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CRÍTICA | "Virtuosas"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 12 minutos
2 min de leitura

*Crítica publicada durante a cobertura do Festival do Rio 2025


O “Goes to Cannes” é uma vitrine de filmes em pós-produção com potencial internacional e, neste ano, reuniu 25 longas-metragens no maior festival de Cinema do planeta. Virtuosas foi justamente um dos cinco projetos brasileiros escolhidos por meio do edital da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAv/MinC), com curadoria do Festival do Rio, que este ano representou o Brasil, país de honra do Marché du Film. Falando no Festival do Rio, a produção é a primeira rodada inteiramente em Santa Catarina a integrar a mostra competitiva.


Dirigido por Cíntia Domit Bittar e escrito por ela ao lado de Fernando De Capua, o longa-metragem pega carona nas críticas do ótimo Medusa (2021) ao crescimento de grupos de culto ao cristianismo e constrói seu próprio relato de uma realidade cada vez mais comum: o dos coachs evangélicos, especificamente aqueles voltados às mulheres. Bruna Linzmeyer (também de Medusa) interpreta Virgínia Heinzen uma espécie de celebridade do universo evangélico que resolve sortear três ingressos para o retiro VIP que irá liderar. Supostamente um momento de fortalecimento da Fé e da comunhão entre cristãos, o evento acaba sendo tomada pelo terror e pelo desespero quando uma lenda urbana ganha vida.

Tirar sarro dessa parcela dogmática e hipócrita é tão fácil que já tivemos acesso a várias produções que fazem isso (Divino Amor, de Gabriel Mascaro, é minha favorita). Com a piada já pronta, o material é vasto, mas Bittar é inteligente ao fazer um recorte específico, o que a possibilita ampliar seus alvos. A questão, em outra demonstração de sagacidade da realizadora, não é debochar da Fé alheia, mas criticar a manipulação por parte de supostos líderes religiosos que enriquecem às custas dos fiéis.

O texto é tão inspirado, que as gargalhados são quase ininterruptas até o terror tomar o filme de assalto. O ultraconservadorismo, o fundamentalismo e a demagogia servem de munição a Bittar, que vai na contramão do Cinema Brasileiro ao focar nas vítimas endinheiradas ao invés dos mais pobres, normalmente presas fáceis dos mercadores da Fé.

Linzmeyer, como já era de se esperar de alguém talentoso, domina a tela com a composição grandiloquente, mas não exagerada de Virgínia, ainda que Maria Galant (A Nuvem Rosa) também tenha seus momentos para brilhar.

A transição para o horror é o ponto fraco de uma direção até então irrepreensível de Cíntia Domit Bittar, que descamba para a violência sem qualquer cerimônia. O desequilíbrio no tom fica ainda mais patente quando o humor, uma das forças do texto, desaparece gradativamente à medida que nos aproximamos do desfecho.

Já é uma baita estreia para Bittar, uma realizadora com recursos suficientes para colocar sua visão criativa em prática, corroborando um discurso que, infelizmente, está cada vez mais perto de deixar de ser ficcional.



NOTA 7

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