CRÍTICA | "Feito Pipa"


Enquanto a Indústria hollywoodiana segue tratando a memória tal qual commodity, um mero subterfúgio para explorar a nostalgia do público (com raríssimas exceções), o Cinema Brasileiro tem trilhado um caminho diferente, utilizando-a como um dispositivo a serviço da narrativa (com raríssimas exceções). Foi assim com Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto (vencedor e indicado ao Oscar, respectivamente), por exemplo. Em Feito Pipa (postulante ao Oscar), isso ganha contornos quase literais quando Dilma, a carismática avó do protagonista Gugu, passa a manifestar sintomas de Alzheimer. No filme de Allan Deberton, a memória está intimamente ligada à identidade. Perdê-la significa também se afastar de quem somos.

Se por um lado esse subtexto vai ao encontro dos conflitos enfrentados por Gugu pelo fato de não ter vergonha de quem é, por outro, serve à outra engrenagem narrativa, espelhando a idosa e o jovem numa situação de aprisionamento psicológico. Ela, por se submeter à convivência de uma instituição que legitima sua despersonalização. Ele, por ter de viver com o pai que faz de tudo para impedí-lo de viver livremente.

Assinado pelo próprio diretor em parceria com André Araújo (juntos também fizeram o premiadíssimo Pacarrete, exibido no Festival do Rio 2019), o roteiro passa muito longe de soar panfletário ao estabelecer os conflitos principais. A derrocada da avó, que faz desmoronar o porto seguro de Gugu e a homofobia, que o pega na curva com o novo cenário de vulnerabilidade. É interessante, no entanto, como Deberton se recuso a transformar Feito Pipa num dramalhão, permitindo ao humor uma fluência para além do alívio. A montagem com os alunos da escola do protagonista explicando uma confusão, por exemplo, cumpre dois expedientes: o de provocar gargalhadas e o de suavizar a vilania do algoz mirim de Gugu (ele é só uma criança, afinal).

Outro que ganha atenuantes do texto é o pai vivido por Lázaro Ramos, um homem que não aceita a personalidade do próprio filho. Ramos, claro, é talentoso o bastante para adotar uma composição de voz suave e olhar sincero, suficientes para humanizar o sujeito, mas é o roteiro quem dá motivos para percebermos que estamos diante de alguém que apenas é fruto de um ambiente tremendamente machista (dar uma revista masculina a Gugu reforça isso).

Também não é preciso mastigar subtextos ou martelar pautas. Ao ser perguntado se gosta de “coisas de menina”, ele responde de forma sucinta “não existe isso de coisa de menino e coisa de menina”, matando a celeuma na raiz. Ora, maquiagem e futebol são paixões excludentes? Pois faltou avisar ao nosso pequeno herói, que ama a ambos. Não mais do que a avó, vivida por Teca Pereira com uma combinação cortante de sinceridade e afeto.

Talvez Feito Pipa acabe por andar em círculos justamente ao substituir o parceiro de cena de Gugu. A avó, antes elemento fundamental através da dinâmica com o neto, torna-se uma peça sobressalente na engrenagem narrativa. Os desdobramentos prolixos abrem margem, no entanto, para o fortalecimento da conexão entre Gugu e o pai, com Yuri Gomes (uma revelação) se colocando à altura do sempre excepcional Lázaro Ramos. Até o primeiro ato, com diálogos menos naturais (o "cuidado, hein" é apenas um dos exemplos) acaba sendo absolvido com o desenrolar da trama.

Encerrando a projeção com um dos planos finais mais fortes de 2026, a força de Feito Pipa não é estridente como de outros representantes brasileiros que chegaram ao Oscar, mas silenciosa como uma história que busca mais humanidade e empatia do que qualquer legitimação “acadêmica”.
NOTA 8
*Crítica publicada durante o Festival do Rio 2026









