top of page

CRÍTICA | "Morte e Vida Madalena"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 12 minutos
2 min de leitura

Pegando emprestado o título do poema modernista de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Morte e Vida Madalena acompanha as dificuldades de uma produtora grávida para tirar do papel uma ficção científica B idealizada pelo pai, recém-falecido. No entanto a epopeia de Madalena (Noá Bonoba) ganha contornos tragicômicos à medida que as dificuldades de se fazer Cinema de forma independente se impõem. Claro, tais dificuldades são extrapoladas ao absurdo pelo cineasta cearense Guto Parente, que enxerga a comédia em todas as etapas do processo.


Ainda mais escrachado que a obra-prima Saneamento Básico: O Filme, outro brasileiro a utilizar da metalinguagem, o filme escrito pelo próprio Parente encontra força nas atuações nada naturalistas de seu elenco, que trocam diálogos afiadíssimos (a resposta de Madalena a um diretor que se compara a Stanley Kubrick tem potencial para arrancar as gargalhadas mais altas do ano) mesmo sem perder o fio da meada dramático.

A relação entre pai e filho(a) é retomada de Estranho Caminho, mas dessa vez como mero porto seguro de Madalena uma personagem que assim como o Severino escrito por João Cabral, enxerga no filho a nascer um sopro de esperança. Que a gravidez esteja em 8 e 1/2 semanas e o rebento se chame Fellini é apenas um dos acenos de Parente à cinefilia.

Morte e Vida Madalena tende a ser mais bem apreciado por quem ama o Cinema de fato, não apenas a experiência de assistir a filmes. Dessa forma, quem já pisou num set de filmagem vai se identificar com os perrengues da produção, divertindo-se com os disparates encenados pelo cineasta. Falando na direção, já imaginou chegar para trabalhar numa filmagem e descobrir que o diretor simplesmente sumiu? Mas Parente não deixa barato e logo costura uma subtrama envolvendo o desaparecido com a produtora, adicionando uma camada a uma narrativa sempre acolhedora.

Cinema pode ser uma difícil de fazer, mas felizmente é uma Arte colaborativa e a comunidade criada ao redor do processo torna tudo menos angustiante. É o que aprende Madalena, dias após desistir de lutar sozinha. É o que aprende Oswaldo (Tavinho Teixeira) ao tentar conduzir o projeto da própria maneira, sobrepondo aos interesses coletivos. Inclusive, o ápice da loucura do personagem entrará forte na disputa pela Claquete de Ouro de Melhor Momento de 2026.

A memória, também presente na filmografia do cearense, chega por meio de belas sequências mostrando Madalena relembrando a infância ao lado do pai artista. São pequenos momentos de introspecção que flertam com o onírico numa narrativa deliciosamente caótica e superior a longas internacionais tematicamente semelhantes como o sul-coreano Na Teia da Aranha e o francês Cinema é Uma Droga Pesada. Uma comédia concebida com maestria por um cineasta que domina o timing cômico e o explora através de um vasto repertório incluindo cortes secos, tiradas rápidas, nonsense e humor físico. Um deleite que provoca o riso substituindo a apelação pela inteligência.


NOTA 7,5

bottom of page
google.com, pub-9093057257140216, DIRECT, f08c47fec0942fa0