top of page

CRÍTICA | "Cartório das Almas"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 2 minutos
3 min de leitura

O pós-vida segue despertando a curiosidade da humanidade e o Cinema espelha esse fascínio milenar através de obras marcantes ao longo das décadas. Se a continuidade da existência gera dúvida, a finitude é uma das poucas certezas que temos e é justamente a união desses questionamentos que sedimenta a premissa de Cartório das Almas, vencedor de dois candangos no Festival de Brasília 2023. O diretor e roteirista Leo Bello usa o Além para investigar o que nos move em vida. Bello já havia discutido sobre saúde mental no bom O Espaço Infinito e agora extrapola suas inquietações a níveis etéreos. Ou nem tanto, pois assim como Hirokazu Koreeda no extraordinário Depois da Vida (1998), o cineasta brasiliense imagina a morte como o ponto de partida para uma jornada marcada pela burocracia. Outros filmes seguiram o mesmo pensamento, como Os Fantasmas Se Divertem e sua continuação e até o recente Eternidade. A diferença é que de todas as obras citadas, a que menos tem algo a dizer é justamente a que estreia nesse final de semana.

A história se passa em um futuro distópico onde a humanidade parou de envelhecer e alcançou a imortalidade. Laura (Gabriela Correa), por exemplo, está há um século com a mesma aparência que tinha aos vinte e seis anos e agora é a mais nova encarregada de um cartório de almas. Sua função é registrar, sem juízo de valor, os motivos e as escolhas de pessoas que decidem renunciar à eternidade, abrindo mão da vida. O ofício, no entanto, a impede de seguir o exemplo das pessoas que atende, já que o contrato que assina logo nos primeiros minutos proíbe a interrupção da própria existência. O contato diário com as despedidas aos poucos começa a corroer Laura até o ponto de mudar sua visão a respeito da vida e da imortalidade.

O problema de Cartório das Almas passa muito longe de ser conceitual. A provocação do roteiro é instigante o bastante para justificar um filme. No entanto, cabe uma discussão se o projeto não seria mais bem desenvolvido como um curta-metragem. Embora repleto de simbolismos, a estrutura é extremamente repetitiva em vários níveis. Não só é difícil distinguir os atendimentos de Laura, como até a estrutura narrativa segue um padrão que rapidamente se esgota. O cansaço da protagonista acaba sendo sentido também pelo espectador, o que se revela uma proeza para uma película que mal atinge os oitenta minutos de projeção.

As sequências mais contemplativas, embora nem sempre imprescindíveis, se destacam pelo apuro estético afiadíssimo do diretor de fotografia Pedro Maffei. A comunhão do filme (e da protagonista) com a natureza contribui para a construção de uma atmosfera mais serena, ainda que o ritmo arrastado atrapalhe a experiência. De forma semelhante, a diretora de arte Maíra Carvalho tira ótimo proveito das edificações de Brasília, uma cidade que nasceu futurista e serve como o modelo perfeito para uma ambientação distópica, fortalecida pela paleta acinzentada da fotografia. Por outro lado, Cartório das Almas retoma uma tradição incômoda do Cinema Brasileiro ao apresentar problemas sonoros. Espero que isso seja corrigido nas salas de cinema, pois me peguei várias vezes repetindo cenas do screener que a distribuidora gentilmente ofereceu, tentando entender alguns diálogos.

Apesar de todas essas imperfeições, Leo Bello continua um roteirista de boas ideias, transmitindo-as num texto quase sempre afiado (“resolvi morrer para ter um pouco de paz”). Chamar o ato de morrer de “transmutação”, aliás, é um acerto que vai ao encontro da metáfora construída através da paulatina transformação arbitrária de uma personagem em Corvo, animal no qual as pessoas se transformam quando decidem parar de viver. E quem assistiu a Cisne Negro pegará a referência de imediato.

Gabriela Correa, tão bem em Virgínia e Adelaide, faz o que pode em cena, jamais deixando de despertar nosso interesse por Laura, protagonista de uma história que parte de um ponto tremendamente intrigante, mas que logo começa a andar em círculos.


NOTA 5,5

bottom of page
google.com, pub-9093057257140216, DIRECT, f08c47fec0942fa0