CRÍTICA | "Obsessão"
- Guilherme Cândido

- há 21 horas
- 3 min de leitura

Estamos numa era onde desejos podem facilmente ser atendidos num clique. Se antes já era suficientemente assustador o cenário no qual quase qualquer dúvida poderia ser tirada através de uma pesquisa no Google, hoje em dia a pesquisa sequer é necessária, já que as IAs vieram para responder qualquer coisa imediatamente. Crescer num contexto como esse é, no mínimo, preocupante e as consequências não devem demorar a aparecer.
No longa-metragem de estreia do YouTuber Curry Barker, Bear é um jovem tão patético que sequer consegue se declarar à garota dos sonhos, nem mesmo quando a própria oferece a oportunidade perfeita. A verdade é que o amor que ela sente por ele não é romântico e a friendzone pode ser terrível. Mas para quem? Ignorando completamente os anseios de Nikki, o mimado resolve comprar um “Salgueiro do Desejo” na esperança de realizar o sonho de conquistar a mulher pela qual não se dispõe a lutar. É preciso ter cuidado com o que desejamos…

Antes completamente apaixonado por Nikki, agora é ela quem está inacreditavelmente obcecada por Bear, não da forma como poderíamos ver numa comédia romântica, mas do tipo que renderia um terror clássico dos anos 80/90 (escolha entre Atração Fatal e Louca Obsessão). Fruto de dois terrenos férteis para o terror contemporâneo, Curry Barker é um comediante como Jordan Peele e criador de conteúdo como os irmãos Philippou, curiosamente “herdando” os pontos fortes de ambos. Pois além de ser diabolicamente hilário, Obsessão também não economiza nos momentos desconfortáveis e não me refiro apenas ao gore.

Transitando com absoluta maestria entre o riso nervoso e o arrepio literal, Barker vai além do que poderia ser um mero escapismo ao escolher enxergar Bear como o homem patético e mimado que é. Sendo assim, não chega a dar pena vê-lo ser impiedosamente torturado pelo roteiro, pagando por recusar o “não” como resposta. Note que inicialmente ele de fato sente como se num conto de fadas estivesse, passando a se importar com Nikki apenas quando o relacionamento começa a repercutir socialmente. “Aja normalmente, eu só quero que você seja a Nikki!” grita para a moça em determinado momento (o “quero” não está na frase por acaso).

E se Barker não hesita em explorar as profundezas do que estabeleceu, é porque sabe da capacidade do elenco que dirige. Nesse aspecto, Obsessão só atinge notas altas porque Michael Johnston e Inde Navarrette oferecem performances extremamente comprometidas. O ex-Teen Wolf torna difícil a tarefa de imaginar alguém melhor para transmitir a aura desprezível de Bear sem soar exatamente como algo inerentemente maligno. E Navarrette, outra estreante no Cinema, é hábil ao imediatamente mostrar ao público porque alguém seria capaz de desejá-la ao ponto de fazer um pacto faustiano. Aliás, o prólogo é curto e direto nesse aspecto, funcionando inclusive para ilustrar o talento da atriz quando é preciso virar a chave. E ela o faz sem reservas, substituindo o carisma gentil pela imprevisibilidade psicótica com um talento normalmente visto apenas em intérpretes experientes.

Pecando apenas ao soar previsível em determinados momentos e ao fazer vista grossa para a falta de inteligência de Bear e os aspectos fora de seu círculo social, Obsessão é um belo cartão de visitas da parte de Curry Barker, com uma combinação perturbadora e hilária destinada a permanecer na cabeça do espectador por um bom tempo.
NOTA 7,5









