CRÍTICA | "Foi Apenas Um Acidente"
- Guilherme Cândido

- 5 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Enquanto era perseguido, detido, preso, proibido de filmar e até de deixar o país-natal, o cineasta iraniano Jafar Panahi construiu uma carreira repleta de obras que refletiam suas atitudes não apenas como ativista, mas sobretudo como um cidadão inquieto perante as arbitrariedades do regime teocrático sob o qual vivia (hoje mora na França). Mas enquanto críticas, denúncias e exposições sempre fizeram parte de seu discurso, suas narrativas frequentemente chamavam atenção por borrarem os limites entre realidade e ficção, como nos extraordinários O Espelho (1997) e, mais recentemente, Sem Ursos (2022).
Já Foi Apenas um Acidente, vencedor da Palma de Ouro em Cannes esse ano, toma um caminho diametralmente oposto àquele trilhado por Panahi ao se apresentar como um longa-metragem mais convencional, considerando seu desenvolvimento linear. A produção gravada em segredo abre com uma família viajando de carro. O motorista (Ebrahim Azizi), distraído pela filha e pela esposa, acaba atropelando um cachorro, parando imediatamente. Ao sair do veículo para analisar a situação, o sujeito é banhado pela luz vermelha dos faróis enquanto sacrifica o animal (jamais o vemos, vale ressaltar), um gesto cujo significado será debatido mais adiante. Não é a primeira vez que o diretor, também responsável pelo roteiro, traz um cãozinho para a história, remetendo a seu ótimo Cortinas Fechadas (2013), em que fazia questão de frisar como o regime trata esse animal especificamente como uma criatura profana, embutindo uma camada extra a seu mais novo projeto.

Esse mero acidente, no entanto, desencadeia uma série de situações que culmina com o tal pai de família sendo sequestrado por Vahid (Vahid Mobasseri) - o dono da oficina mecânica responsável pelo conserto do veículo -, que acredita estar diante do homem que o torturou quando foi preso por “crimes contra o governo”. O problema é que Vahid não tem certeza e sai à procura de quem possa confirmar a identidade do suposto assassino travestido de funcionário público. Depois de iniciar uma instigante discussão sobre o acaso, Jafar Panahi troca de marcha e acelera rumo ao suspense, convertendo o motorista num mero MacGuffin enquanto alimenta pacientemente o suspense. Afinal, o motorista é ou não é um torturador cruel e implacável responsável por traumatizar incontáveis vítimas?

A dúvida é o que de fato sustenta a trama, o que mantém o filme de pé até o final, pois o debate proposto pelo roteiro perde força lá pela metade, quando Panahi finalmente esgota seus recursos e começa a se repetir, fazendo a história andar em círculos. É uma pena, pois a galeria heterogênea de personagens que se forma, representa um mosaico formado por diferentes vertentes políticas, um extrato de uma sociedade composta por indivíduos que nem sempre agem pensando no coletivo. Expressões como “isentão” e “minoria silenciosa” embasam argumentos com forte potencial para identificação. Um microcosmo iraniano, mas que poderia muito bem ser brasileiro, estadunidense, argentino e entre outros. Falando nisso, a corrupção latente das autoridades é outro elemento do qual o diretor não se esquiva em expor, da mesma forma com que salpica a história com humor.

Sacrificando o realismo exibido até então em prol de uma sequência que deveria evocar humanidade e empatia, mas que só provoca espanto pela artificialidade, Foi Apenas um Acidente oferece uma experiência singular por se revelar uma parábola hitchcockiana sem deixar de lado a subversiva essência panahiana.
NOTA 7,5









