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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

'Dias Perfeitos' apresenta a beleza de resistir ao mundo digital


Atualmente, é mais fácil reconhecer os talentos do alemão Wim Wenders como documentarista do que como autor de obras de ficção. Após três indicações ao Oscar de Melhor Documentário, nem todos se lembrarão que o veterano é um dos queridinhos do Festival de Cannes, tendo vencido a Palma de Ouro em 1984, pelo singular Paris, Texas.


Seu mais novo filme, indicado à honraria máxima do mais prestigiado festival do mundo e escolhido pelo Japão para tentar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional, acompanha Hirayama (Koji Yakusho) um senhor pacato e apegado a uma rotina rígida que parece levar há bastante tempo. Homem de pouquíssimas palavras, ele acorda cedo para cumprir sua função como limpador dos banheiros públicos de Tóquio, trabalho que ele leva extremamente a sério apesar dos deboches de de Takashi (artificialmente aparvalhado), insuportável colega de trabalho e ponto fraco da produção. Tóquio não chega a ser uma novidade para Wim Wenders, que rodou um documentário na metrópole japonesa em 1985.

A performance de Kôji Yakusho facilita o trabalho de Wenders ao encontrar beleza no prosaico. Expressivo, Yakusho enfrenta a difícil tarefa de se expressar praticamente sem diálogos e sua cena final, por si só, já justifica o prêmio de Melhor Ator que recebeu em Cannes. Ao ler o parágrafo anterior, é fácil imaginar que algo extraordinário sacudirá a vida mundana de Hirayama, mas porque deveria? Dias Perfeitos não é um filme hollywoodiano e segue fielmente a filosofia japonesa, apostando nos princípios e na relação estreita com a natureza para fisgar o espectador.

Hirayama leva a vida exatamente como gostaria: sem smartphones, computadores, televisores ou qualquer outra tecnologia para distraí-lo, pode dedicar-se exclusivamente à cultura (por meios analógicos, é claro). Sua coleção de fitas cassetes impressiona tanto pelo volume, quanto pela qualidade, indo de Lou Reed (cuja canção empresta o título ao filme) a The Animals. Ele também é um homem letrado, fazendo visitas semanais a um sebo para renovar sua biblioteca. Claro que o roteiro escrito pelo próprio diretor ao lado de Takuma Takasaki encontrará meios de justificar a postura do protagonista, o que pode até tirar seu brilho mesmo que de leve, mas não o impede de permanecer fascinante até seus ótimos segundos finais de projeção. Perceba que ele é muito querido por onde passa, seja a lanchonete subterrânea ou o restaurante do bairro, Hirayama comprova que possui, sim traquejo social, mesmo que seu estilo monossilábico indique o contrário. Talvez por também exibir uma generosidade ímpar, ajudando sempre que solicitado.

Wim Wenders, por sua vez, encontra meios de abraçar a naturalidade de seu protagonista, algo que se reflete na obra. As intervenções visuais que ilustram os sonhos de Hirayama, por exemplo, são criativas e elucidativas (repare como algumas imagens permanecem em cena mesmo após ele acordar, referenciando aqueles momentos trôpegos em que acabamos de acordar). O cineasta também se beneficia da fotografia de Franz Lustig para valorizar a paisagem urbana de Tóquio.

Sempre disposto a viver o “agora”, o protagonista ainda fornece uma bela explicação quando perguntado sobre sua natureza aparentemente solitária (“o mundo é feito de muitos mundos; alguns conectados, outros não.”) e não hesita ao participar de uma brincadeira (jogo da velha) ao encontrar um bilhete no banheiro, resultando em algumas das sequências mais intrigantes do filme.

Poético, filosófico e comovente, Dias Perfeitos é a melhor ficção de Wim Wenders em muitos anos, o que aumenta as chances de o Japão conquistar sua 17ª indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional.


NOTA 8,5

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