CRÍTICA | "Na Zona Cinzenta"
- Guilherme Cândido

- há 20 horas
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Muito se fala sobre a produtividade quase sobre-humana de cineastas como o francês François Ozon e o sul-coreano Hong Sang-soo, por exemplo, mas pouca atenção é dada a Guy Ritchie. O britânico lançou quatro filmes nos últimos quatro anos e não estamos falando de projetos independentes focados no roteiro e sim de produções complexas envolvendo sequências de ação engenhosas. E se Ritchie está devendo um grande filme há mais de vinte anos, tampouco decepciona, passando longe de priorizar a quantidade em detrimento da qualidade.
Se no começo de carreira estabeleceu uma assinatura através da verborragia irreverente aliada à montagem frenética, não faz muito tempo que ele passou a se encantar por parcerias improváveis, demonstrando cuidado também com o estilo dos personagens. O Pacto (2023) foi uma ótima exceção ao revelar um Guy Ritchie competente também como diretor de filmes de guerra e Magnatas do Crime (2019) um divertido retorno às origens. Já este Na Zona Cinzenta, fazendo jus ao título, se posiciona num meio-termo entre a fase iniciada por Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e aquela consagrada por O Agente da U.N.C.L.E. (2015), com o diferencial de trazer a narrativa mais enxuta já comandada pelo cineasta.

Também autor do roteiro, ele coloca Henry Cavill e Jake Gyllenhaal como uma dupla de jagunços premium, isto é, brutamontes com cérebro suficiente para executarem planos audaciosos ao invés de simplesmente eliminar todos os obstáculos do caminho. Dessa forma, eles são úteis à misteriosa Sophia (Eiza González), que se apresenta como uma advogada capaz de fazer até o mais perigoso dos caloteiros pagar o que deve em tempo recorde. Aliás, essa é exatamente a missão que acompanhamos desde a preparação.

Ao invés de perpassar pelas etapas preliminares, Guy Ritchie joga luz sobre elas por quase metade da projeção. Se por um lado pode frustrar quem espera o tipo de ação ininterrupta tão comum em filmes do gênero, por outro, adiciona uma camada de realismo incomum. E não me refiro apenas à prática exaustiva de invasões furtivas e ao aperfeiçoamento de rotas de fuga, mas também de detalhes burocráticos normalmente ignorados no Cinema. Dessa forma o vilão vivido por Carlos Bardem (irmão mais velho de Javier) sofre mais com celeumas jurídicas do que com qualquer tipo de sabotagem, por exemplo.

E embora invista na narração, aceita como efeito colateral da trama complexa, Ritchie confia no espectador, seja por se negar a mastigar a trama, ou simplesmente ao salpicar elementos que ganham importância ao final. Ao enxugar o texto, o resultado facilmente se apresenta como a narrativa mais enxuta da carreira do realizador. Tanto que o final cortante acaba soando abrupto demais, dando de ombros para qualquer extensão após o clímax.

Eiza González acaba se destacando ao sugerir vulnerabilidade em pontos-chave da trajetória de Sophie, durona por natureza, mas é seguida de perto por Cavill e Gyllenhaal. Enquanto o primeiro aposta numa variação mais contida do Napoleon Solo de O Agente da U.N.C.L.E., Gyllenhaal diverte ao se permitir rompantes irreverentes (o dedo indicador ditando o comportamento de adversários), beneficiando-se da química exalada pelo bromance entre os personagens. Falando nisso, o longa também se afasta da comédia rasgada a qual Guy Ritchie costuma recorrer, mas traz um alívio cômico pontual que se adequa à abordagem sóbria do roteiro.
Mais cru e menos exagerado ao finalmente entregar a ação (mesmo que novamente traga perseguições de quadriciclos), Na Zona Cinzenta é a forma encontrada por Ritchie de diversificar a própria filmografia sem abandonar seus pontos fortes.
NOTA 7









