CRÍTICA | "Procurando Emily"


Tem sido animador ver o retorno das comédias românticas aos cinemas, superando uma fase sombria na qual o streaming parecia ser seu único e inevitável destino. Algumas dessas obras mais recentes tentam encontrar novas perspectivas para refrescar o gênero, como o vibrante Rye Lane: Um Amor Inesperado. Outras buscam refúgio na nostalgia, como Todos Menos Você. Procurando Emily chega aos cinemas essa semana emulando um pouco das duas propostas, no entanto, assim como a maioria de seus pares, é o casal principal quem acaba chamando atenção mais do que qualquer engrenagem narrativa.
A trama escrita por Rachel Hirons (A Guide to Second Date Sex) começa inocente com Owen, o engenheiro de som do bar da Universidade de Manchester, encontrando a garota perfeita em Emily, com quem estabelece uma conexão instantânea. O problema é que ela vai embora e lhe deixa nada mais do que um número de celular que mais tarde se revela incompleto. Desesperado, no dia seguinte ele sai colando cartazes pelo campus tentando chamar a atenção da amada ou de alguém que a conheça. Quando as esperanças começam a se esgotar, Owen decide ir de sala em sala pessoalmente, até encontrar outra Emily, que não demora a ajudá-lo na busca, escondendo que sua real intenção é utilizar o pobre rapaz como estudo de caso em sua tese que, veja só, apresenta o Amor como um delírio que leva à auto-sabotagem. Nada mais lógico vindo de um filme que abre com a frase freudiana “O Amor é um estado de psicose temporária”.

A partir daí, a história vai ficando cada vez mais absurda, com direito a podcasts caseiros exibidos em telões no meio do pátio (e capturando a atenção de dezenas de transeuntes), um movimento feminista iniciado como reação à busca de Owen e, claro, um amor que floresce mesmo que alguém acabe se aproveitando do outro. Poderia ser uma distopia de humor negro, mas a diretora Alicia MacDonald faz tudo se desenvolver como num filme de Richard Curtis, que após o gigantesco sucesso de Quatro Casamentos e Um Funeral, se tornou o maior nome da Comédia Romântica Britânica.

MacDonald mal parece estar comandando seu primeiro longa-metragem e navega pelos clichês com graça e confiança. Todavia, seu maior acerto é entender Procurando Emily como uma tentativa de rejuvenescer o gênero, não só através do elenco, mas principalmente com o texto. Ao transpor para a tela as ansiedades e as convicções da Geração Z, ela e a roteirista Rachel Hirons acabam criando um mosaico que esporadicamente esbarra na caricatura, o que enfraquece a fluência do discurso e o aproxima do que o público-alvo fatalmente chamaria de “cringe”. Mas como um personagem diz em algum momento, é de se admirar a coragem de quem faz algo mesmo sabendo ser cringe.

Owen, o apaixonado iludido, é interpretado por Spike Fearn (Alien: Romulus) como uma versão mais simpática de Liam Gallagher, ostentando a mesma dicção incompreensível e o mesmíssimo corte de cabelo que o vocalista do Oasis utilizava na juventude. Fearn projeta a inocência necessária para que os conflitos sejam engolidos com facilidade. Ao passo que Angourie Rice, carismática e talentosa desde o debute estelar como a filha do detetive trapalhão vivido por Ryan Gosling no ótimo Dois Caras Legais, não tem a menor dificuldade em estimular nossa torcida por um final feliz entre os dois.

Já o elenco secundário responde bem às funções estabelecidas, mas enquanto a melhor amiga conselheira é uma herança intocável, colocar Owen para morar com o irmão traz possibilidades dramáticas maiores do que simplesmente evocar um contraponto narrativo ou um alívio cômico. Essa subversão encontra eco mais tarde quando o próprio texto reconhece um arquétipo (“Manic Pixie Dream Girl” foi cunhado por um crítico para argumentar sobre a superficialidade do papel de Kirsten Dunst em Tudo Acontece em Elizabethtown).

E como toda boa produção britânica, Procurando Emily ainda inclui uma trilha sonora recheada de sucessos, embora o repertório seja mais eclético do que o esperado (“Call Me Maybe” tocando logo após um rock tradicional?). Mas até essa heterogeneidade sonora contribui para o mosaico geracional construído por uma dupla de mulheres que sabe exatamente o que está fazendo e merece nossa atenção em projetos futuros.
NOTA 7









