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CRÍTICA | "Cara-de-Barro"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 9 minutos
3 min de leitura

Quando o chefão da Marvel anunciou Doutor Estranho: No Multiverso da Loucura como o primeiro filme de terror do estúdio subsidiário da Disney, muitos embarcaram na ideia, principalmente aqueles fãs que não assistem a filmes que não sejam blockbusters de super-heróis. Porém, nem a contratação de Sam Raimi foi o suficiente para que o estúdio tivesse coragem o bastante de tornar aquele anúncio verdadeiro. Essa foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando Cara de Barro foi alardeado pela DC como um horror corporal brutal. Depois da sessão para a imprensa, algumas impressões começaram a pipocar pela internet corroborando essa tese, mas a verdade é que isso diz muito mais sobre quem assistiu do que sobre o filme em si. O longa-metragem que estreia essa semana nos cinemas pode até ter algumas sequências incômodas, mas está muito longe de ser tão pesado quanto clássicos do body horror.  

A história gira em torno de Matt Hagen (vivido pelo bom Tom Rhys Harries, de Missão de Sobrevivência), um ator no auge da popularidade que ao sair para comemorar sua primeira indicação ao Oscar acaba se envolvendo com a namorada de um criminoso perigosíssimo, que ao descobrir decide puní-lo da pior forma: retalhando o rosto dele. Desesperado, Hagen recorre ao tratamento experimental liderado pela Dra. Corr (a ótima Naomie Ackie, de Sorry, Baby), que apesar de inicialmente apresentar resultados excepcionais, logo gera efeitos colaterais devastadores.

Em alguns momentos, o diretor James Watkins – responsável pelo ótimo Sem Saída (2008) e pela fraca refilmagem de Não Fale o Mal - parece realmente determinado a chocar o público, investindo em sequências que nem sempre se encaixam de forma orgânica na narrativa, como ao trazer o protagonista fazendo cortes profundos no rosto apenas para testar suas novas “habilidades”. Por outro lado, há uma longa passagem ambientada no banheiro de um avião que arrancou reações guturais do público da sessão em que eu estava. Acredite, pegar uma sessão lotada fará diferença se você está pensando em assistir ao filme.

Felizmente, Cara de Barro não foi feito apenas para desconcertar plateias e o roteiro assinado pelo veterano Hossein Amini (do jovem clássico Drive) em parceria com Mike Flanagan, o midas do terror contemporâneo (e com hiperfoco em Stephen King) até tenta transformar a jornada de Hagen numa alegoria exacerbada sobre as consequências de nutrir sentimentos reprimidos como rancor e ódio. “A melhor vingança é uma vida bem vivida”, a Dra. Corr chega a dizer ao protagonista, que literalmente se vê melhor quando se entrega ao amor pela cientista. Aliás, o próprio Hagen sente-se mal após cometer o primeiro assassinato.

Mas ao invés de usar essa transformação para ilustrar como é sucumbir aos próprios sentimentos sombrios, o roteiro acaba destruindo o arco dramático do personagem, ao deslocar a culpa de Hagen para o tratamento ao qual se submeteu. A história deixa de ser sobre um homem refém da própria sede de vingança (e que assume as consequências dos próprios atos) e passa a ser de um super-herói (ou super-vilão) vítima de uma substância que lhe tira o discernimento. Era a consagração do famoso conselho de Seu Madruga (“A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”).

A partir desse momento, Cara de Barro perde o próprio diferencial e abraça o lugar-comum dos filmes baseados em quadrinhos, entregando-se a sequências de ação confusas na lógica que tenta estabelecer. Sim, a suspensão da descrença pode funcionar na hora de perdoarmos o fato de as nanocélulas imitarem até mesmo as roupas da pessoa em quem decide se transformar (Hagen chega a ser visto de vestido ao “copiar” uma moça), mas como ele consegue transitar entre rostos se ele está fadado a reproduzir quem está no seu pensamento? Não há uma sequência trazendo-o dominando a arte camaleônica, mas há uma semelhante aos “saltos entre mentes” de Homem-Aranha: Um Novo Dia.

Ao menos, isso joga luz sobre a espetacular combinação de efeitos visuais e práticos, abusando de maquiagem prostética na hora de conferir verossimilhança à estética grotesca de Matt Hagen. Outro elemento digno de elogios é a trilha sonora de Volker Bertelmann, vencedor do Oscar por Nada de Novo no Front e que já havia brilhado em Verity. O alemão prova estar em grande fase ao compor melodias ao mesmo tempo sombrias e comoventes, ilustrando a dualidade do caminho escolhido pelo protagonista.

Pecando também na condução superficial de uma investigação, Cara de Barro está muito longe de se aproximar dos trabalhos de David Cronenberg, Julia Ducournau e Coralie Fargeat, expoentes do horror corporal que foram bem mais contundentes, mas ao menos serve para mostrar que a nova DC, de fato, está tentando surpreender.


NOTA 6

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