assassinato do jornalista Mino Pecorelli em 1979. Desta vez, o cineasta abandona o lado mais sombrio da humanidade para jogar luz sobre os melhores valores que alguém deveria possuir, entre eles, o de duvidar, questionar.

É o que faz De Santis em bem aproveitadas mais de duas horas de projeção. Servillo faz do jurista por vocação e presidente por ocasião, um sujeito de sabedoria e integridade inexpugnáveis, do tipo que calcula meticulosamente cada palavra antes de finalmente abrir a boca, pois passa mais tempo ouvindo. Não por acaso, um dos argumentos para se estender na análise da Lei da Eutanásia é dito em tom sereno: "Se eu vetar, serei um torturador, mas se aprovar, serei um assassino."

Por estar nos derradeiros meses no cargo máximo da República, De Santis se pega pensando com frequência na esposa falecida, da qual guarda décadas de memórias, daquelas pelas quais vale a pena se entregar à melancolia. O pensamento em Aurora guia o velho estadista não apenas nos deveres como chefe de estado, mas no tortuoso caminho rumo ao destino final da própria vida. Afinal, quando o trabalho chegar ao fim, o que restará? Liberdade não é a resposta, pois "quando se está velho, ela não serve para nada", reclama em certo momento. É justamente no peso dessa tarefa, a de encontrar um azimute quando tudo aponta para o nada, que o homem é tomado pela dúvida, o que nos leva ao título do filme, pois a Graça é um sinônimo para o perdão, que por sua vez é o que confere beleza à dúvida, como ele mesmo diz.

Por isso, ao dar profundidade a reflexões que em algum momento se apresentarão a todos nós ("de quem são os nossos dias?"), o tema central acaba se apequenando, mesmo que tangencialmente valide cada passo do protagonista. E Sorrentino não hesita em abraçar o anacronismo inconsciente, quase livre, de Mariano ao explorar todas as perspectivas da celeuma que confronta. Um cavalo em estado de agonia, talvez tenha sido uma ilustração exagerada, até porque, o impacto de ver Toni Servillo cantando um rap específico já serviria como um inusitado contraponto.

Para responder de modo adequado às questões que ele mesmo provoca, Paolo Sorrentino apresenta casos como o de um professor de história condenado por matar a própria esposa em estágio avançado de Alzheimer ou a jovem que não se arrepende por matar (ou "libertar", como alega) o marido enquanto este dormia. Nesses instantes, o cineasta alcança um nível de humanidade até então inédito em sua vasta carreira, ainda mais considerando a irregularidade de sua fase mais recente, na qual saiu do magnífico A Mão de Deus (2021) para o frustrante Parthenope - Os Amores de Nápoles (2024).

Mas se tem um elemento perene em sua trajetória como cineasta, é o apego a uma estética inebriante, valorizando o visual mesmo em passagens prosaicas. Sem a "ajuda" do litoral napolitano para construir os planos pictóricos de sempre, a diretora de fotografia Daria D'Antonio, parceira de longa data, aposta em imagens evocativas, como nas frequentes passagens em que o protagonista é "emoldurado", seja por janelas ou soleiras de portas. As pinturas, onipresentes na filmografia de Sorrentino, surgem imponentes, maiores que qualquer personagem e até o grafite é utilizado de forma peculiar tal qual a belíssima imagem de uma pintura (um arco-íris) atravessando o corpo de uma personagem através da boca. Em outros instantes, a poesia impera e a sequência com o astronauta derramando uma lágrima solitária só não é a mais bonita, pois gera outra ainda mais lírica, já no final.

A Graça não seria um filme de Paolo Sorrentino sem seu humor peculiar e, nesse quesito, somos presentados com um nível de sofisticação com o qual Hollywood só pode sonhar. O repertório é farto, indo desde a quebra de expectativa (o papa indo embora de scooter, o presidente ouvindo um rap cheio de palavrões), passando pelo contraste das cartelas iniciais (várias definições de "Graça" são embaladas por uma melodia que parece saída da trilha de Rivais), até o mais puro espetáculo oferecido pela veterana Milvia Marigliano, uma mistura imperfeita entre o visual de Martin Scorsese e o espírito da Dona Sebastiana de O Agente Secreto. A começar por um jantar em que o verdadeiro banquete é servido em diálogos, a divertidíssima Coco Valori é a responsável por descortinar o outro lado de Mariano De Santis e o faz com uma sinceridade desarmante e consequentemente hilária.

Por fim, já que mencionei os diálogos, como não admirar uma obra que apresenta o seguinte diálogo: "- Ele usa essa tática para persuadí-lo, é muito inteligente, mas essa é a opinião da minha esposa. - E qual é a sua? - Que minha esposa também é muito inteligente."? E esse é apenas um dos exemplos que fazem jus ao nível de sofisticação apresentado pelos personagens.

Inspirador, cheio de significados e com forte potencial para provocar reflexões, A Graça não só é um dos filmes mais requintados de um diretor de grife como Paolo Sorrentino, como também se revela seu melhor trabalho em cinco anos.


NOTA 8,5

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