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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Roteiro e montagem sabotam discurso de "Som da Liberdade"


Som da Liberdade tem feito bastante barulho na mídia estadunidense, gerando o tipo de burburinho capaz de alavancar bilheterias. E foi exatamente o que aconteceu. Mas o que tornou a produção tão controversa não foi sua história em si, mas as polêmicas envolvendo seus bastidores. Para entender melhor as polêmicas de Sound of Freedom (no original), analisemos sua trajetória até chegar às salas de cinema.


A produção, orçada em irrisórios 14 milhões de dólares, terminou suas gravações em 2018 e já tinha um acordo para ser distribuída pela Fox, mas quando o estúdio foi adquirido pela Disney, o projeto foi parar na geladeira (alguém conseguiria imaginar a Disney se associando a um filme sobre tráfico infantil?). Desde então, os produtores foram buscar alternativas para conseguir o almejado lançamento nos cinemas. Surgiu o Angel Studios, distribuidora independente que conseguiu agendar a exibição de Som da Liberdade nas telonas

A estreia superou expectativas e colocou a produção mais uma vez no centro das atenções. Sem uma campanha de marketing, coube ao próprio astro Jim Caviezel (famoso por interpretar Jesus em A Paixão de Cristo) gravar uma mensagem pedindo para que as pessoas divulgassem o filme. Aliás, tal mensagem é exibida durante os créditos, quando até mesmo um QR Code surge na tela, acompanhando o discurso de Caviezel exaltando as intenções do filme e anunciando um programa para financiar ingressos a quem não tiver condições de pagá-los.

Na prática, a estratégia funcionou, pois em pleno verão norte-americano (mais concorrido período de lançamentos cinematográficos), com Barbie e Oppenheimer dominando as salas de cinemas, Som da Liberdade não apenas escapou ileso como seguiu arrecadando acima das previsões, algo que nem Missão: Impossível conseguiu, sendo esmagado pelo fenômeno Barbenheimer (e pelo próprio Sound of Freedom). Assim, não é exagero afirmar que o filme só está chegando aos multiplexes brasileiros graças a essa repercussão. Caso contrário, a desova numa plataforma de streaming era o destino mais provável.

Nos bastidores, muito se fala sobre uma possível ligação do filme com o grupo de extrema-direita QAnon, que entre atitudes mais infames destaca-se a participação na invasão ao Capitólio (quem lembra do Viking patriota?). Não ajudou o fato de Tim Ballard, cuja história é contada pelo filme, aparecer em diversos canais alimentando as especulações sobre teorias conspiratórias (há uma menção a uma seita em que pessoas bebem sangue de crianças). Muito menos o próprio astro Jim Caviezel, intérprete do protagonista, comparecer em reuniões com membros do QAnon para divulgar o filme.

Independentemente dessas controvérsias, a verdade é que o roteiro de Som da Liberdade não traz qualquer tipo de discurso político, seja ele de qualquer lado do espectro. Há sim referências contundentes ao Cristianismo, algo que já era de se esperar de um projeto estrelado por Caviezel, mas política? Zero. Claro que, assim como toda Arte em si, é possível fazer uma interpretação mais subjetiva, compondo uma narrativa politizada, mas essa é uma questão que parte do público, não da narrativa.

A trama escrita pelo mexicano Alejandro Monteverde (que também ocupa a cadeira de diretor) em parceria com o estreante Rod Barr, se baseia na história real de Tim Ballard, agente da Segurança Nacional encarregado de capturar pedófilos. Mas ao entrar em contato com o pai de dois irmãos raptados em Honduras, ele percebe que os crimes são muito maiores que ele imaginou, representando uma verdadeira rede internacional de tráfico de crianças, que acabam escravizadas em trabalhos braçais e/ou sexuais. Sem o apoio da agência para aprofundar-se em sua investigação, ele decide pedir demissão para montar sua própria (e arriscada) operação.


