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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Entre Mulheres" comprova que passado e presente ainda se cruzam


Depois de uma breve carreira como atriz, cuja parceria com a cineasta catalã Isabel Coixet rendeu os elogiáveis Minha Vida Sem Mim e A Vida Secreta das Palavras, Sarah Polley vem mostrando ser ainda mais talentosa como realizadora. Indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado logo em sua estreia em 2006 com o delicado Longe Dela, Polley também obteve sucesso com o documentário Histórias Que Contamos (2012), dez anos antes de ser novamente indicada ao Oscar, agora por este Entre Mulheres, adaptado do livro homônimo de Miriam Toews.


Inspirado nos casos reais que assolaram um vilarejo da Bolívia em 2009, quando mais de 150 mulheres e meninas foram vítimas de abusos sexuais após serem dopadas, a história acompanha um grupo multietário de mulheres numa comunidade Menonita que passa por problemas semelhantes, com os homens locais utilizando tranquilizantes para vacas a fim de subjugá-las e estuprá-las durante a madrugada. Um criminoso chega a ser pego, indo para a cadeia junto dos comparsas que delatou. A prisão, decretada para “proteger os condenados” causa um esvaziamento indireto da tal comunidade, fazendo com o grupo feminino se organize para decidir o que fazer em relação ao caso, já que em poucos dias deverão anunciar se perdoam os estupradores ou não.

Por mais banal que possa parecer, o perdão é fundamental dentro desse contexto, tratando-se de um ambiente extremamente religioso, o que aumenta a responsabilidade das moças, cujas ações são diretamente influenciadas pelos dogmas cristãos e o desejo de garantir um lugar no Paraíso. Mais do que isso, tal decisão está atrelada diretamente ao futuro, pois independente da resposta que derem, elas sabem que haverá consequência. O que deve ser feito? Manter-se na inércia, ficar e lutar ou deixar a comunidade? Enquanto muitas se veem inclinadas a perdoarem para garantir um “além-vida” melhor, outras procuram assegurar condições melhores ainda neste plano de existência. Esse é o conflito que rege toda a trama, com argumentos dos mais variados tipos, mas sempre voltando a questões religiosas.

A religião, vale ressaltar, é mais do que um pano de fundo na história de Entre Mulheres, pois é abordada por Sarah Polley como um subterfúgio utilizado pelos homens para exercer controle sobre elas, preocupadas em reagir e acabarem condenadas à danação eterna. Afinal, antes da confissão de um dos estupradores, as mulheres eram desacreditadas, mesmo apresentando hematomas logo ao acordar. A “obra de Satanás” utilizada como justificativa para descredibilizar a voz da Mulher é apenas uma forma arcaica dos muitos argumentos que até hoje são empregados com a mesma intenção (o gaslighting talvez seja o artifício da moda). Essa ideia de contemporaneidade é complementada brilhantemente pela decisão tomada por Sarah Polley de não nomear o lugar onde se passa a história, atribuindo um teor de universalidade que expande o escopo da obra (e os costumes Menonitas trazem um aspecto atemporal).

Num cenário em que o questionamento é encarado como um ato de traição, a simples reunião para discutir uma atitude ganha contornos dramáticos, ainda mais por se tratar de uma parcela submissa e marginalizada. Numa das passagens mais marcantes do filme, uma personagem lembra que, assim como suas amigas, sequer aprendeu a ler e a escrever, pois não teve acesso à educação, mas já podiam votar, o que seria fundamental para garantir os direitos pelos quais tão arduamente tiveram de batalhar. Direitos simples, mas complexos de serem conquistados justamente em função do sistema patriarcal no qual se encontram.

Porém o roteiro não é leviano e nem radical a ponto de fazer generalizações: único homem presente nas reuniões, August (Ben Whishaw, o Q de 007) só foi aceito por ser plenamente alfabetizado, característica obrigatória à função de escrivão para o qual foi escolhido. Mesmo quando alguém resolve descontar frustrações nele, August permanece sereno, agindo com cordialidade e compreendendo a situação. Whishaw, um ator de performances memoráveis, mas pouco reconhecidas (vide Perfume: A História de um Assassino e A Viagem), faz um trabalho admirável ao adotar uma composição retraída, de humildade excessiva, mas que reconhece a importância do seu papel, exercido mesmo durante um período de imenso sofrimento (e os sorrisos contidos que esboça, sempre com a cabeça baixa, são reveladores nesse sentido). É através de August que o texto faz uma bem-vinda ode ao poder da educação, exaltando o ofício do professor e presenteando o espectador com um belo discurso do homem, que fez faculdade e trabalha dando aulas aos mais jovens.

O roteiro já suficientemente rico de reflexões, perde o foco ao tentar alargar seus questionamentos, fazendo com que os personagens se entreguem a monólogos existencialistas e filosóficos fascinantes, mas que pouco acrescentam à trama. Uma discussão periférica que acaba sendo absorvida, no entanto, é aquela sobre a relação do amor com a violência “como um sentimento tão belo pode provocar tanta violência? Ausência de amor, necessidade de amor, fim do amor...”, indo ao encontro do discurso de August sobre os homens, que mesmo na adolescência, um período complexo no qual age-se impulsivamente para atender a desejos muitas vezes indomáveis, podem ser ensinados através do amor (“ensinar com amor, gera amor”, ele justifica).

Investindo numa atmosfera densa, mas não pesada (há espaço para o humor), Sarah Polley conduz a narrativa com segurança, permitindo que o espectador sinta a gravidade da situação, algo fundamental para que se compreenda os rompantes de fúria de Mariche (Jessie Buckley, excelente) ou o ódio profundo nutrido por Salome (Claire Foy, numa atuação digna de prêmios). Comandando um elenco repleto de talentos, Polley é hábil ao extrair performances superlativas, fazendo com que as supracitadas Buckley e Foy atinjam o potencial máximo de suas personagens. O destaque, todavia, fica por conta de Rooney Mara, que faz da protagonista Ona a personagem mais complexa de toda a narrativa.

Exibindo uma fotografia dessaturada que reflete a infelicidade de suas personagens, Entre Mulheres é uma produção concebida com o esmero de quem sabe estar trabalhando com um material forte e necessário para a época na qual vivemos, adotando um discurso eloquente e enérgico, mas com espaço suficiente para a sensibilidade, mesmo ao escancarar que passado e presente, infelizmente, ainda se cruzam em vários aspectos da nossa Sociedade.


NOTA 8

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