CRÍTICA | "Hotel Amor"


Desde A Última Gargalhada (1924), o clássico revolucionário de F.W. Murnau, passando pelo vencedor do Oscar Grande Hotel (1932), é antiga a relação da sétima arte com os hotéis. Muitos, inclusive, permanecem icônicos no imaginário popular e compõem uma gama variada de estabelecimentos, como o decadente Bates Motel de Psicose (1960), o mal-assombrado Overlook de O Iluminado (1980) e o sofisticado presente no título de O Grande Hotel Budapeste (2014). Outros menos badalados merecem uma menção honrosa como o Park Hyatt de Encontros e Desencontros (2003) e o Dolphin do subestimado 1408 (2007). Entre corredores, mensageiros e bares, esses lugares serviram e ainda servem de ambientação para obras de gêneros igualmente variados. Hotel Artemis (2018), por exemplo, mirou em múltiplos, mas acertou em poucos. Já neste Hotel Amor, que recorre a um palíndromo para homenagear o empreendimento que serviu de locação em Lisboa, o diretor brasileiro Hermano Moreira opta pela comédia, mesmo que alguma evolução ainda seja necessária para o timing cômico apresentado.

Na trama, o movimentado Hotel Amor, localizado no coração da capital portuguesa, acaba de ser vendido e uma espécie de fiscal da nova administração está pronta para passar um dia no lugar, o que deixa a equipe em polvorosa, especialmente a gerente Catarina (Jessica Athayde), workaholic ao ponto de morar no próprio escritório. Quis o destino que a data escolhida fosse justamente aquela com uma galeria heterogênea de hóspedes que inclui os jogadores de um importante time de futebol (o fictício Real Catalunha, cujo nome une impossivelmente os maiores clubes da Espanha), uma dupla suspeita que recebe muitas visitas, um grupo de idosas polonesas em excursão e até um famoso comediante brasileiro (Marcelo Adnet, interpretando uma versão fictícia dele mesmo).

O que mais chama atenção é a técnica empregada por Moreira para filmar o projeto escrito por Bruno Bloch. Tal qual 1917, o uso do plano-sequência acaba distraindo mais do que ajudando a contar a história, até porque, os cortes escondidos não são tão sutis quanto deveriam. A coreografia do elenco é precisa, mas a colagem dos planos longos, nem tanto, com transições invariavelmente envolvendo pilastras, tomadas do chão e até de paredes. O cineasta parece encantado demais com as possibilidades dessa trucagem e acaba esquecendo de polir o humor.

Que raramente chega a provocar gargalhadas e quando o faz, geralmente é graças à recepcionista interpretada por Júlia Palha ou pelas tiradas de Catarina, vivida por Athayde com o vigor necessário para esse tipo de papel. A atriz, cuja carreira se deu mais na Televisão, merece uma guinada no Cinema. Ao passo que Adnet, sempre carismático, está tão deslocado que quando é obrigado a fazer imitações, ao invés do riso, ele só desperta pena do espectador.

O hotel é bem planejado, mas pouco aproveitado. Nesse tipo de projeto, o ambiente costuma se tornar um personagem por si só, roubando a cena, mas isso não acaba acontecendo. Ao menos as elipses novelescas, usadas majoritariamente para ilustrarem a passagem do tempo, nos brindam com algumas belezas de Lisboa, outra candidata a protagonista que fica só na promessa.

O que não fica na promessa é a devoção de Catarina ao trabalho. Não bastasse vermos a personagem para lá e para cá o tempo todo para manter o estabelecimento funcionando, Hermano Moreira e Bruno Bloch fazem questão de martelar a cada cinco minutos o fato de que a gerente trabalha mais do que vive, pavimentando de forma trôpega o caminho rumo a um final catártico. Isso para não mencionar a súbita revelação dramática que pesa a mão no arco de Catarina

No geral, Hotel Amor parece mais determinado em fisgar o público pela forma como foi concebido, do que exatamente pelo conteúdo. Mas a julgar pela dificuldade em provocar mais do que um sorriso, trata-se de uma estratégia compreensível.
NOTA 5,5









