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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Dungeons & Dragons - Honra Entre Rebeldes" se contenta com o básico


Provavelmente o role-playing game (ou RPG) mais famoso de todos os tempos, Dungeons & Dragons (“Masmorras e Dragões”, em português) fez e faz tanto sucesso que até hoje marca presença na indústria cultural. Ainda ressonante graças a uma legião de fãs inveterados oriundos de uma época em que os nerds não eram populares como hoje, D&D continua conquistando jogadores graças a referências em obras famosas como o clássico atemporal E.T. – O Extraterrestre e mais recentemente a série Stranger Things. Também gerou algumas adaptações, como o desprezado filme homônimo de 2000 com Jeremy Irons e o cultuado desenho Caverna do Dragão, que apesar de originalmente ter o mesmo título, é apenas mais uma história dentro do vasto universo que compõe o RPG. Assim como este Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes, que surfa na onda de popularidade do jogo turbinada pelos adolescentes do fenômeno da Netflix.

Adaptado pela dupla John Francis Daley e Jonathan Goldstein, o roteiro acompanha Edgin (Chris Pine, de Não Se Preocupe, Querida) em uma jornada ao lado da guerreira Holga para recuperar sua filha das garras do inescrupuloso lorde Forge (Hugh Grant, de Magnatas do Crime), cuja aliança com a temível maga Sofina (da série Sombra e Ossos) coloca em risco a paz do reino. Edgin e Holga ainda contam com a ajuda de Simon (Justice Smith, de Sharper – Uma Vida de Trapaças) um mago inseguro, Doric (Sophia Lillis, de It – A Coisa) uma astuta druida e do misterioso Xenk (Regé-Jean Paige, da série Bridgerton).

Daley e Goldstein não chegam a ser diretores inexperientes, pois já comandaram a fraca refilmagem de Férias Frustradas e o bom A Noite do Jogo, mas é como roteirista que a dupla é amplamente reconhecida em Hollywood, tendo assinado o script de sucessos como Quero Matar Meu Chefe e Homem-Aranha: De Volta ao Lar. Não chega a ser o currículo dos sonhos, mas a colaboração com a Marvel parece ter sido decisiva na hora de a Paramount oferecer o projeto à dupla.

Isso porque Honra Entre Rebeldes bebe generosamente da fonte da Casa das Ideias, especificamente do primeiro Os Vingadores, com direito a uma “homenagem” ao momento em que o Hulk surra Loki como se este fosse um boneco, quando uma criatura repete os movimentos do Gigante Esmeralda na hora de esculhambar uma figura vilanesca. A atmosfera descontraída favorece interações divertidas entre os heróis improváveis, tal qual o supergrupo da Marvel.

Mas enquanto Os Vingadores esforçava-se para arrancar gargalhadas do público, Honra Entre Rebeldes busca apenas o sorriso fácil, que surge invariavelmente de tiradas espirituosas e gags muitas vezes sem grande complexidade. O objetivo claro dos roteiristas é colocar o espectador lado a lado com seus personagens e fazer com que todos se divirtam, mesmo que o empenho para tal seja mínimo. Pois John Francis Daley e Jonathan Goldstein estão satisfeitos com o mínimo e torcem para nós também estarmos.

Assim, a história se desenvolve como uma aventura sem maiores pretensões, com diálogos pouco refinados e tramas que se entrelaçam desajeitadamente. Não importa que o roteiro funcione à base de conversas expositivas (especialmente no primeiro ato), que esporadicamente alguém se dê ao trabalho de gritar o que já estamos vendo com clareza (“vamos nos afogar!” enquanto uma caverna é inundada), ou que os planos dos vilões sejam explicados didaticamente. Basta atirar Edgin, Holga e toda a turma no meio de sequências de ação e salpicar algumas frases de efeito enquanto os competentes efeitos visuais da Industrial Light & Magic fazem o restante do trabalho.

E se não notamos as mais de duas horas de projeção passarem, muito se deve também ao elenco, excepcionalmente escalado. Chris Pine, por exemplo, interpreta uma variação rudimentar do Capitão Kirk de Star Trek, enquanto Michelle Rodriguez, a Letty de Velozes e Furiosos, tem mais uma oportunidade de viver uma mulher forte que não foge de uma boa batalha, ao passo que Hugh Grant assume mais um daqueles vilões afetados que ele vem se especializando em fazer nos últimos anos. O grande destaque, porém, fica por conta do carismático Regé-Jean Page, que não apenas diverte com a incapacidade de Xenk de entender ironias, como também convence nas lutas. O britânico também aproveita a elegância do papel para mostrar porque está sendo cogitado para ser o novo James Bond.

Contando com uma parcela embaraçosa de melodrama (a retrospectiva da vida de uma vítima da batalha final e a psicologia barata envolvendo fracassos), que por sua vez é sabotada pela previsibilidade de um artefato, Honra Entre Rebeldes compensa a falta de confiança na inteligência do espectador com um final que faz jus a toda a expectativa alimentada durante a narrativa, enchendo a tela com magias sempre criativas e que geram efeitos inesperados (o “duelo de mãos mágicas” ganha pontos por substituir os socos e os raios coloridos que normalmente são utilizados). Outra passagem inventiva é aquela construída através de um elaborado plano-sequência que ilustra a fuga de uma personagem capaz de mudar de forma.


Longe de entediar, Dungeons & Dragons – Honra Entre Rebeldes pode até conquistar fãs com o passatempo descompromissado que orgulhosamente oferece, mas que dificilmente será lembrado como a adaptação definitiva do clássico RPG.


NOTA 6


1 comentario


Jnei Cândido
Jnei Cândido
15 abr 2023

Vou assistir.

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