Como é fácil de perceber, a única bandeira levantada pelo filme é a do combate ao tráfico humano, especificamente o de crianças, crime hediondo que, de acordo com o próprio filme, movimenta 150 bilhões de dólares ao ano e despedaça milhões de lares ao redor do mundo. Por outro lado, ao invés de traçar um panorama mais amplo, mostrando a situação de outros países além dos Estados Unidos (durante uma cena, é possível ver dossiês latino-americanos), os roteiristas optam por alçar dois irmãos à força motriz da narrativa. A premissa é forte, o script razoavelmente estruturado e as intenções são as melhores possíveis, mas faltam a Barr e Monteverde um polimento maior dos diálogos, que surgem como os pontos fracos mais evidentes na primeira metade da projeção.

Eles também pesam a mão na concepção dos vilões. Ora, se são pedófilos, ou seja, monstros por natureza, era realmente necessário retratá-los como caricaturas? Chega-se ao ponto de mostrar um deles soltando uma gargalhada diabólica diante da impotência de um policial. Isso não chega a ser uma exclusividade dos antagonistas, diga-se de passagem, pois alguns mocinhos passam pelo mesmo problema, mas que é contornado pelo elenco. Como Bill Camp (O Estrangulador de Boston), que escapa do estereótipo de investigador bonachão com carisma e entregando-se especialmente numa cena-chave com o protagonista.

Que por sua vez é vivido por um Jim Caviezel comprometido em oferecer uma performance digna dos atos heroicos de Tim Ballard. Seus esforços, embora geralmente satisfatórios, são ocasionalmente sabotados por algumas decisões questionáveis da direção. Como a repetitiva estratégia na hora de captar Tim quando este se entrega a frases de efeito: assim que alguém o instiga, a câmera imediatamente se aproxima do rosto de Caviezel, que se inclina para frente antes de proferir algo impactante e com uma seriedade inabalável. E se você se incomodar com a artificialidade desse momento, se prepare, pois há mais dois ou três como este. Isso porque o cineasta mexicano trata com imensa reverência o material que tem em mãos, o que só se torna um problema quando o roteiro padece dos problemas que apontei anteriormente. Pois, no geral, o trabalho de Alejandro Monteverde não chega a comprometer o projeto. Falta refino, talvez experiência ao diretor, é verdade, mas os maiores problemas de Som da Liberdade não estão nele e nem no roteiro.

Estão, na verdade, na péssima montagem de Brian Scofield, que falha em praticamente todas as funções que deveria cumprir. Os cortes, muitas vezes secos, evidenciam os efeitos colaterais dos vaivéns narrativos, como ao introduzir um flashforward no meio de uma sequência de interrogatório sem a menor cerimônia. Nesse momento, quando alguém pergunta a Tim se este é pai, Scofield atira na tela uma cena com o protagonista se abrindo para a esposa, algo que aconteceria apenas mais para frente, mas que é antecipado pelo montador apenas para quebrar o ritmo do que estávamos vendo.

Aliás, isso acontece com frequência durante as mais de duas horas de projeção, principalmente porque Scofield é incapaz de suavizar as variações de tom que a narrativa apresenta. Assim, somos apresentados a três atos completamente distintos: se o primeiro é mais pesado, com foco nas atrocidades que envolvem o trabalho de Tim, o segundo muda bruscamente, quando a trama alivia a tensão ao se concentrar na investigação que ocorre na Colômbia, enquanto o final abraça previsivelmente a ação. Com altos e baixos, a história se desenvolve com uma tremenda irregularidade, comprometendo o ritmo da história.

Derrapando em conveniências (o pedófilo que cai no colo de Tim quando este resolve monitorar a fronteira por um dia, a criança encontrada sem grande dificuldade ao final, o "ex-bandido" que se alia ao protagonista sem maiores dificuldades) e forçando a barra para induzir o espectador ao choro (Tim está quase sempre de olhos marejados e a trilha sonora é absolutamente incessante), Som da Liberdade pode até merecer atenção por tratar de um tema delicado e extremamente importante, mas está longe de ser digno das reações que tem recebido.


Se algum grupo político quiser realmente se apropriar do discurso de um filme, há opções melhores por aí...


NOTA 5


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