CRÍTICA | "Assalto à Brasileira"


Assalto à Brasileira começa com algo semelhante a “Pense em um absurdo. Ele já aconteceu antes no Brasil.”, um dito popular jocoso, mas que guarda aquela pontinha de verdade. Afinal, como pode um bando de meliantes, logo após assaltar um banco e fazer dezenas de reféns, ser aplaudido pela população? Pois é, isso realmente aconteceu no Brasil, mais precisamente em Londrina.
Em 1987, o Brasil vivia uma realidade econômica desafiadora. José Sarney era o presidente e a sociedade ainda se acostumava a viver sem a sombra da ditadura militar, findada dois anos antes. Diante dessas dificuldades financeiras, um grupo de desempregados resolve tomar uma atitude drástica, reunindo-se para invadir e saquear uma agência do Banespa. Eles não se consideram bandidos, apenas cidadãos incapazes de enxergar uma alternativa e apesar de cederem ao desespero, o fazem quase sem praticar violência e até distribuindo parte dos ganhos, mesmo que não se importem de fazer reféns. Entre eles está um jornalista que usa a busca pelo grande furo da carreira como subterfúgio para negociar com a polícia em nome dos criminosos. Sujeitos peculiares, não é mesmo?

Dessa forma, em poucos minutos, Assalto à Brasileira se torna um retrato fiel não apenas de uma fase histórica do Brasil, mas também de um povo que aprendeu a usar o humor como escudo contra as adversidades. O popular “rir para não chorar”. Poucas produções foram capazes de capturar com tanta verossimilhança a sociedade brasileira e seu estilo de encarar a vida.

O roteiro, uma adaptação do livro homônimo escrito pelo premiadíssimo autor e repórter Domingos Pellegrini (de As Batalhas do Castelo) é assinado por L.G. Bayão, cujo currículo mistura atrocidades (O Último Virgem, Maníaco do Parque, por exemplo) e sucessos (Heleno, A Porta ao Lado ) com o volume que se espera de um profissional prolífico como ele. Bayão, tal qual a maior parte dos brasileiros, leva quase tudo na brincadeira e usa o absurdo para construir momentos verdadeiramente divertidos.

O assalto pode ser à brasileira, mas a inspiração no cinemão norte-americano fica evidente desde o primeiro minuto, quando sugere um início in media res. O diretor José Eduardo Belmonte, cuja versatilidade continua a impressionar, abarca organicamente as gags com as sequências de ação, sem permitir que o efeito de um anule o outro. Ele traz a intensidade vista em Alemão e melhora o timing cômico apresentado em Billi Pig, mesmo que falte a urgência e a tensão de obras como Se Nada Mais der Certo e O Pastor e o Guerrilheiro. Nas críticas que escrevi sobre seus filmes anteriores, não hesitei em apontá-lo como um dos mais proeminentes nomes do Cinema Brasileiro e atualmente mostra-se também um dos mais importantes para nossa Indústria.

Se o texto merece elogios pelos diálogos afiados e as situações hilárias (os reféns que resolvem ajudar só para irem embora mais rápido, por exemplo), também devemos dar os créditos ao elenco, começando pela escalação certeira dos assaltantes. O líder, Moreno, é vivido por Christian Malheiros, que acabou de trabalhar com José Eduardo Belmonte em Justino: Nos Bastidores do Reino e talvez seja mais conhecido pelas produções que estrelou na Netflix (a série Sintonia e o ótimo longa-metragem 7 Prisioneiros). Moreno pode não intimidar fisicamente, mas é graças a Malheiros que acabamos simpatizando com o sujeito. O olhar inocente, corroborando a facilidade com que cai em artimanhas, o cuidado ao andar (demonstrando empatia com os reféns que poderiam ser pisoteados) e a expressão assustada em cenas-chave, contribuem para torná-lo humano. Já o responsável pelas gargalhadas mais fortes é Matheus Macena, que usa a inesperada consideração dos bandidos para roubar a cena. Ao passo que Murilo Benício, carismático por natureza, não tem a menor dificuldade para dominar a cena, adicionando ambiguidade a Paulo, o jornalista, que infelizmente jamais é aproveitada pelo roteiro.

O que o motiva, afinal? O ego? Um complexo narcisista? O interesse profissional? Rancor? L.G. Bayão explora pouco da profundidade sugerida por Benício, assim como acaba falhando sempre que resolve falar um pouco mais sério. O discurso político ao final, embora fiel aos fatos, mostra-se deslocado e vira um embaraço ao ser embalado por uma canção famosa. A predominância do humor também acaba minando a tensão, por mais que Belmonte aposte em contagens regressivas e outros artifícios. Como temer alguém que há poucos minutos nos fez rir? E não foi de nervoso.

Isso pode impedir voos mais superlativos, mas não impede Assalto à Brasileira de soar como um blockbuster deve ser, apostando em exóticos fatos reais para, por tabela, se revelar um espelho do próprio público, com a identificação imediata comprovando a precisão do retrato criado.
NOTA 7,5
Observação: Há uma cena adicional após os créditos









