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CRÍTICA | "No Limite da Justiça"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 11 horas
3 min de leitura

Somente em 1965 os afro-americanos conquistaram o direito formal ao voto, garantia assinada pelo então presidente Lyndon B. Johnson após efusivos protestos de Martin Luther King, mas isso não impediu alguns estados (onze, para ser mais específico) de exigirem o pagamento de uma taxa, com a intenção velada de manter a empobrecida comunidade negra fora das eleições. No meio dessa confusão racista, surgiu Vernon Dahmer, um comerciante bem-sucedido do Mississipi que também atuava como ativista do NAACP. Dahmer ousou anunciar publicamente que pagaria as abusivas taxas para que todos os negros, como ele, pudessem votar pelo próprio futuro. “Se você não vota, você não conta”, bradava em eventos para o povo negro. O que ele não contava é com a influência da Ku Klux Klan, que seguia lutando pela segregação através de sabotagens, violência e assassinatos, incluindo o dele próprio.

 

O FBI, que nunca morreu de amores pelos direitos civis dos negros, foi obrigado pelo presidente Johnson a se debruçar sobre o caso de Dahmer, buscando levar os homicidas à Justiça por quaisquer meios necessários, numa alusão ao título original. Isso inclui a convocação de Greg Scarpa Sr., braço direito de uma importante família mafiosa que passou a trabalhar para o governo após abrir o bico. A ele, são atribuídos mais de sessenta assassinatos, mas é claro que o FBI nega ter se envolvido com o sujeito.

Vai até aí a parte “baseado em fatos reais” clamado pela campanha de marketing deste No Limite da Justiça, que chega aos cinemas brasileiros enfrentando o boicote da família sobrevivente de Dahmer. A acusação é de ficcionalizar um crime racial brutal e sua respectiva investigação, mas o próprio diretor Elegance Bratton não vê problemas nisso. Numa entrevista recente, ele afirmou: “Meu filme não é história. Meu filme está usando a história como uma forma de comentar sobre a condição contemporânea".

Mas o pouco que Bratton tem a dizer, já foi expresso em filmes melhores por diretores mais eloquentes como Spike Lee no excepcional Infiltrado na Klan (2018), só para ficar num exemplo recente. Também adaptando fatos históricos, Lee não só foi mais ousado ao extrair humor de uma aliança improvável, como utilizou o absurdo daquela premissa para dar vazão à potência de seu discurso. Já No Limite da Justiça apenas usa o contexto histórico como subterfúgio para dar alguma credibilidade ao que na verdade se revela uma típica comédia buddy cop hollywoodiana.

É legal Mark Wahlberg estar procurando variar o tipo de papel que interpreta, mas vê-lo tentar emular os trejeitos do Silvio Dante de Família Soprano (1999-2007), nos faz desejar que ele permaneça eternamente na zona de conforto dos durões que costuma interpretar há quase 20 anos. Ou posso estar apenas sendo malvado com o ator que mal parece já ter sido indicado ao Oscar (por Os Infiltrados, de Scorsese) e ter mostrado tanto potencial (em Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson). A verdade é que nunca deixa de ser divertido vê-lo em cena, especialmente em função do nariz protético que estranhamente é obrigado a utilizar e mais distrai do que agrega. E sua dinâmica com Yahya Abdul-Mateen II funciona na maior parte do tempo principalmente por nos lembrar de Mel Gibson e Danny Glover nos ótimos filmes da cinessérie Máquina Mortífera (1987-1998).

Como o único investigador negro do Caso Dahmer jamais foi identificado, Wayne Strider acabou se tornando um amálgama de vários integrantes da equipe, o que não impede Yahya de encarnar com perfeição o policial que permanece certinho até perceber que as regras não são tão preciosas assim para os outros e podem voltar contra ele mesmo. Esse arco dramático é previsível e desenvolvido aos solavancos, mas o ator, cujo talento jamais foi totalmente explorado no Cinema, sabe mudar a chave quando é preciso e o carisma é imutável em ambas as fases.

Visualmente, No Limite da Justiça exibe mais cores do que o habitual, trazendo um certo frescor que acaba entrando em conflito com o peso da história. A fotografia ensolarada de Ante Cheng, mostra um outro lado do Mississipi e tira bom proveito da iluminação (repare a faixa de luz que sempre ilumina os olhos de Strider, gerando contraste com os olhos de Scarpa quase sempre escondidos atrás dos óculos escuros), ao passo que a trilha sonora de Terence Blanchard (o mesmo de Infiltrado na Klan) tenta se equilibrar entre os temas melodramáticos e a pulsação da bateria típica dos anos 80 (outro aceno a Máquina Mortífera), com resultados nem sempre positivos.

E essa acaba sendo a tônica de todo o filme, que funciona e diverte como uma comédia policial descompromissada, mas o fato de buscar um compromisso (histórico e social) acaba desequilibrando a experiência.


NOTA 5,5

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