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CRÍTICA | "100 Dias"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 10 minutos
2 min de leitura

*Crítica publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2026


Mais conhecido como diretor de animações de sucesso internacional tais como A Era do Gelo (2002), Robôs (2005), Rio (2011) e O Touro Ferdinando (2017), pelo qual foi indicado ao Oscar, o brasileiro Carlos Saldanha já havia dirigido seu primeiro longa-metragem live-action em 2024 (Harold e o Lápis Mágico) e parece decidido a continuar explorando esse território. Falando em explorar, sua segunda empreitada dirigindo atores de carne e osso é 100 Dias, filme que retrata a histórica façanha do navegador Amyr Klink, que atravessou o Atlântico Sul a remo pelo período exposto pelo título. O roteiro de Elena Soarez e Thais Tavares é uma adaptação do livro assinado pelo próprio Klink. Apesar de jamais cravar a época na qual se passa, a narrativa se desenvolve na década de 80, quando o navegador, então um jovem remador, resolve mandar pelos ares o emprego como burocrata para se entregar ao sonho de desbravar os mares, começando pela desafiadora travessia que começou no litoral da Namíbia e terminou na Bahia.

O primeiro ato da história parece feito às pressas, com diálogos expositivos e um ritmo corrido para abarcar parte da infância do biografado, passando pelas suas inspirações até ser tomado pela fatídica ideia de rodar o mundo de barco. Intercalando a viagem com flashbacks pouco oportunos, a narrativa se desenvolve através de um vaivém que se revela irregular: enquanto o foco está no mar, 100 Dias se apresenta como uma aventura marítima envolvente, mas quando se dedica ao passado do protagonista, é superficial. Os conflitos familiares que surgem no horizonte jamais são trabalhados satisfatoriamente pelo roteiro, mas o maior pecado é justamente não trabalhar os dilemas psicológicos de Klink. Os desafios impostos pela solidão, o medo do desconhecido e até pequenos incidentes passam batido em prol de uma atmosfera mais aventuresca.

Nessa parte, Saldanha se sai bem, mantendo o ritmo bem controlando e acertadamente apostando no carisma de Filipe Bragança, cuja entrega ao papel fica evidente no físico modificado, por exemplo. O ator goiano leva o filme nas costas sem se intimidar pelo peso de encarnar a primeira pessoa a cruzar o Oceano Atlântico à remo. A composição leve e bem-humorada facilita a conexão com o público e Bragança nunca deixa de se soar convincente. Assim como os efeitos visuais usados para darem vida à jornada de Klink, incluindo o peixe dourado Alcebíades, que acompanha o explorador tal qual o Wilson de Náufrago.

Exagerando nas sequências de sonhos, 100 Dias não hesita em incluir clichês para encorpar a trama enxuta, aproveitando a presença de Felipe Camargo para dar alguma substância, mas esbarra na tal da superficialidade. A produção é claramente voltada para o espetáculo, mas ao menos encontrou o profissional certo para comandá-lo. Saldanha ainda não chegou ao nível que já ostenta no âmbito da animação, mas demonstra progresso nessa nova fase da carreira.


NOTA 6,5

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