CRÍTICA | "Resident Evil"


Depois do sucesso de Noites Brutais e do fenômeno A Hora do Mal, que inclusive rendeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante a Amy Madigan, o diretor Zach Cregger foi contratado para comandar o novo Resident Evil. O fato de a franquia já ter passado por um reboot fracassado nos cinemas e outro no streaming colocou a escolha do cineasta em xeque. Por outro lado, ele foi inteligente o bastante para fugir da comunidade barulhenta de jogadores dos games originais ao anunciar que contaria uma história inédita, sem aproveitar quaisquer narrativas ou personagens. Nas entrevistas prévias, fez questão de se posicionar como fã dos jogos da Capcom e tranquilizou seus pares, já que a intenção era transmitir nas telas a sensação passada ao jogar os títulos. De lá para cá, poucas informações e muita expectativa, até o mesmo Zach Cregger resolver abrir o bico sobre as sessões-teste. Disse que o feedback da audiência foi levado em consideração, o que o fez tirar muitas piadas do filme. “Antes, o excesso de humor atrapalhava a experiência com o terror, agora está realmente muito melhor”, revelou. Depois de finalmente assistir ao novo Resident Evil, a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi exatamente essa entrevista. Afinal, se o que vemos na tela é o resultado do enxugamento de piadas, mal consigo imaginar o que vinha antes.

Na trama um entregador chamado Bryan enfrenta uma noite infernal após aceitar transportar uma carga valiosa até o longínquo Hospital Geral de Raccoon City. Ele acaba passando por todos os perrengues possíveis e alguns inimagináveis para sobreviver e voltar para a namorada, que acabou de descobrir estar grávida.

E o roteiro, escrito pelo próprio Cregger em parceria com Shay Hatten (da franquia John Wick) não economiza nas peripécias, transformando a jornada de Bryan numa pequena, mas intensa odisseia. Longe da megalomania atabalhoada de Paul W. S. Anderson, que cometeu quatro dos seis filmes estrelados por Milla Jovovich, Cregger constrói uma trama simples e enxuta, apostando todas as fichas em seu protagonista. E ele acerta em cheio, mas deixemos essa parte para depois.

Partindo do pressuposto que toda experiência é puramente individual e subjetiva, não parece lógico questionar a forma com que o cineasta levou os jogos às telonas. Quem for aos cinemas esperando uma sessão arrepiante, vai se decepcionar. As risadas são bem mais frequentes do que os arrepios e os fãs de terror estarão certos se criticarem essa percepção. Por outro lado, enquanto jogava, perdi a conta de quantas vezes soltei um “que porra é essa?” antes de atirar numa criatura mutante. Ou de correr enlouquecidamente ao menor sinal de perigo. Ora, o principal objetivo de um “survivor horror” é matar ou viver? Mas repito, essa é uma percepção puramente subjetiva, há quem discorde e tudo bem.

Bryan, no entanto, representa jogadores como eu: ele sente medo, se irrita (com o excesso de cadeados, por exemplo) e age quando necessário. Às vezes, isso pode render gargalhadas. Mas num filme de horror, como sustentar o peso da atmosfera quando estamos frequentemente rindo das reações do nosso herói improvável? Portanto, será recompensado quem encarar Resident Evil como uma sessão para se divertir, não necessariamente para sentir medo, embora os poucos sustos sejam poderosos.

Austin Abrams já havia demonstrado talento para esse tipo de abordagem em A Hora do Mal, e agora é lapidado por Cregger à perfeição, encarnando um personagem que jamais deixa de soar como uma pessoa comum de carne e osso. A identificação é imediata e não há um segundo sequer que consigamos cogitar a possibilidade de abandoná-lo. Não é uma questão de torcer por ele, mas de estar ao seu lado, sentir na pele o que ele está sentindo. De repente, todos nós teríamos as mesmas reações, embora nem todos tomassem as mesmas atitudes (ele não é um cara brilhante ou é o desespero que prejudica seu raciocínio?). De uma forma ou de outra, Abrams merece créditos por carregar o filme praticamente inteiro nas costas.

Zach Cregger quis e conseguiu levar às telonas uma representação fiel da sensação que teve ao jogar Resident Evil e calhou de ser a mesma que minha. Pode e na verdade não deve ser a mesma de todos. Nesse caso, vale uma racionalização antes de apedrejar o cineasta, que de tolo só tem os tentáculos. Aliás, a nova adaptação possui alguns pontos dignos de nota, como a “chuva” de mutantes durante uma corrida alucinada entre prédios e a estratégia muito bem planejada de nunca deixar Bryan em paz: há sempre algo acontecendo e quando pensamos ter chegado ao fim, a narrativa logo o presenteia com outra ameaça. A sensação de movimento que é gerada faz os noventa minutos de projeção passarem voando, mas não pense que a produção ignorou completamente os games. O próprio texto é gamificado (como dizem por aí), estabelecendo pontos de interesse, saltando de fase a fase e deixando no horizonte o objetivo principal. Há até uma singela e hilária homenagem aos videogames no clímax.

Por incrível que pareça, o filme não vive apenas de homenagens e escapismo. Para quem quiser analisar mais profundamente, é possível enxergar um pano de fundo sobre culpa e o medo da paternidade. O primeiro, em referência ao atropelamento ocorrido no primeiro ato e que desencadeia todo o inferno que engole Bryan. O segundo, menos sutil, fica estabelecido na sequência em que o protagonista precisa atravessar o setor neonatal. Até o desfecho de Bryan busca amarrar esses dois elementos.

Mas se mesmo assim o espectador continuar torcendo o nariz, o final caótico deixa margem de sobra para uma continuação e a brecha para uma correção de rota é cristalina. Leon, Jill, Chris, Claire e companhia estão seguros nos games, mas se tiverem que dar as caras nos cinemas mais uma vez, não há com o que se preocupar, pois o terreno já está preparado.
NOTA 7









