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CRÍTICA | "Três Horas Para Viver"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 11 minutos
4 min de leitura

O entretenimento escapista tem o seu valor. Às vezes, tudo o que alguém precisa após um longo dia de trabalho é sentar e relaxar assistindo a um filme de ação. E quando esse filme é estrelado pela pessoa certa, melhor ainda. Esse tinha tudo para ser o caso de Três Horas Para Viver, uma produção talhada para bater recordes de audiência numa plataforma de streaming. Ainda mais se consideramos que o protagonista é Alan Ritchson, estrela de Reacher, série de ação que já faz sucesso no Prime Video. O ator está em franca ascensão e caminhando a passos largos para dominar o Cinema de Ação. E, convenhamos, quando isso acontecer será tremendamente merecido. Ele possui o mesmo porte físico de antigos astros de ação como Stallone e Schwarzenegger e vem mostrando carisma suficiente para justificar os fãs que possui. Esse ano mesmo Ritchson estrelou Máquina de Guerra, um longa-metragem que clamava para ser visto na maior tela possível, mas ironicamente acabou fadado ao catálogo da Netflix.


Se Runner, no original, soa meramente como um caro veículo para alavancar o turismo na cidade australiana de Brisbane, a culpa definitivamente não é dele.

Na história concebida pelos estreantes Miles Hubley e Tommy White, Alan Ritchson interpreta Hank Malone, um transportador de cargas valiosas que recebe a missão de levar um fígado para o hospital local, a fim de salvar a vida de uma criança. Os problemas começam quando o pré-requisito para embarcar nessa jornada, é aceitar a companhia de Ben Bishop (Owen Wilson), o falastrão encarregado de fiscalizar a entrega. O que eles não imaginam é que um grupo de criminosos liderado pelo implacável Damián Zaldívar (Rodrigo Santoro) está determinado a roubar o órgão, que supostamente vale uma grana considerável no mercado negro.

O título se refere ao tempo que Malone e Bishop têm até o fígado se tornar inviável para transplante e o diretor Scott Waugh faz uso dele para tentar mergulhar a narrativa num frenesi capaz de impedir o espectador de sentir a flagrante falta de urgência do roteiro. Afinal, Três Horas Para Viver é concebido como um típico filme de corrida contra o tempo, mas também uma buddy comedy com sequências de ação embaladas por músicas animadas (cortesia dos Guardiões da Galáxia de James Gunn) e um drama miseravelmente deslocado.

Waugh começou a carreira de forma promissora ao co-dirigir o sucesso-surpresa Ato de Coragem, que com 12 milhões de orçamento fez 70 milhões em bilheteria só na América do Norte. Depois disso, jamais se reencontrou. Assinou o razoável Need For Speed: O Filme logo em seguida e vem de duas bombas consecutivas: Projeto Extração e Os Mercenários 4, ambos desovados em 2023. Três Horas Para Viver não chega a cheirar a enxofre, mas tampouco servirá para recuperar o prestígio do cineasta. Com exceção de uma perseguição durante o clímax (com a câmera passeando por dentro dos veículos enquanto os tiros rolam soltos), a ação é esquecível e só se torna vagamente interessante graças ao carisma e à fisicalidade habituais de Ritchson.

Owen Wilson, que já foi um queridinho de Hollywood, agora se entrega a um papel que parece feito sob medida para irritar o espectador. A escalação é compreensível (ele é especialista em tagarelas), mas desta vez ele não consegue embutir inocência suficiente para suportarmos a metralhadora de palavras personificada por Ben Bishop. Muitas vezes desejei que Hank parasse o carro para fuzilar o sujeito e finalmente pôr fim à nossa tortura.  

Já Rodrigo Santoro até tenta conferir alguma nuance a Damián, misturando traços de psicopatia com alguma sinceridade que acabam sabotados pelo roteiro. Santoro claramente é qualificado demais para viver um personagem que os roteiristas sequer decidiram a nacionalidade. Em determinados momentos, o homem esbraveja em bom português, em outros, comunica-se em espanhol com a mãe. Sim, é possível que ele seja membro de um cartel mexicano. De repente acabou adotado por uma família de narcotraficantes, mas o que explica o nome hispânico? E verdade seja dita, por melhor que o ator brasileiro seja, não há suspensão de descrença que nos faça acreditar que ele poderia ser um oponente à altura de alguém como Alan Ritchson.

Contando com uma paleta de cores supersaturadas, uma exagerada explosão cromática do tipo que só se vê em comerciais de margarina, Três Horas Para Viver usa e abusa das paisagens australianas, trazendo personagens mencionando Brisbane mais vezes do que a placa de boas-vindas da cidade (e olha que foram muitas). Pontes, prédios e, claro, a praia artificial do lugar são filmados quase como se fosse para satisfazer um fetiche geográfico.

É uma cidade bonita, de fato, mas nada poderia desculpar um script que coloca personagens para fazer perfis uns dos outros no intuito de passar informações cruciais para quem está assistindo. Os mocinhos usarem roupas coloridas e os vilões se vestirem de preto da cabeça aos pés é apenas um lembrete visual do maniqueísmo do texto, que ainda tem a pachorra de apelar para o sentimentalismo barato. Uma CRIANÇA precisa de transplante, afinal, mas esse tipo de chantagem emocional já se tornou o padrão da produtora independente Angel Studios, de obras como Som da Liberdade (2023) e Cabrini (2024).

Cometendo um último sacrilégio ao tentar fazer um paralelo com Ratatouille (2007), Três Horas Para Viver aos trancos e barrancos tenta levar entretenimento aos menos exigentes, mas passa a depender demais do carisma de seu protagonista para compensar a falta de inspiração da direção e as inúmeras fraquezas do roteiro.


NOTA 4

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